Sócrates quer segunda oportunidade na relação com professores

Os contornos da relação entre o Governo e a classe profissional dos professores durante a última legislatura mereceram um mea culpa de José Sócrates durante a Grande Entrevista à RTP. Sem lamentar as reformas accionadas na área da Educação, o primeiro-ministro lamentou  porém que a sua equipa não tenha sido capaz de explicar o projecto. Os sindicatos rejeitam esta carta de boas intenções.

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A ministra da Educação recusou ver nas palavras do chefe do Governo uma crítica à sua actuação na 5 de Outubro Lusa

Quando o tema professores surgiu no alinhamento da entrevista, o primeiro-ministro José Sócrates reconheceu que a relação do Governo com a classe docente não foi nestes quatro anos a mais desejável, deixando a promessa de que tudo fará para corrigir o que apontou como um erro de comunicação.

Admitindo que poderia ter sido mais sensível às reivindicações dos professores quando foi imposta a avaliação de desempenho, o chefe do Governo reconheceu que "talvez não tivesse havido suficiente delicadeza na relação com os professores", tendo José Sócrates apontado a incapacidade da equipa da ministra Maria de Lurdes Rodrigues de defender perante a classe os objectivos da avaliação.

O primeiro-ministro rejeitou, por outro lado, que o conflito com os professores tenha sido desencadeado de forma deliberada: "Deixar criar a ideia de que nós fizemos isso contra os professores é tão infantil. Nunca esteve no nosso espírito, pelo contrário. Nós sempre tivemos a maior das preocupações em que isso não acontecesse dessa forma".

Aliviando as responsabilidades da ministra da Educação quanto ao programa imposto ao sector da Educação, Sócrates admitiu que a sua personalidade possa ter contribuído para o afastamento progressivo da classe docente e para o acentuar de um clima de crispação, o que lamentou garantindo estar "muito disponível para restaurar uma relação delicada e atenta a todos os problemas dos professores".

Por outro lado - e dando o exemplo da colocação de professores por quatro anos e a requalificação das escolas secundárias -, o primeiro-ministro pede aos professores para que sejam também eles capazes de fazer uma análise das transformações operadas na classe nesta última legislatura e "olhar para o que o Governo fez. Todas as medidas que tomámos foi em benefício do sistema público de ensino".

Maria de Lurdes Rodrigues não viu uma crítica nas palavras de Sócrates

A responsável máxima pela pasta da Educação fez eco das inquietações de José Sócrates na relação governamental com os professores mas recusou ver nas palavras do chefe do Executivo uma crítica à sua actuação ou da equipa do seu ministério.

Admitindo a existência de problemas ao nível da comunicação, Maria de Lurdes Rodrigues defendeu contudo o plano implementado nos últimos anos e uma reforma que mereceu toda a sua atenção.

Sindicatos dos professores renitentes

Os sindicatos que representam os professores apontam ao Governo todos os males da classe e rejeitam a carta de boas intenções ontem enviada pelo primeiro-ministro.

Acusando o Executivo Sócrates de ter prejudicado o sector, Fenprof e FNE afirmaram em declarações à RTPN que houve quatro anos para dialogar e chegar a acordo com os professores, o que afirmam nunca ter feito parte das intenções do Governo.

Neste sentido, a posição dos sindicatos é agora a de total descrença nas palavras de José Sócrates e das promessas do primeiro-ministro: a FNE lamenta que Sócrates tenha "reconhecido tardiamente os erros", pelo que vai pedir ao próximo governo a correcção de "muitas das medidas tomadas" no sector.

Acusando ministério e Governo de terem agido "consciente, coerente e sistematicamente contra os professores", a FNE "lamenta este tardio reconhecimento e rejeita que o que tenha estado em causa ao longo de toda a legislatura se possa reduzir a uma questão de delicadeza ou de falta de capacidade de explicação, ou sequer que as reacções dos professores - nas manifestações e nas greves - tenham sido actos de infantilidade", afirma a federação sindical numa nota enviada à Agência Lusa.

Posição semelhante foi assumida pela Fenprof, com o dirigente Mário Nogueira a retirar importância à questão da forma e a centrar-se no conteúdo do programa da Educação, o que o levou a lançar uma acusação firme contra um Governo que na sua perspectiva levou a cabo uma política para o sector que "desrespeitou e injuriou os professores".

"O senhor primeiro-ministro falou em indelicadezas cometidas pelo Governo em relação aos professores. É a expressão que quis utilizar", ironizou o dirigente da Fenprof, acrescentando que "este Governo como nenhum outro insultou os professores, desrespeitou, desconsiderou e injuriou os professores".

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