Regresso das máscaras e restrições à lotação. O que pode sair da reunião no Infarmed

Perante o aumento de casos e uma quinta vaga da pandemia, ainda que mais ténue por efeito da vacinação, os especialistas defendem que se dê um passo atrás e que se tome já medidas, de forma a evitar restrições mais duras no Natal. Os peritos, assim como o Governo, defendem o regresso de algumas medidas, embora não tão restritivas como no passado. O regresso da máscara, restrições à lotação em certos recintos e a aceleração da vacinação são algumas das hipóteses que estarão esta sexta-feira em cima da mesa.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa colocaram, para já, de lado o regresso do estado de emergência Pedro Nunes - Reuters

Tendo em conta a subida constante do número de casos de Covid-19 em Portugal, o primeiro-ministro convocou para esta sexta-feira, a partir das 15h00, uma reunião sobre a evolução da situação epidemiológica, que junta especialistas e políticos no Infarmed, em Lisboa. Depois de ouvidos os especialistas, o Governo irá anunciar as novas medidas.

A última reunião no Infarmed realizou-se no passado dia 16 de setembro, quando Portugal apresentava uma conjuntura diferente. O país estava próximo de atingir a meta de 85% da população vacinada e registava uma redução da incidência e do índice de transmissão (Rt) da Covid-19. Era a reunião com "a melhor situação" relativa à pandemia "em ano e meio", dizia o Presidente da República na altura.

O quadro favorável da pandemia permitiu que Portugal avançasse para a última fase de desconfinamento. A 1 de outubro, pôs-se fim à lotação em restaurantes, cafés e pastelarias, abriram-se as discotecas e o uso da máscara deixou de ser obrigatório.

Agora, a reunião desta sexta-feira acontece numa altura em que Portugal regista uma tendência contrária. Portugal voltou à zona vermelha da matriz de risco, com os dois indicadores a subir. Na semana que terminou a 14 de novembro, a incidência estava nos 157 casos por 100 mil habitantes, mais 40 face à semana anterior. Também o R(t) permanece acima de 1 e continua a crescer, estando atualmente nos 1,16. Este é o reflexo de uma semana em que a média diária de casos subiu quase 50 por cento face à semana anterior. Com cerca de 1500 casos, foi a semana com mais infeções desde o início de setembro.

Perante estes números, a questão que se coloca agora é se se deve voltar ou não a adotar algumas das medidas restritivas do passado e quais.

Esta é uma questão que divide políticos e especialistas, dado que apesar da tendência crescente da pandemia em Portugal, os números estão longe de poderem ser comparados aos do passado ou mesmo aos restantes países europeus que agora voltam ao confinamento, devido ao avanço da vacinação. Portugal é o país da Europa com a taxa de vacinação contra a Covid-19 mais elevada, com 86 por cento da população com o esquema vacinal completo.

Há precisamente um ano, a 19 de novembro de 2020, quando ainda não se tinha dado início à vacinação contra a Covid-19, Portugal registava perto de 7000 novos casos e 69 óbitos.

No entender do especialista em Saúde Pública Jorge Torgal, a taxa de vacinação em Portugal faz com que não existam motivos para alarme, embora os cuidados devam permanecer.

“Não estou muito preocupado com o aumento de casos como outros países têm que estar, como a Holanda ou Alemanha, que têm apenas cerca de 70 por cento da sua população vacinada”, afirmou o perito à Antena 1.
Regresso das máscaras, restrições à lotação e aceleração da vacinação
Apesar do cenário menos desfavorável e das divergências de opiniões, a maioria dos peritos defende que se dê um passo atrás. O aumento do número de infeções, com mais internamentos, está a gerar pressão nos hospitais e o Natal pode estar em risco, com as projeções dos especialistas a apontarem para 3500 casos por dia até lá. “Se se confirmarem estas projeções e estivermos perto dos três mil casos no Natal, vai ser impossível ter um Natal normal”, frisou Gustavo Tato Borges, vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, à RTP.

Os peritos alertam também para a confluência de vírus respiratórios, como uma estirpe mais perigosa de gripe nesta altura, com particular impacto na população mais idosa.

O objetivo consiste em avançar já com a aplicação de medidas para evitar restrições mais pesadas no Natal. E do que já foi sendo desvendado pelos especialistas e pelo Governo, o que parece estar em cima da mesa é, então, o regresso de algumas medidas, mas não tão restritivas como no passado.

“Não é previsível que se tenha de tomar outra vez medidas com a dimensão que tivemos no passado”, anunciou Costa. “A vacinação, como todos sabemos, não só tem diminuído muito a taxa de incidência, como tem, sobretudo, assegurado que mesmo as pessoas que são infetadas, as consequências da infeção são menos gravosas do que sem vacinação”, observou o primeiro-ministro, sublinhando, no entanto, que o Governo não pode ignorar os sinais e o país “não pode descansar à sombra da vacinação”. António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa colocaram, para já, de lado o regresso do estado de emergência.

Sem querer pronunciar-se muito sobre que medidas deverá o país adotar antes de serem ouvidos os especialistas, o Presidente da República levantou um pouco mais o véu ao admitir ser necessário repor o uso obrigatório de máscara na rua. "Isso, claro, isso é evidente", afirmou o chefe de Estado na quarta-feira.

O regresso da obrigatoriedade do uso de máscara parece ser também um ponto consensual entre especialistas, pelo menos em eventos ao ar livre e em todos os espaços fechados.

“Não basta apenas recomendar o uso da máscara porque as pessoas não estão a aceitar essa recomendação. Temos muito provavelmente que dar um passo atrás e falar na obrigação de utilizar a máscara nos espaços interiores públicos”, admitiu o infeciologista António Silva Graça, em declarações ao programa 360 da RTP.

O secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, entende como natural que haja um “reforço acentuado” das medidas já existentes, como o uso de máscara em espaços fechados e em espaços abertos onde existam grandes conglomerados, o cumprimento das diretrizes da DGS, como a higienização e o distanciamento físico, e eventualmente uma testagem mais acentuada.

O regresso de restrições à lotação em alguns espaços, nomeadamente em estádios, é outro ponto defendido pelos especialistas
, que criticam as imagens que chegaram do jogo entre Portugal e Sérvia no Estádio da Luz, com as bancadas cheias e grande parte dos adeptos sem máscara. A recomendação do teletrabalho também será uma medida que voltará a estar em cima da mesa.

Mas acima de tudo, os especialistas apelam à aceleração e ampliação da vacinação com a terceira dose, especialmente aos mais vulneráveis. O epidemiologista Manuel Carmo Gomes defende que é urgente a vacinação dos maiores de 65 anos, dado que “estas são as pessoas que vão ser as potenciais vítimas de uma grande subida de casos”.

De acordo com o coordenador do plano de vacinação, cerca de 200 mil idosos ainda não receberam a terceira dose da vacina contra a Covid-19.

Filipe Froes, consultor da Direção Geral da Saúde, defende ainda uma redução do intervalo na toma de reforço da vacina contra a Covid-19.
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