Governo renova avisos contra "condutas criminosas"
O funeral do bombeiro de Alcobaça que morreu no combate ao incêndio dos últimos dias em São Pedro do Sul foi o momento escolhido pelo ministro da Administração Interna para voltar a pedir a “todos” que se “abstenham de condutas, quer intencionais quer negligentes, que ponham em causa a floresta”. Em simultâneo, o presidente da Liga dos Bombeiros disse que se impõe reflectir sobre a “transformação da floresta portuguesa”.
Após o funeral, o ministro da Administração Interna reafirmou o apelo "para que todos se abstenham de condutas, quer intencionais quer negligentes, que ponham em causa a floresta". Condutas que Rui Pereira classifica de "criminosas".
"Queria repetir aquilo que ouvi dizer na homilia: a melhor homenagem que nós lhe podemos prestar, naturalmente, é continuar este combate para defender pessoas e bens, para defender a floresta portuguesa, e é abstermo-nos de quaisquer condutas", insistiu Rui Pereira. Para depois reforçar a homenagem ao bombeiro de Alcobaça, que, sublinhou, "em condições de grande heroísmo, de grande bravura, deu a sua vida pela comunidade para combater este flagelo que são os fogos florestais no nosso país".
O governante quis também deixar "uma palavra de homenagem" à bombeira que morreu terça-feira num incêndio em Gondomar: "Queria também deixar já aqui uma palavra de homenagem, de sentimentos, de condolências à família pela morte dessa jovem bombeira, da Cristiana Santos, que também ontem deu a vida pela comunidade".
"Questões profundas"
À margem do funeral de João Pombo, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses pediu, por sua vez, uma reflexão sobre as cíclicas vagas de incêndios florestais que assolam o país, de modo a concretizar a "transformação da floresta portuguesa". "Após este período", disse Duarte Caldeira, "é preciso que congreguemos esforços no sentido que reflictamos de maneira a que seja possível iniciar um caminho que está por iniciar".
"Nós não podemos continuar a permitir de uma forma, digamos, resignada que estas coisas continuem a acontecer sem que pelo menos nos questionemos sobre o que fazer para alterar este estado de coisas", acrescentou o responsável, para quem é tempo de atender a "questões profundas" que dizem respeito a "todos os decisores políticos" e a "todos os cidadãos": "Não é mais possível nós continuarmos a ter todos os anos este flagelo com uma sensação de impunidade e de impotência perante ele".
Reconhecendo que o dispositivo de combate está a enfrentar "um ano muito difícil sob o ponto de vista do tipo de incêndios", Duarte Caldeira salientou que o país está confrontado com "um problema": "É que quando saem da agenda mediática, os incêndios florestais são esquecidos até ao ano seguinte".
Bombeiros sem descanso
Ao início da tarde de quarta-feira, os dados da Autoridade Nacional de Protecção Civil referiam mais de meia centena de incêndios activos. Um dos maiores lavrava em Calcedónia, no concelho de Terras do Bouro, onde o combate era assegurado por 173 operacionais dos bombeiros, apoiados por 51 viaturas e um helicóptero.
Ao fim da tarde, o governador civil de Braga garantia que as chamas que lavravam numa encosta junto à vila termal, na Serra do Gerês, estavam parcialmente controladas. Em declarações à agência Lusa, Fernando Moniz explicava que os bombeiros, a GNR e as equipas especializadas do Parque Nacional da Peneda-Gerês permaneceriam na região para controlar os focos que subsistiam em Calcedónia, perto das margens da barragem da Caniçada.
No Parque Natural da Serra da Estrela, os bombeiros combatiam, à mesma hora, um incêndio com duas frentes activas em Aldeia da Serra e um outro fogo em Vide. Mais a Sul, um incêndio em Belas, Sintra, mobilizava mais de 300 bombeiros e uma centena de veículos.
Em Viana do Castelo, as chamas ameaçavam residências nas freguesias de Santa Marta e Subportela. Perante a progressão dos incêndios, o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, José Maria Costa, pediu um "reforço urgente de meios aéreos". Quatro aviões bombardeiros Airtractor foram entretanto destacados para o combate às chamas naquele concelho, que, na freguesia de Cardielos, devastaram um armazém de material eléctrico e um posto de transformação de electricidade.
Um incêndio no concelho de Oliveira de Azeméis e em parte do concelho de São João da Madeira ameaçava, cerca das 16h00, várias casas nas freguesias de São Roque, Macieira de Sarnes e Nogueira do Cravo. Três horas mais tarde, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Fajões, Manuel Abreu, que assegurou o comando de 12
corporações durante o combate, declarava o fogo controlado.
Ao cair da noite, a Autoridade Nacional de Protecção Civil registava já 60 incêndios activos. Em São Pedro do Sul, renasciam quatros focos de incêndio que lavravam "essencialmente nas localidades de Santa e de Carvalhais", segundo o presidente da Câmara Municipal, António Carlos Figueiredo. O incêndio de Belas, no concelho de Sintra, foi dado como controlado às 20h00.