"Causa do incêndio principal" de junho "ligada a linha elétrica"

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Causa do incêndio principal de junho ligada a linha elétrica

A ver: "Causa do incêndio principal" de junho "ligada a linha elétrica"

O relatório técnico independente sobre Pedrógão Grande encomendado pelo Governo chegou na tarde desta segunda-feira ao Ministério da Administração Interna. Ouvido pela reportagem da RTP, o coordenador Xavier Viegas indicou que o documento aponta como "causa do incêndio principal" ocorrido em junho uma linha elétrica "que foi mal mantida".

"Logo no começo do incêndio, no nosso relatório apontamos que a causa do incêndio principal, que é o de Escalos Fundeiros e de Regadas, está ligada a uma linha elétrica, uma linha que foi mal mantida, que não foi feito com o devido cuidado a limpeza da vegetação em volta e que terá havido contactos entre a linha e a vegetação", explicou o responsável.

Domingos Xavier Viegas apontou também falhas "na perceção da gravidade do incêndio, no ataque inicial, na forma como ele foi abordado, no modo como foram dispostos os meios". Com "a entrada da trovoada", o incêndio "tornou-se incontrolável".

À entrada para o Ministério da Administração Interna, onde entregou o relatório O complexo de incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes, iniciado a 17 de junho, o professor da Universidade de Coimbra, referiu que "são muitas a conclusões e são muitas as lições que temos de aprender deste incêndio, uma delas a de que ele pode repetir-se".

Xavier Viegas lamentou precisamente a repetição, este domingo, da tragédia de junho, quando se pensava que algo semelhante só poderia ocorrer de novo dentro de vários anos.

"Infelizmente no dia de ontem e em parte de hoje vimos que o país pais é vulnerável a este tipo de situação", afirmou.

"Há muita coisa que tem de ser feita", acrescentou, incluindo a melhoria dos espaços rurais e das condições de vida das pessoas, estabelecer uma melhor ordenação dos espaços florestais e conseguir uma vegetação mais cuidada.
Meios "não se mostraram suficientes"
No relatório do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais pode ler-se que quer os meios disponíveis, quer o comandante operacional, "não se mostraram suficientes para controlar" o incêndio que deflagrou pelas 15h00 de 17 de junho em Escalos Fundeiros, Pedrógão Grande.O relatório conclui que morreram no incêndio de Pedrógão 65 pessoais e não 64, número até agora dado como oficial.


"No ataque inicial ao foco de Escalos Fundeiros, foi desde logo reconhecido o seu potencial para se vir a tornar um grande incêndio, mas os meios disponíveis e o seu comandamento não se mostraram suficientes para controlar o incêndio, que apresentou uma dificuldade de supressão acima da média", refere o relatório comissionado pelo Executivo.

O relatório, entretanto publicado no Portal do Governo, refere que "a ocorrência simultânea de outros incêndios na região e a falta de perceção da sua importância, nos vários escalões de decisão, levou a que não fossem utilizados mais recursos, nomeadamente mais meios aéreos pesados, no seu combate, no período entre as 15h00 e as 18h00".

"Embora o processo de triangulação de meios previstos no SGO [Sistema de Gestão de Operações] tenha funcionado dentro do previsto, a reação ao agravamento da situação foi claramente tardia", sublinha-se no documento.
Emergência "não está preparada"
O relatório do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais conclui também que os acontecimentos de meados de junho deixaram patente que o sistema de emergência "não está preparado" para responder a um número tão elevado de vítimas.

A falta de meios de socorro perto das casas, de energia elétrica, de água ou de comunicações deu origem a uma fuga de pessoas que "procuravam ir para locais seguros, mas a grande escala deste fenómeno tornou os locais seguros muito distantes e o fogo interrompeu o trajeto que essas pessoas seguiam".
O relatório aponta que o incêndio mais grave resultou de ignições em Escalos Fundeiros e Regadas e nota que esta última foi "menosprezada, tendo até à junção com o incêndio de Escalos Fundeiros apenas um meio pesado de combate terrestre dedicado".
"A progressão muito rápida do incêndio colheu várias pessoas de surpresa nas mais variadas direções para que tentaram fugir", lê-se no relatório.

Por outro lado, a falta de limpeza da envolvente das estradas permitiu que muitas pessoas fossem colhidas em fuga pelo fumo e pela radiação do incêndio, pelas chamas da vegetação em redor e mesmo por árvores caídas.

"A quase totalidade das vítimas morreu quando tentava fugir de carro pela estrada e, apenas num troço de 400 metros da EN-236-1, perderam a vida 30 pessoas", sublinha o documento.

"Apenas quatro das 65 vítimas mortais deste incêndio perderam a vida dentro de casa", em circunstâncias ainda sob investigação. Todavia, "todas elas tinham algum problema de mobilidade ou de saúde".

"Verificou-se que para a larga maioria das vítimas e mesmo para outras pessoas que sobreviveram à exposição do fogo enquanto fugiam, a permanência em casa teria sido a opção mais segura", frisa o documento.
Falha geral nas comunicações
O relatório aponta também que o sistema de comunicações por rádio e telefone teve uma falha geral em toda a região - por limitações inerentes aos sistemas, sobrecarga de utilizadores ou deficiente utilização.

Outra conclusão é a de que a prestação de apoio psicológico e socorro médico e hospitalar teve "deficiências que importa estudar melhor".

É também salientado que os municípios de Pedrógão Grande e de Castanheira de Pêra não dispunham de Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PMDFCI) validados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

"Este facto inibiu estas entidades de receberem financiamento durante os últimos anos para promoverem ações de prevenção, com manifesto prejuízo destas", conclui-se no relatório, que manifesta reservas relativas "às evacuações compulsivas generalizadas".

O relatório aconselha um "grande cuidado na seleção dos quadros de Comando da estrutura da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC) e dos bombeiros" e defende que o ICNF deverá "ter uma presença maior e uma participação mais efetiva na gestão do problema dos incêndios florestais".

Quanto à prestação de socorro médico em catástrofes, o relatório afirma que "há que melhorar muito a organização de um serviço de busca e salvamento, para prestar socorro e apoio sanitário, em todo o território afetado".

Entre outras recomendações figura a criação um Programa Nacional de Gestão de Incêndios Florestais que envolva as diferentes entidades da sociedade civil e do Estado.

c/ Lusa

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