Revolução dos Cravos. Diplomata espanhol recorda pedido do PS a Franco

| Política

Mário Soares, em Abril de 1974 (em segundo plano: Spínola, Galvão de Melo, Costa Martins)
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Para o caso de um agravamento do conflito com o Governo de Vasco Gonçalves, o PS terá sondado a Embaixada espanhola sobre a possibilidade de os seus dirigentes serem acolhidos no país vizinho. O Governo de Franco ter-lhe-á respondido favoravelmente.

O testemunho é do diplomata Inocencio Arias, e está citado num despacho da agência noticiosa Efe, da passada terça feira, 16 de abril. Arias, agora com 78 anos, era na altura um diplomata a prestar serviço na Embaixada espanhola em Lisboa, sob as ordens do embaixador Antonio Poch.

Em entrevista à agência Efe, recordou uma reunião entre o embaixador e um enviado de Mário Soares, realizada com precauções conspirativas, não em qualquer dos edifícios da Embaixada, mas num lugar mais discreto: "A reunião, diz, foi em minha casa".

Sem identificar o interlocutor português, Arias identifica o conteúdo da sua mensagem: "O Partido Socialista português pediu a Franco para poder passar para Espanha se as coisas piorassem em Portugal". Sobre o carácter do pedido, Arias explica que os dirigentes do PS "não queriam exilar-se em Espanha, mas tinham de encontrar um sítio onde pudessem ir sem problemas".

O embaixador entendeu a importância da questão que tinha entre mãos e investiu Arias de uma missão confidencial: "Isto é muito sério, tens de ir imediatamente a Madrid". E, ainda segundo Arias, "ditou-me uma carta" - esta dirigida a Franco, explicando o pedido dos socialistas portugueses.

Viajando a Madrid e voltando a Lisboa, Arias não trouxe nenhuma carta de resposta, mas confia na sua memória: "A resposta foi verbal, não por escrito: podiam entrar. O que se lhes dizia subliminarmente era que talvez tivessem de entrar, não pela fronteira, e sim a salto".

A agência Efe foi depois ouvir João Soares, o filho do então líder socialista Mário Soares, que em entrevista se insurgiu contra o testemunho de Arias: "Isso é impossível!". A versão do diplomata seria, segundo João Soares, "absurda, sem o menor fundamento", porque qualquer contacto com Franco era um anátema para quaisquer socialistas em qualquer parte do mundo.

João Soares não contesta o testemunho de Arias com um contra-testemunho, até porque as decisões cruciais para a orientação do PS eram tomadas nessa altura pela geração de seu pai e qualquer contacto com a Embaixada espanhola não lhe seria naturalmente comunicado. Por isso, o que João Soares contesta é a plausibilidade da versão de Arias.

E, na verdade, a memória da guerra civil espanhola traçava uma fronteira de sangue entre socialistas e franquistas. Mas, apesar do peso desse argumento, o próprio João Soares introduz na entrevista um outro elemento relativizando o que ainda restava em 1975 do abismo entre social-democratas e franquistas: ao intervir nas transições ibéricas dos anos 1970, Willy Brandt terá insistido em que fossem os "jovens", da geração de Felipe González, a protagonizar a transição espanhola - por não terem memória da guerra civil e poderem mais facilmente entender-se com os inimigos de antes.

Por outro lado, algumas imprecisões menores no testemunho de Arias aconselham também a encarar com prudência a recordação que conservou da reunião em sua casa e da missão que foi cumprir em Madrid: referindo-se aparentemente ao cerco da Assembleia Constituinte em novembro de 1975 pelos trabalhadores da construção civil, ele afirma que nesse momento "um grupo de esquerda cercou o parlamento e os legisladores tiveram de sair pela janela". São detalhes coloridos, mas que não correspondem aos factos.

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