Recondução de Barroso acentua fractura entre direita e esquerda em São Bento

A nomeação de Durão Barroso para um segundo mandato na Comissão Europeia rasgou esta segunda-feira, em São Bento, um abismo entre a esquerda e a direita, alinhada com os socialistas no apoio ao antigo primeiro-ministro. As audiências com José Sócrates, na preparação da cimeira dos 27, ficam marcadas pela falta de declarações do PSD, que afirma ter sido guiado para a "porta de saída".

RTP /
A eventual indigitação na cimeira da UE terá de ser sufragada na sessão constituinte do Parlamento Europeu, de 13 a 16 de Julho Rainer Jensen, EPA

Ao início da manhã, enquanto a delegação socialista se preparava para abrir a ronda de consultas no Palácio de São Bento, o ministro dos Negócios Estrangeiros tratava de cimentar, a partir do Luxembrugo, o apoio do Governo a um segundo mandato de Durão Barroso na presidência da União Europeia. O objectivo de Lisboa, frisou Luís Amado, é garantir que o chefe do executivo comunitário ganhe a nomeação para mais quatro anos em Bruxelas já na próxima cimeira de líderes, entre quinta e sexta-feira.

"Nós somos favoráveis a que uma solução definitiva seja encontrada já no próximo Conselho. Admitimos que não é essa a posição de alguns Estados-membros, mas essa é a posição do Governo português e é em relação a esta posição que nos vamos bater durante o próximo Conselho", reiterou Amado à entrada para o encontro preparatório dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia.

Em Lisboa, coube ao líder parlamentar do PS, Alberto Martins, consolidar o beneplácito da maioria a um apoio garantido pelo próprio primeiro-ministro na antecâmara das eleições para o Parlamento Europeu. Um dossier que, no auge da campanha, chegou a alimentar posições contraditórias entre o cabeça-de-lista dos socialistas e a direcção do partido. De então para cá, o Partido Popular Europeu, família política dos sociais-democratas, venceu as eleições e Vital Moreira garante agora respeitar "o veredicto popular".

"A posição do nosso Governo, com a qual o PS se identifica, é de apoio ao actual presidente da Comissão", resumiu Alberto Martins após a audiência com José Sócrates.

"Encaminharam-nos para a porta da saída"

Na agenda de Sócrates, seguiu-se a delegação do PSD. Que deixaria o Palácio de São Bento sem fazer declarações aos jornalistas. Um silêncio que José Luís Arnaut, responsável pelas relações internacionais dos sociais-democratas, atribuiu ao comportamento do gabinete do primeiro-ministro: "Contrariamente ao que aconteceu das outras vezes, não fomos convidados a falar aos jornalistas nem encaminhados para a sala de imprensa. Encaminharam-nos para a porta da saída".

"Quando acabámos a audiência com o senhor primeiro-ministro, os serviços do gabinete do primeiro-ministro não nos convidaram a ir à sala de imprensa, tendo a delegação do PSD sido encaminhada para a saída do Palácio", insistiu Arnaut em declarações à agência Lusa.

Segundo José Luís Arnaut, que integrou uma delegação chefiada pela presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, a porta da sala onde são prestadas declarações "estava fechada" quando os sociais-democratas por ali passaram.

"Quando se está em casa de alguém, não se entra nas salas para as quais não se é convidado. Poderia haver uma decisão de não haver declarações à imprensa, hoje, por parte de nenhuma delegação", vincou o dirigente social-democrata, para descrever uma situação que o gabinete de imprensa de José Sócrates classifica de "mal entendido".

CDS-PP preconiza "voz única"

Recebida depois do PSD, a delegação do CDS-PP capitalizou a escala diante dos jornalistas para se colocar ao lado da maioria no apoio a Durão Barroso. A questão, sustentam os democratas-cristãos, não deve ser "matéria de arremesso entre partidos ou entre políticos".

"Em relação à questão das instituições, Portugal tem vantagem em ter uma voz única, coerente, coordenada e nacional favorável à recondução de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia e isso não deve constituir matéria de arremesso entre partidos ou entre políticos portugueses", afirmou o líder do CDS-PP. Para Paulo Portas, "seria pouco compreensível que bastantes primeiros-ministros europeus de outros países apoiem a reeleição e nós portugueses perdêssemos tempo a dividirmo-nos sobre essa matéria".

Outro dos temas em análise nas audiências com José Sócrates foi a sobrevivência do Tratado de Lisboa, condicionada ao sufrágio dos eleitores da República da Irlanda numa reedição de um referendo popular ditado por imperativos constitucionais. A Europa, disse o presidente do CDS-PP, "deve ser feita com a participação dos cidadãos e não apesar deles": "Temos esperança em que o Tratado seja aprovado, mas recomendamos a todas as instâncias um respeito absoluto pela liberdade de decisão dos irlandeses, sem pressões nem qualquer tipo de chantagem".

PCP discorda das "concepções e visão política" de Durão

A primeira voz de "desacordo" perante a perspectiva de um segundo mandato de Durão Barroso pertenceu ao PCP. Foi o secretário-geral dos comunistas quem tratou de deixar claro que, no Parlamento Europeu, a CDU votará contra a recondução.

"Tendo em conta as concepções e a visão política de Durão Barroso, não corresponde àquilo que melhor serviria Portugal. É uma pessoa identificada com as concepções neoliberais, federalistas e militaristas da União Europeia", frisou Jerónimo de Sousa, para quem "invocar só a nacionalidade é insuficiente".

"Precisamos de alguém que, do ponto de vista desse cargo, tivesse em conta outra política para a Europa e para Portugal", sublinhou o dirigente comunista.

Na mesma linha, o Partido Ecologista "Os Verdes", parceiro dos comunistas na CDU, vê na eventual recondução de Durão Barroso uma "oportunidade perdida de mudar de política europeia do ponto de vista ambiental, energético e social".

Durão Barroso, lançou o deputado do PEV Francisco Madeira Lopes, "é o rosto mais acabado" em matéria de "desregulação dos mercados financeiros" e de "apoio à energia nuclear e aos organismos geneticamente modificados".

Apoiantes de Durão "não contarão" com o Bloco de Esquerda

Na delegação do Bloco de Esquerda, as despesas da rejeição do desígnio de Durão Barroso foram assumidas pelo cabeça-de-lista do partido nas últimas eleições europeias, Miguel Portas. Sem poupar críticas, o eurodeputado argumentou que "o método de eleição de Durão Barroso não permite a confrontação de alternativas, ou seja, no PE só há a possibilidade votar a favor, abster ou votar contra o nome indicado pelos governos". De entre as "três opções", o Bloco escolhe "votar contra".

"Em princípio Durão Barroso irá ser eleito presidente da Comissão Europeia em meados de Julho. Nós aproveitámos para dizer que com o nosso voto não contarão", vincou Miguel Portas.

De baterias apontadas à Comissão Europeia de Durão Barroso, Miguel Portas lamenta que a União Europeia continue sem "qualquer tipo de respostas no plano da regulação da crise financeira".

Quanto ao argumento da nacionalidade, invocado pelo Executivo de José Sócrates, o eurodeputado bloquista devolve: "Gostaríamos de ter um bom presidente da Comissão Europeia que, além de bom, fosse português. Mas não é o caso".

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