Política
O desafio de Montenegro a Passos Coelho. "Há sempre uma certa tendência a dramatizar em torno do PSD"
Depois de Luís Montenegro ter anunciado, no Conselho Nacional do PSD, a antecipação das eleições diretas no partido, Emídio Guerreiro, deputado e atual presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República, relativiza a questão e defende que, mais do que um desafio ao ex-líder social-democrata, o anúncio do presidente do PSD e primeiro-ministro perante os conselheiros não representa qualquer tipo de combate com Pedro Passos Coelho.
Fotografias: Sofia Vicente
Para o deputado e ex-secretário de Estado, que marcou presença no encontro dos conselheiros, o momento é, contudo, de clarificação após a maior notoriedade mediática de Passos Coelho e a poucos meses de Luís Montenegro completar mais dois anos na liderança do partido.
"É tudo uma questão de saber se há, de facto, propostas alternativas, mas estes momentos são clarificadores internos. Mas, aquilo que é importante é o seguinte: Luís Montenegro, para liderar o país, antes tem de ser líder do PSD. Foi assim quando chegou. Disputou a liderança do PSD e ganhou. As pessoas achavam que ele não ia durar, porque havia uma maioria absoluta de António Costa que iria durar e que ainda estaria, neste momento, a vigorar. Se olharmos para trás, foi superando todas as provas", argumentou, no programa Entre Políticos.
No mesmo sentido, Emídio Guerreiro afirma ainda que as questões em torno das lideranças do PSD "motivam sempre muito mais notícias e mais paixões" do que noutras forças políticas e desdramatiza o tema: "Nós sabemos lidar bem com isso, mas Luís Montenegro está tranquilamente a governar o país, a liderar o PSD, e vai às eleições internas que tinha de ir", acrescentou o deputado do PSD, que rejeita a ideia de um desafio direto a Passos Coelho: "Estive a ouvir a intervenção de Luís Montenegro no Conselho Nacional e não foi isso que eu vi".
Chega não tem dúvidas sobre intenções de Montenegro: "Um repto a Passos Coelho para avançar ou desistir"
Para Rui Paulo Sousa, deputado e membro da direção nacional do Chega, Luís Montenegro não se limitou a fazer uma atualização do calendário eleitoral interno, mas a lançar um desafio ao ex-líder do partido.
"Face às últimas declarações de Pedro Passos Coelho, a sensação que está em cima da mesa é a de que o atual primeiro-ministro lançou mesmo um repto a Passos Coelho para avançar e ir às diretas. Ou então para desistir", disse.
Na Antena 1, o deputado e dirigente do Chega sublinha ainda a "tentativa de clarificar" a posição de alguém que poderá querer "vir a jogo" e que, de acordo com as mais recentes afirmações, criou essa "sensação".
"Se é ou não é, iremos ver quando realmente forem às diretas. Veremos se realmente avança para a jogo e se se quer candidatar ou não ao lugar de líder do PSD", concluiu Rui Paulo Sousa, sobre o anúncio de Luís Montenegro.
Socialista António Mendonça Mendes vê antecipação de diretas no PSD como momento de "clarificação da direita"
Na Antena 1, António Mendonça Mendes, deputado e ex-secretário de Estado do PS, acompanha Emídio Guerreiro na ideia de que as lutas pela liderança no PSD motivam sempre interesse no panorama político nacional, mas aponta um argumento em particular: "Já houve não sei quantos líderes. Eu já não consigo contar quantos são".
Para o socialista, o anúncio feito no Conselho Nacional não representa, no entanto, apenas uma mudança no calendário eleitoral interno, mas sim uma "clarificação" perante o ressurgimento de Pedro Passos Coelho.
"Não acho que seja um mero calendário interno do partido que está em causa, tem que ver com a clarificação da direita e da forma como a direita se vai estruturar nos próximos anos. Tenho a ideia de que os partidos e as lideranças não acompanharam a evolução dos acontecimentos. A direita, de um momento para o outro, tornou-se muito maioritária no país. Neste momento tem dois terços do parlamento", disse.
António Mendonça Mendes considera ainda que, tendo em conta os últimos atos eleitorais, não existe uma direita, mas "várias direitas", e acrescenta: "Nas últimas presidenciais foi muito visível a existência dessas várias direitas. Estou convencido que nós, num curto ou médio prazo, teremos uma reconfiguração daquilo que é a direita portuguesa. Veremos como é que estes atores, em concreto, se posicionarão".
Ex-candidato António Filipe aponta decisão de Montenegro como tónico para líder do PSD: "Suplemento de apoio do seu próprio partido"
Para o comunista António Filipe, a antecipação das eleições diretas no PSD é uma decisão que pretende, sobretudo, revalidar a liderança de Luís Montenegro após semanas difíceis para o Governo e para o primeiro-ministro - e num momento em que o Executivo português é confrontado com um contexto internacional conturbado e após a tragédia vista em vários concelhos da zona centro do país.
"A governação do país vai-se complicar. Há todo um conjunto de necessidades que surgiram das intempéries que assolaram o país. Temos uma guerra que não vai deixar de ter consequências económicas graves e, se ela se prolongar, as coisas vão piorar. Portanto, é previsível que o primeiro-ministro precise de um suplemento de apoio do seu próprio partido", afirma.
O dirigente comunista, atual membro do Comité Central do PCP, aponta ainda a Montenegro a capacidade de, enquanto líder, escolher o melhor calendário eleitoral perante a ameaça latente do ex-líder, Passos Coelho. "Quando alguém pode a melhor data para uma eleição em que é candidato, naturalmente escolhe aquela que considera que é a melhor data para si. Mas, isso é com o PSD", assinalou o antigo deputado e ex-candidato à presidência da República. O programa Entre Políticos é moderado pelo jornalista João Alexandre.