Nobre candidata-se a Belém por "imperativo de cidadania"
O médico Fernando Nobre lançou esta sexta-feira, em Lisboa, a sua candidatura à Presidência da República, afirmando-se movido por um "imperativo moral, de consciência e de cidadania". O presidente da Assistência Médica Internacional (AMI) defendeu que o país precisa de um Chefe de Estado "independente" que "venha verdadeiramente da sociedade civil".
"Acredito sincera e profundamente que um homem livre e independente pode servir melhor o país nesta altura tão difícil e sensível para Portugal", afirmou.
O "espaço político" da candidatura, precisou ainda Fernando Nobre, "mais do que definido à esquerda, à direita ou ao centro, é o da liberdade, da justiça social, do humanismo, da transparência e da ética". Em defesa daqueles que se "desiludiram com a política", Nobre enfatizou que não podia ficar a "assistir sem nada fazer à agonia lenta de Portugal".
"Apartidário mas não apolítico"
Fernando Nobre deixou claro, por outro lado, que é "apartidário mas não apolítico", recusando-se a encarar a vida política como "um saco de gatos onde todos cabem". A sua candidatura a Belém propõe-se restaurar a crença na democracia: "Não contesto os partidos nem a democracia partidária, mas sou contra o sufoco partidário da vida pública".
"Não peço nem pedirei nenhum apoio que não o dos cidadãos que se identifiquem com o meu projecto e aceitarei de bom grado todos os que a minha consciência não rejeitar, não me enfeudando a nenhum", vincou o presidente da AMI.
"Estou consciente de que esta será uma batalha difícil, talvez até invencível, mas não será nunca inútil", declarou.
O candidato estabelece desde já os princípios para o relacionamento com o poder executivo, caso chegue a Belém: "Não interferirei nem dificultarei a vida a qualquer Governo, mas não presidirei de braços cruzados ao desgoverno do país ou à degradação das suas condições de vida".
"Nada a ver com o PS"
Na quinta-feira, à chegada ao aeroporto da Portela após uma deslocação ao Senegal, Fernando Nobre garantia que a decisão de avançar com uma candidatura a Belém não tinha por base qualquer influência do Partido Socialista. Questionado sobre uma eventual fractura à esquerda, face à disponibilidade de Manuel Alegre para uma nova candidatura à Presidência da República, o médico optou pelo silêncio.
"Não tenho nada a ver com o PS", vincava então o presidente da Assistência Médica Internacional, descrevendo a sua candidatura como "independente e apartidária".
O semanário Expresso noticiou recentemente que o nome de Fernando Nobre estaria a ser aventado como possível candidato ao cargo ocupado por Cavaco Silva entre algumas figuras socialistas conotadas com Mário Soares. Vítor Ramalho, dirigente do PS em Setúbal, viria a terreiro para classificar como "um insulto" a ideia de uma vaga "soarista" na base da candidatura de Nobre.
Nas eleições europeias de Junho do ano passado, Fernando Nobre colaborou com a campanha do Bloco de Esquerda como mandatário nacional. Em Outubro, seria membro das comissões de honra das candidaturas do social-democrata António Capucho à Câmara Municipal de Cascais e do socialista António Costa à autarquia da capital.
Missões em mais de 70 países
Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde trabalhou como assistente de Anatomia e Embriologia e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia, e pai de quatro filhos, Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em 1951 em Luanda. De 1964 a 1967, viveu no Congo.
Em 1970, começa a colaborar com a organização Médicos sem Fronteiras, tendo actuado em diferentes zonas de conflito. No Golfo Pérsico, prestou assistência a vítimas da guerra entre Irão e Iraque. A fundação da Assistência Médica Internacional dá-se em 1984. Um ano antes, o médico surgira ao serviço dos Médicos sem Fronteiras numa reportagem produzida pela RTP no Chade. Foi o então ministro da Saúde, Maldonado Gonelha, quem exortou Fernando Nobre a criar uma organização análoga em Portugal.
Enquanto membro dos Médicos Sem Fronteiras e presidente da AMI, Nobre coordenou operações de assistência médica e humanitária em mais de sete dezenas de países. Missões que lhe valeriam distinções como a de Grande Oficial da Ordem do Mérito, ou a de Cavaleiro da Legião de Honra de França.
Numa entrevista concedida em Janeiro ao Diário Económico, a propósito do seu último livro, intitulado "Humanidade", Fernando Nobre propugnava que "a democracia representativa pode ser aperfeiçoada com uma quota parte de democracia participativa".