"Falta passar do papel à prática" na ferrovia. Hitachi Rail pede "previsibilidade" no setor

"Falta passar do papel à prática" na ferrovia. Hitachi Rail pede "previsibilidade" no setor

Portugal atravessa uma "boa fase" na ferrovia com vários investimentos em curso, aponta o diretor-executivo da Hitachi Rail em entrevista à RTP Antena 1, mas defende que é precisa previsibilidade perante os projetos que as empresas no setor têm em mãos.

Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1 / Adicionar como fonte informativa
Foto: Nuno Patrício - RTP

Entre a apresentação e a execução da obra, por vezes, vai uma grande distância - às vezes de anos. Sobre a ferrovia portuguesa, o CEO da Hitachi Rail em Portugal, multinacional japonesa que trabalha em soluções tecnológicas neste setor, diz que para as empresas é essencial que os projetos delineados se executem "o melhor possível e dentro dos prazos". 

Questionado pela competitividade do mercado português, Joaquim Santos defende que falta neste momento "passar do papel à prática", com a execução do que é planeado. "Estamos a ver que vamos nesse caminho", considera ainda assim, com elogios à "boa fase" do setor que pode tornar Portugal num "caso interessante". 

Esta é uma de duas partes de uma entrevista da Hitachi Rail à RTP Antena 1 - a outra, sobre o Metropolitano de Lisboa, pode ser lida aqui. O CEO da empresa vê mais como uma "oportunidade" do que um desafio trabalhar com a Infraestruturas de Portugal (IP), mesmo com a antiguidade de várias partes da ferrovia portuguesa. Antevê também, à semelhança do que está a fazer no Metro de Lisboa, uma renovação do sistema de informação ao cliente. Mas neste caso opta por não antecipar prazos, apenas perspetiva mudanças na Linha do Algarve e de Cascais, na região de Lisboa.
CEO da Hitachi Rail Portugal, Joaquim Santos, em entrevista à RTP Antena 1 | Portugal em Direto, 21 de setembro de 2026

Além do Metro de Lisboa e do Porto, a Hitachi Rail também fornece sistemas de informação ao público nas estações ferroviárias, em muitos casos com sistemas já antigos e algo obsoletos. Há televisões quadradas na sua dimensão, algo que já não estamos habituados a ver. Mas também aqui há uma atualização a ser feita, por exemplo, na estação de Lisboa Oriente que já tem ecrãs novos. Como está a correr esta renovação?

Primeiro que tudo, são investimentos grandes que carecem de financiamento importante. Aquilo que tem estado a acontecer no país é que vemos que isso é faseado, seja a IP, o Metro do Porto ou de Lisboa. É algo perfeitamente normal. Seguimos o calendário do cliente e, quando há lugar a uma renovação, apresentamos a solução que nos parece mais adequada.

Tentamos fornecer obviamente a gama de equipamentos que é o estado da arte nesse momento de vida. Isto leva depois também a que os sistemas durem durante muito tempo, mas a evolução nos últimos anos tem sido efetivamente muito rápida.

Há algum plano de próximas estações ou grupo de linhas que vão receber estes novos sistemas de informação ao cliente?

Há vários projetos ou prospetos de futuros projetos na IP com calendário desenhado e decidido pela própria IP, em que se prevê várias renovações durante os próximos anos. Novos ecrãs instalados na Estação do Oriente, em Lisboa | Foto: Hitachi Rail Portugal

Ferrovia obsoleta? "Vemos como uma oportunidade" para desenvolver
Consegue detalhar algumas?

Temos alguns contratos para a Linha do Algarve e de Cascais. Há uma série de contratos em curso e outros que virão no futuro. Não tenho de cor as datas efetivas dos projetos, mas são projetos que estão a decorrer. Levará um ano ou dois a ter tudo em funcionamento.

Cascais e Algarve, em todo o caso, estão na calha como sendo os próximos?

Estão na calha, e estamos a renovar também toda a parte de software central da IP que gere isto tudo para permitir que o desenvolvimento de novas estações possa ser também faseado. É um processo em curso, vai levar o seu tempo.

São projetos complexos porque são renovações, digamos, profundas que estão a ser feitas, com renovações de estação, de via. Trabalhamos em horários muito mais reduzidos porque não podemos parar o sistema pura e simplesmente fazer a renovação. Portanto, é um processo longo e vai ser faseado em termos de entrada ao serviço dos novos sistemas nas estações já existentes.Ecrãs da estação de Mira Sintra-Meleças | Foto: Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1 (fevereiro de 2026)

Ferrovia obsoleta? "Vemos como uma oportunidade" para desenvolver

É um desafio também para a própria Hitachi Rail o estado em que a ferrovia está em Portugal? Há partes que estão mais obsoletas.

Não, eu considero mais uma oportunidade. Não é um problema. Estamos habituados a fazer renovação de sistemas para a ferrovia. Há muitas novas tecnologias, diretivas europeias que também exigem determinados tipos de novos sistemas. Estamos aqui num período em que eu diria que o desafio é interessante e vemos como uma oportunidade para fazermos coisas, para desenvolvermos trabalho com os nossos clientes aqui em Portugal, com a IP.

Há efetivamente muito trabalho para ser feito, não tanto devido à obsolescência - obviamente em parte também - porque estes sistemas também não se podem renovar todos os dias, porque o custo é grande, mas sobretudo devido à evolução que tem havido e às novas tecnologias, aos novos sistemas que existem, até para garantir uma maior interoperabilidade e sustentabilidade.

Há sistemas mais antigos, que não estão a funcionar, por vezes não apresentam a informação mais fidedigna da passagem de comboios. São problemas que podem estar mais relacionados com a própria operação, no momento, ou há alguns problemas de raiz da solução utilizada?

A solução que está a ser utilizada foram soluções desenhadas numa determinada altura com a tecnologia que existia. Pode haver avarias que a um determinado momento condicionam o funcionamento, mas normalmente são resolvidas dentro dos tempos que existem nos contratos de manutenção que certamente a IP e o metro têm.

Obviamente há aqui uma componente daquilo que são as novidades técnicas de hoje, que os sistemas não evoluíram.

É desafiante manter essa tecnologia daquela altura ativa nos dias de hoje?

Em alguns itens representa alguns desafios, mas nada que as nossas equipas não consigam fazer. Quando há um assunto que não se consegue resolver, normalmente aquilo que se faz é discutir com o cliente uma solução alternativa, que passa por uma evolução do sistema, garantindo a interoperabilidade. Há formas de o fazer.

Houve uma parceria da Hitachi com a Critical Software para produzir um módulo no sistema de controlo de 86 comboios, posteriormente foi apresentado um novo trabalho da Hitachi com a IP. Como está esse processo?

Faz parte de uma modernização grande lançada pela IP, que visa também garantir a que operadores privados possam circular nas linhas. O projeto está a decorrer dentro da sua normalidade: estamos em fase de testes estáticos [testes feitos em laboratório ou no material circulante, mas parado], já começámos testes dinâmicos. [testes em material circulante em movimento] São processos complexos, longos e que envolvem uma certificação dos equipamentos para poderem circular.

É previsível que esteja terminada até ao próximo ano? Era o que se esperava da apresentação feita no ano passado.

Sim, neste momento estamos em linha com o cronograma.

Pensando num futuro mais próximo, dos 86 comboios, há 22 comboios de passageiros da Stadler que têm chegado a Portugal e com a expectativa de, no próximo ano, ter as três primeiras unidades a funcionar no Alentejo. Já terão esta solução tecnológica implementada?


Eu penso que essa parte do Alentejo será efetivamente a primeira linha a utilizar estas máquinas.

A Linha do Alentejo é uma das linhas onde há partes sem qualquer sistema de controlo de velocidade, ainda há cantonamento telefónico. Esta solução tecnológica pode ser usada em qualquer parte do país?

Isso depois é mais uma questão de definição das regras de operação. Quando um comboio circula numa zona que não está protegida por sinalização ferroviária eletrónica, há outro conjunto de regras que se aplicam. Esses sistemas depois não funcionam como funcionam dentro de uma zona que esteja protegida por sinalização eletrónica.
"Temos necessidade de previsibilidade". Hitachi Rail quer projetos que se executem "o melhor possível e dentro dos prazos"

Tendo assumido há poucos meses o cargo de CEO da Hitachi Rail em Portugal, há alguma mudança de estratégia ou posicionamento em Portugal?

Não há mudança nenhuma. A estratégia da Hitachi Rail em Portugal era e é de trabalhar em conjunto com os clientes locais para desenvolvermos e instalarmos, dentro do que for possível, as nossas soluções com vista a melhorar a eficácia e a sustentabilidade da rede. Contribuir para que IP, Metro de Lisboa, Metro do Porto possam fornecer serviços de melhor qualidade.

Há muitas oportunidades, inclusive, daquilo que já foi apresentado do plano para a rede ferroviária nacional nos próximos anos. Temos uma equipa com competências suficientes, 35 anos de know-how, para endereçar esses novos projetos. O nosso compromisso é continuar presentes, continuar a investir aqui no mercado nacional e continuarmos a ser um dos principais atores neste mercado, dando continuidade àquilo que tem sido a nossa atividade.

E o mercado português é suficientemente competitivo ou sente que falta algum tipo de dinamismo neste setor ferroviário?

Penso que aquilo que falta neste momento é realmente passar do papel à prática: aquilo que são os planeamentos e que está previsto ser feito e executado. Estamos a ver que vamos nesse caminho. Em termos de empresas, fazemos investimentos e precisamos de olhar para o futuro, mas com um planeamento que nos permita gerir a nossa capacidade mediante aquilo que temos pela frente. Essa é a nossa grande expectativa: os projetos que estão delineados depois que se executem o melhor possível e dentro dos prazos, porque temos necessidade de alguma previsibilidade em termos de negócio. Manter uma empresa como a nossa requer alguma previsibilidade em termos de trabalho futuro.

Refere-se ao cumprimento de prazos? Por vezes isso na ferrovia é difícil.


Estamos habituados a trabalhar com isso. São projetos muito complexos porque envolvem sempre obra civil, infraestrutura e depois de sistemas.

Agora, aquilo que são planos macros do país com os investimentos que vão ser feitos ou que estão previstos ser feitos, isso efetivamente preocupa-nos e é aí que gostaríamos de ver efetivamente aquilo que é delineado, porque nós também projetamos tendo em conta esses dados, para podermos prever o futuro. Joaquim Santos na sede da Hitachi Rail Portugal, que fica em Paço de Arcos, em Oeiras | Foto: Hitachi Rail Portugal

"Não há muitos projetos de alta velocidade com bitola ibérica e isso criou-nos dificuldades"

Considera que a ferrovia portuguesa, neste momento, atravessa uma boa fase?

Penso que sim, com tudo o que está a ser feito de renovações, com os projetos que estão a ser lançados de alta velocidade e da linha convencional. É um projeto de fundo interessante e de uma dimensão grande. Pode-nos levar a ter uma série de anos de trabalho pela frente, são projetos demorados, mas transformamos a nossa ferrovia num caso interessante para outros países seguirem aquilo que estamos a fazer.

Falando na alta velocidade, foram anunciados dois candidatos [Alstom e Talgo] no concurso de comboios de alta velocidade para Portugal. A Hitachi chegou a pensar concorrer a este concurso?

Olhámos para o concurso, obviamente, mas decidimos não participar, porque as alterações que teríamos de fazer ao design das nossas plataformas e recertificações para o volume de negócio não eram um negócio interessante para nós. Tínhamos aqui alguma limitação e foi decidido não participar.

Não há muitos projetos de alta velocidade com bitola ibérica e isso a nós criou-nos algumas dificuldades.
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