Enfermeiros preparam-se para nova greve sob críticas de Costa

| Política

Os sindicatos e o movimento que está a angariar os fundos “vão agora definir as datas e os locais”
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Os enfermeiros vão voltar a fazer greve às cirurgias em janeiro. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, afirma que falta apenas definir as datas. No Parlamento, o primeiro-ministro afirmou que a paralisação nas cirurgias programadas não é aceitável.

A bastonária esteve reunida esta terça-feira com dois sindicatos representativos da classe que convocaram a greve e com os diretores dos cinco centros hospitalares onde decorre o protesto.

“Os sindicatos vão agora reunir-se juntamente com o movimento da greve cirúrgica. O que sabemos é que esse movimento iniciou um novo grau de funding, para financiar o prolongar da greve para janeiro. Que é uma coisa que nós não desejamos. Mas isso não está na nossa mão. Está na mão do Governo fazer essa negociação com os sindicatos”, afirmou a bastonária da Ordem dos Enfermeiros no final da reunião.


Segundo Ana Rita Cavaco, “a Ordem está disponível, como é óbvio, para mediar”.

Os sindicatos e o movimento que está a angariar os fundos “vão agora definir as datas e os locais”.

“Porque nós nem sequer sabemos se se mantem nos mesmos hospitais, ou se mudam para outros centros hospitalares”, frisou a responsável.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros nega ainda que a greve às cirurgias esteja a colocar em risco a vida dos doentes e que há muitas operações a ser realizadas, dando como exemplo o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

“Para começar no Hospital de Santa Maria foram operadas 30 crianças, desde que começou a greve dos enfermeiros. E portanto o que acontece é que as crianças são operadas no bloco central, não no bloco de pediatria. São operadas no bloco de urgência, como aliás já se processava antes da greve”, explicou.

No final da semana passada, a administração do hospital tinha vindo referir que nenhuma criança tinha sido ainda operada desde o início da greve dos enfermeiros.

A bastonária acrescenta que, “provavelmente, o senhor presidente do Conselho de Administração não foi suficientemente claro, relativamente às situações que se passaram. Mas a senhora enfermeira diretora esclareceu-nos exatamente sobre o que é que tem acontecido relativamente à greve”.

Sobre os efeitos da greve, Ana Rita Cavaco sublinhou que até hoje nenhuma situação colocou em risco a vida dos doentes e lamentou que tenham sido proferidas afirmações para tentar denegrir a imagem dos enfermeiros.

Ana Rita Cavaco considerou ainda inaceitável que o Ministério da Saúde não negoceie com os sindicatos que convocaram a greve e frisou que “não é aceitável que o Governo não queira negociar”. O Ministério da Saúde suspendeu as negociações com os dois sindicatos que convocaram a greve nos blocos operatórios assim que a paralisação começou.

"Se há uma ministra que negoceia com os sindicatos dos estivadores em greve, e bem, certamente a ministra da Saúde poderá fazer o mesmo, estando dentro do mesmo Governo", afirmou.

A "greve cirúrgica" dos enfermeiros, que se iniciou a 22 de novembro e termina a 31 de dezembro, está a decorrer nos blocos operatórios do Centro Hospitalar Universitário de São João (Porto), no Centro Hospitalar Universitário do Porto, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar de Setúbal.A paralisação foi convocada pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE) e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor).

Os enfermeiros têm apresentado queixas constantes sobre a falta de valorização da sua profissão e sobre as dificuldades das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde, pretendendo uma carreira, progressões que não têm há 13 anos, bem como a consagração da categoria de enfermeiro especialista.

Em relação à promessa de António Costa, que hoje garantiu durante o debate quinzenal no Parlamento que as cirurgias canceladas devido à paralisação dos enfermeiros seriam realizadas durante o primeiro trimestre de 2019, Ana Rita Cavaco afirma que “é impossível”.

“Não é possível, nos primeiros três meses do ano e se a greve for até ao fim, reagendar este número de cirurgias. Eu já disse, não é só estes cinco blocos operatórios. Está em causa também o programa de recuperação de listas de espera”, sublinhou.


A bastonária da Ordem dos Enfermeiros recordou que o programa de redução de listas de espera, “é voluntário, porque os enfermeiros fazem ou não, se assim o entenderem. E não têm estado a fazer. E portanto, esses três meses não é verdade”. Movimento relança recolha de fundos

O movimento de enfermeiros que recolheu fundos para a greve prolongada em blocos operatórios lançou uma nova angariação de dinheiro, pretendendo juntar 400 mil euros para uma nova fase de paralisação.

Catarina Barbosa, representante do movimento que se denomina "greve cirúrgica", esteve na reunião na Ordem dos Enfermeiros e adiantou que a nova recolha de fundos arrancou esta terça-feira.
Agora é lançada outra recolha pública de fundos, através de uma plataforma na Internet, para uma segunda fase de greve em blocos cirúrgicos, que ainda não tem data marcada.
Este movimento, que esteve na base da greve que decorre até ao final do mês em blocos operatórios, tinha conseguido cerca de 360 mil euros para apoiar os grevistas que ficarão sem salários na atual paralisação, em curso há quase três semanas.

Os enfermeiros pretendem angariar 400 mil euros até meados de janeiro, “para apoiar os colegas, para que possam continuar a greve, porque eles têm perda total da renumeração”.

Segundo Catarina Barbosa, a nova greve será semelhante à paralisação em curso, mas ainda não estão definidas nem as datas nem os blocos operatórios que vai afetar.

“A nova forma de paralisação é em tudo idêntica à que já está a decorrer neste momento. Vamos continuar aquilo que já está a acontecer nos cinco hospitais. Não posso ainda dizer se são exatamente esses cinco ou se vão ser outros hospitais”, afirmou Catarina Barbosa.


Em relação a um eventual ponto final na greve, Catarina Barbosa afirma que a questão não é serem recebidos no Ministério da Saúde, mas sim “se derem aquilo que estamos a pedir”.

“Porque nós estamos a reivindicar, estamos a pedir a idade da reforma mais cedo. Todas as reivindicações, que não são só a categoria de especialista. Porque não é só isso que nós estamos a reivindicar. Portanto, só depois de termos uma carreira assinada é que podemos pensar em realmente parar com esta greve”, acrescentou.

Catarina Barbosa considera que os enfermeiros estão a “jogar o último trunfo”.

“Se não conseguirmos agora, dificilmente conseguiremos num curto espaço de tempo. Não vamos desistir agora. Não vamos baixar agora as armas. Não é lógico”, rematou.
“Não é aceitável”
O primeiro-ministro considera que a paralisação dos enfermeiros às cirurgias programadas não é aceitável. Costa garante que, no primeiro trimestre de 2019, todas as operações canceladas vão ser reprogramadas e executadas.

No debate quinzenal, o líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, dedicou toda a sua intervenção a questionar o primeiro-ministro sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde e, em particular, sobre o impacto da greve dos enfermeiros no número de cirurgias adiadas nos hospitais públicos.

“Se me pergunta se as greves e cirurgias programadas são uma prática aceitável, eu devo dizer que não é aceitável. São mais de cinco mil cirurgias que já foram canceladas. Considero isso um facto grave, mas não me compete, naturalmente substituir aos dirigentes sindicais nas decisões que tomam sobre a forma como utilizam o direito à greve”, respondeu o chede do Governo ao líder parlamentar do PSD.

No debate, António Costa acusou ainda Fernando Negrão de “fazer de porta-voz da bastonária da Ordem dos Enfermeiros”, que até ao último Congresso era membro do Conselho Nacional do PSD, o que levou a bancada social-democrata a protestar, com o líder parlamentar a acusar o primeiro-ministro de “não ter respeito nenhum pelos sindicatos e pelas ordens”.

Negrão frisou “não ser advogado de qualquer ordem” e acrescentou que esses organismos têm uma responsabilidade deontológica relativamente ao estado da saúde dos portugueses.

Na reposta Costa ironizou ao afirmar: “Ainda bem que recordou o papel extraordinário de uma ordem profissional que resolve exercer funções sindicais como se isso lhe competisse”.

"Eu vejo o seu entusiasmo, para não dizer apoio a esta greve, mas há algo que queria dizer sobre responsabilidade deontológica: quando um bastonário, neste caso uma bastonária, diz que com a greve pode haver morte de doentes a responsabilidade só pode ser uma: a operação não pode ser adiada porque ninguém pode morrer pelo exercício do direito à greve", afirmou o primeiro-ministro.

O líder da bancada parlamentar social-democrata questionou ainda o primeiro-ministro sobre os números oficiais da paralisação.

“Será que não há números oficiais porque o Governo não quer que se conheça a verdadeira dimensão? Quantos anos levará o Serviço Nacional de Saúde a reprogramar, a concretizar as milhares de cirurgias canceladas?”.

Costa respondeu com mais precisão, afirmando que “à data de sexta-feira os números certos das cirurgias programadas eram 4.176”, repetindo que “se não houver mais cancelamentos, será possível fazer as cirurgias anuladas até ao final do primeiro trimestre de 2019”.


Negrão apelou ao Governo para que dialogue com os sindicatos e as Ordens na área da Saúde. “Negociar não é capitular, é ficar sempre a meio da ponte, e o Governo tem sido incompetente nas negociações com os sindicatos”.

Costa garantiu ainda que, ao contrário do que tinha afirmado o líder parlamentar do PSD, a saúde está melhor em 2018 do que em 2015, quando o anterior Governo PSD/CDS-PP deixou funções.

"Em 2018, há mais 234 mil atendimentos nas urgências do que em 2015, mais 19 mil cirurgias, mais 196 mil consultas hospitalares. Em matéria de factos, hoje o SNS está a produzir mais do que produzia em 2015. Está como nós desejamos? Não, mas é por isso que continuamos a trabalhar como temos feito nos últimos anos", afirmou.

Quanto ao caso concreto dos enfermeiros, António Costa referiu que este Governo lhes repôs o horário "que unilateralmente tinha sido alterado".

"Estamos a negociar a construção de carreiras que Vossas Excelências negaram. Como disse, negociar não é capitular, não confundimos resolução de questões laborais com o direito sagrado de cada português à saúde", frisou.

Antes da troca de acesa de palavras com Fernando Negrão, o primeiro-ministro respondeu à líder do CDS-PP, que insistiu em saber quantos cirurgias seriam executadas.

“O que está estabelecido entre o Ministério da Saúde e as direções hospitalares, é que com os dados de hoje e sem mais cirurgias anuladas, no primeiro trimestre de 2019 estarão em condições de serem todas reprogramadas e executadas”, respondeu Costa.

António Costa acusou ainda a direita parlamentar de querer desmantelar o Serviço Nacional de Saúde. “O vosso programa é desmantelar o Serviço Nacional de Saúde para promover a medicina privada”.

c/ Lusa

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