Jean-Pierre Bemba poderá vir para Portugal para "tratamento médico"

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O ex-vice-presidente da RDCongo Jean-Pierre Bemba, refugiado desde sexta-feira numa missão diplomática em Kinshasa, poderá deslocar-se a Portugal "para tratamento médico", estando em curso negociações oficiais nesse sentido.

Fontes diplomáticas africanas, contactadas por telefone em Kinshasa, disseram à Agência Lusa que a intenção foi manifestada pelo próprio Bemba, informação que não foi confirmada pelo embaixador de Portugal na capital congolesa, Alfredo Duarte Costa.

Bemba encontra-se refugiado na embaixada da África do Sul em Kinshasa desde que se iniciaram confrontos entre as tropas fiéis ao chefe de Estado congolês, Joseph Kabila, e milícias ligadas ao ex-vice-Presidente, que provocaram um número indeterminado de mortos e feridos, pois as versões são várias.

A Lusa tentou contactar o encarregado da embaixada sul-africana em Kinshasa, mas Kenneth Pedro não estava disponível para prestar declarações, embora terça-feira tenha confirmado a presença de Bemba na missão diplomática.

Bemba tem uma residência de férias na Quinta do Lago, no Algarve (sul de Portugal), razão pela qual, asseguraram as fontes, o também líder do Movimento de Libertação do Congo (MLC) solicitou a deslocação a território português.

Por sua vez, o porta-voz do MLC, Mawise Musangana, também contactado por telefone em Kinshasa, afirmou à Lusa desconhecer a intenção de Bemba, admitindo que há "contactos" entre a comunidade internacional e o governo de Kabila para garantir a segurança do antigo vice-presidente.

"Para já, o nosso líder não tem condições de segurança para abandonar a embaixada da África do Sul e é um assunto que está a ser negociado, quer com a comunidade internacional, quer com a justiça", explicou Musangana.

As fontes africanas lembraram à Lusa a entrevista dada segunda-feira por Bemba ao diário francês Le Monde, em que o ex-vice-presidente se declarou preparado para partir para o exílio se não obtiver garantias de que a sua segurança será respeitada no país.

Na entrevista, Bemba acusou Kabila de querer desembaraçar-se dele e alertou para os perigos de uma "nova ditadura" no antigo Congo Belga, posteriormente rebaptizado Zaire pelo regime de Mobutu Sese Seko, país que ascendeu à independência em 1960.

"A realidade é que Kabila quer desembaraçar-se de mim. Em duas semanas, foram destacados mil soldados para os arredores da minha residência, criando tensões inúteis na cidade", afirmou então Bemba, considerando ainda "incrível que, num país democrático, se utilizem os militares para intimidar um político".

Hoje, o porta-voz de Bemba adiantou que o Bureau Político do MLC se reuniu na passada segunda-feira, tendo refutado a acusação de "alta traição" de que o líder do maior partido da oposição congolesa foi alvo pelas autoridades de Kinshasa.

"Defendemos que terá de haver mais diálogo entre todas as partes. Por isso, aguardamos pelo evoluir da situação, sobretudo das conversações que estão a decorrer entre o governo e a comunidade internacional", adiantou, referindo que a capital congolesa é agora uma cidade "calma".

O total de vítimas dos confrontos de quinta e sexta- feira passada está ainda por esclarecer, pois há versões totalmente divergentes, tendo Musangana adiantado à Lusa ser "exagerado" o número avançado por diferentes órgãos de comunicação social internacionais, que dão conta de mais de 600 mortos.

"Creio que 600 mortos é um número exagerado. Deverá rondar entre 200 e 250. Mas, ressalvo, a informação é ainda muito escassa, pelo que tudo é possível", afirmou o porta- voz do MLC.

Terça-feira, numa conferência de imprensa dos diplomatas da União Europeia (UE) residentes no país, o embaixador alemão em Kinshasa, Karl-Albrecht Wokalek, afirmou que o total de vítimas mortais variará entre 200 e 500.

Por outro lado, fontes humanitárias em Kinshasa avançaram com mais de 100 mortos e cerca de 150 feridos, contrastando com o balanço provisório feito pelo governo congolês, que deu conta de 60 mortos e 74 feridos.

No entanto, as fontes africanas adiantaram que o número poderá ser substancialmente maior, uma vez que há poucas informações sobre a verdadeira dimensão, reportando ainda haver relatos de centenas de corpos lançados ao rio ou já enterrados à pressa em valas comuns, o que impossibilitará contabilizar o total de mortos.

Além das vítimas mortais e dos feridos, grande parte deles em estado grave, os incidentes da semana passada levaram também à destruição das embaixadas de três países europeus - Espanha, França e Grécia - e também da do Zimbabué.

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