Sócrates sai de interrogatório a acusar procurador de "não apresentar nada"

José Sócrates abandonou esta noite, ao cabo de mais de seis horas, as instalações do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, onde esteve a ser interrogado pela terceira vez no âmbito da Operação Marquês. O antigo primeiro-ministro disse-se “espantadíssimo”, alegando que “o Ministério Público não foi capaz de apresentar nada”.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Julguei que esta era a última oportunidade para o Ministério Público apresentar provas”, disse Sócrates à saída do DCIAP Nuno Fox - Lusa

“Julguei que esta era a última oportunidade para o Ministério Público, finalmente, apresentar elementos de prova, elementos de facto, que pudessem sustentar as suas alegações”, declarou Sócrates aos jornalistas.

“Fiquei espantadíssimo porque o Ministério Público não foi capaz de apresentar nada, a não ser uma escuta aqui, uma escuta ali, como se isso pudesse servir de base a qualquer sustentação”, reforçou.

Questionado sobre a possibilidade de o Ministério Público produzir um despacho de acusação a breve trecho, o antigo governante martelou a mesma linha de argumentação.

“Não acredito. Eu fico espantado. Como é que é possível, ao fim de dois anos e meio de investigação, depois de eu ter sido detido, chego aqui e disse várias vezes ao senhor procurador faz favor de provar aquilo que diz”, continuou, referindo-se a Rosário Teixeira.

“Fiquei a perceber que os responsáveis deste processo acham que podem conduzir uma investigação penal através dos meios de comunicação social informando-me previamente, através de vocês, do que é que suspeitam, disto e daquilo. Mas quanto às suspeitas, quanto a essas teorias gerais, são absolutamente absurdas, são injustas”, acentuou José Sócrates.
“Alegações estapafúrdias”
Relativamente à PT, Sócrates sustentou que “as alegações são tão absurdas, para não dizer tão estapafúrdias, que não têm o mínimo de sustentação com a realidade”.

“A menção de que o Governo teria influenciado para que a OPA da Sonae não tivesse sucesso é absolutamente absurda. Ao contrário do que se diz e insiste, as informações que vocês transmitem obedientemente, dizem que o voto da Caixa foi decisivo. Isso é mentira, pura e simplesmente. Pela simples razão de que os acionistas votaram pelo seu interesse. O Governo esteve sempre neutral. A Caixa votou contra, mas se a Caixa tivesse votado a favor o resultado teria sido exatamente o mesmo”, argumentou.

“Quanto à venda da Vivo, então a tese geral é que o Governo - e eu próprio - teria sido corrompido para tomar uma decisão contra os interesses do doutor Ricardo Salgado, contra os interesses do BES. Concretizou-se quando tivemos a garantia de que a PT não sairia do Brasil, vetámos para que os benefícios não fossem apenas para o bolso dos acionistas. Escondem que, até 2010, até sair do governo, a Vivo foi vendida mas tinha mantido uma participação na Oi de 22 por cento. O negócio com a Oi de fusão foi em 2013, podem pedir responsabilidades ao Governo do doutor Passos Coelho que, aliás, tomou a decisão de abdicar da golden share, meter dinheiro no bolso dos acionistas, apenas por uma questão ideológica. Foi por o Estado não ter influência na PT que se fez o negócio da fusão”, rematou.
Terceiro interrogatório
O antigo primeiro-ministro socialista, arguido no processo da Operação Marquês, foi interrogado – pela terceira vez – a quatro dias de expirar o prazo anunciado para a conclusão do inquérito. José Sócrates está indiciado por corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.

O interrogatório terá incidido sobre os mais recentes elementos dos autos relativos aos negócios da Portugal Telecom e à transferência de milhões de euros do Grupo Espírito Santo para o empresário Carlos Santos Silva, alegado “testa de ferro” do antigo líder do PS.

Esta inquirição de José Sócrates teve lugar depois de Carlos Santos Silva ter sido interrogado na passada sexta-feira, com a Procuradoria-Geral da República a indicar que “estão, ainda, previstos interrogatórios de outros arguidos no decurso” da semana.

A Operação Marquês soma 25 arguidos: 19 pessoas e seis empresas, das quais quatro pertencentes ao Grupo Lena.

Entre os arguidos estão Armando Vara, ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos e antigo ministro socialista, o empresário Carlos Santos Silva, amigo do antigo primeiro-ministro, Joaquim Barroca, empresário do grupo Lena, João Perna, antigo motorista de José Sócrates, Paulo Lalanda de Castro, do grupo Octapharma, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, ex-administradores da PT, o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, os empresários Diogo Gaspar Ferreira e Rui Mão de Ferro e o empresário luso-angolano Hélder Bataglia.

c/ Lusa
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