Famílias ciganas continuam acampadas em Loures

Cinquenta e três famílias de etnia cigana, que recusam regressar ao bairro da Quinta da Fonte, estão acampadas à porta da Câmara Municipal de Loures. O presidente da autarquia critica a maioria das famílias por não ter as rendas em dia.

RTP /
As famílias ciganas não deixam o largo em frente à autarquia enquanto não receberem garantias de segurança RTP

As famílias garantem que não deixam a porta da câmara, onde esta manhã foram sujeitas a rusga policial. Um membro da comunidade foi detido por posse ilegal de arma e foram apreendidas três caçadeiras e uma espingarda.

Foi o resultado de uma “operação especial de prevenção criminal”, promovida pela PSP de Loures em coordenação com o Ministério Público, no âmbito da nova lei das armas.

O comandante da PSP de Loures, comissário Resende, referiu que a operação já estava planeada, mesmo que as famílias não estivessem acampadas em frente à Câmara Municipal. Na operação participaram 50 elementos da PSP de Loures.

A PSP garantiu que não vai intervir se as pessoas decidirem continuar em frente ao edifício sede da autarquia porque “o direito á manifestação é um direito constitucional”.

Associações juvenis com projecto para aproximar moradores

A Associação de Jovens da Apelação (AJA), a Vitamina C e o Clube Cidadania são organizações juvenis da freguesia da Apelação que querem mudar o clima de insegurança no bairro da Quinta da Fonte.

Depois de uma reunião decidiram levar a cabo a “Operação Juntos construímos mais”, constituída por três iniciativas, a realizar na próxima semana.

A primeira acção é uma Marcha pela Paz, na próxima segunda-feira, a partir das 20h, com início no Largo da Igreja da Apelação.

A segunda iniciativa será a pintura de um mural, cuja pintura vai começar quarta-feira e onde vão colaborar profissionais do ‘grafiti’. O mural deverá estar concluído no dia 26, pelas 11h, hora em que os jovens vão iniciar a pintura das paredes de prédios do Bairro.

A pintura de prédios da principal rua do bairro é a terceira acção, tendo sido designada “Vamos dar uma pincelada nisto tudo…”

As iniciativas são abertas a todos os que vivem no bairro, assim como “outros jovens voluntários que queiram aderir, a todas as empresas e a todas as pessoas que queiram estar connosco nesta causa”, disse Délcio Martins, da AJA.

“Estamos todos muito saturados com tudo o que tem acontecido”, desabafou Délcio Martins, que sublinhou: “não são todos os ciganos que estão envolvidos nisto, não são todos os africanos, mas uma pequena parte destas etnias”.


Câmara diz ter garantias de segurança na Quinta da Fonte

O presidente da Câmara de Loures disse ter recebido garantias do Ministério da Administração Interna de existirem todas as condições de segurança para o regresso das famílias ciganas ao bairro. A questão da segurança é, segundo o autarca, o principal problema.

Carlos Teixeira repetiu que não existem alternativas em Loures para realojar as famílias que deixaram o bairro da Quinta da Fonte. “Identificámos oito famílias que têm as casas danificadas e essas ficarão instaladas numa tendo do Exército até que as suas casas estejam arranjadas. As restantes terão de regressar às suas casas”, disse.

O autarca esteve reunido com o advogado dos ciganos, na tarde de sexta-feira, para arranjar uma forma de convencer as famílias a voltar ao bairro da Quinta da Fonte.

O Exército montou cinco tendas de cerca de 30 metros quadrados, numa zona muito próxima do bairro. As famílias em causa recusam esta solução. Também as restantes famílias recusam voltar para casa, pois, dizem, têm medo.

Nas contas do presidente da Câmara abandonaram o bairro 10 por cento das famílias ciganas. Trata-se de “um problema levantado por uma minoria”, diz Carlos Teixeira. O autarca acrescentou que apenas três das 53 famílias em protesto têm a “renda em dia”.

"Temos já vários pedidos de despejo no tribunal", acrescentou. O valor mensal da renda é, em alguns casos, de 4,50 euros.

O autarca assegurou ainda que não vai fazer qualquer pressão no sentido de as famílias deixaram o jardim de Loures, onde se encontram acampadas.

Presidente da República viu imagens “com tristeza”

O Presidente da República afirmou que viu as imagens de violência na Quinta da Fonte “com alguma tristeza”. Cavaco Silva expressou o desejo que tudo se resolva sem criar "guetos étnicos".

No final de uma visita ao Vale do Ave, Cavaco Silva manifestou a esperança de que os incidentes tenham sido "uma excepção".

"Esperemos que as forças de segurança consigam restabelecer uma situação que evite a criação de guetos étnicos", afirmou.
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