Gravura rupestre mais antiga da Austrália é de um canguru e tem 17.300 anos

por Graça Andrade Ramos - RTP
Montagem das fotografias da gravura rupestre do do canguru, datada de há 17.300 anos (esquerda) e a ilustração da obra (direita) Damien Finch - DR

A imagem realista do canguru, com cerca de dois metros, foi pintada em ocre vermelho no teto de uma gruta na região de Kimberley, na zona ocidental da Austrália, conhecida pelas suas pinturas rupestres aborígenes. Os investigadores australianos que a estudaram afirmam que terá entre 17.100 e 17.500 anos e é por isso "a mais antiga gravura rupestre pintada num abrigo de rocha australiano".

A pintura é semelhante a outras encontradas em ilhas do Sudoeste Asiático, com 40 mil anos, o que aponta a possibilidade de existirem no continente gravuras ainda mais antigas do que esta, refere Sven Ouzman, da Universidade da Austrália Ocidental e coautor do estudo.

O canguru estudado é apenas uma entre milhares de gravuras rupestres espalhadas pelas rochas de Kimberley, uma região de savana semiárida numa costa marítima recôndita e isolada. Datá-las com alguma precisão sempre foi um desafio.

Ouzman acredita que os detalhes da pintura, única também por estar intacta, poderão ajudar a estabelecer relações culturais entre os diferentes povos asiáticos que habitaram aquela área do globo há milhares de anos e entender um estilo representativo presente no mundo inteiro.
Ninhos de vespas
A idade da gravura do canguru foi determinada graças ao estudo por radiocarbono da lama de antigos ninhos de vespas, como detalha o artigo publicado dia 22 de fevereiro na revista Nature Human Behaviour.

Estes ninhos serviram de guia na análise a 16 gravuras, representativas daquela que é considerada a fase mais antiga das pinturas rupestres da região. Foram estudadas também a pintura de uma serpente, com três metros de comprimento, e a de uma criatura semelhante a um lagarto assim como outros cangurus. Os resultados iniciais provaram que o estilo proliferou num período entre há 17 mil e 13 mil anos.

A gravura do canguru acabou por se destacar por ser possível antecipá-la a esse período.

"Nós datámos três ninhos de vespa sobrepostos e três outros subjacentes à pintura para determinar, com confiança, que tem entre 17.500 e 17.100 anos de idade, provavelmente 17.300", afirmou Damien Finch, geocronologista da Universidade de Melbourne e pioneiro da técnica de datação.

Damien Finch reconheceu que é raro encontrar estes ninhos tanto sob, como sobre, uma única obra de arte, mas garantiu que a equipa conseguiu extrair amostras de ambos os tipos, de forma a estabelecer os intervalos mínimo e máximo da idade da gravura.

De acordo com a estimativa encontrada, "esta é a mais antiga gravura rupestre datada radiometricamente in situ até agora registada na Austrália", concluíram os cientistas.
Um estilo "realista" mundial
Os métodos de datação de pinturas pré-históricas encontradas em grutas de todo o mundo baseiam-se normalmente na análise por radiocarbono dos vestígios minerais presentes nos pigmentos, na análise da sobreposição de motivos e no estado de preservação.

Os arqueólogos têm elaborado dessa forma uma sequência cronológica relativa, por grupos de motivos que partilham as mesmas características. Em muitas das principais regiões de gravuras rupestres a análise levou mesmo ao estabelecimento de períodos estilísticos.

Os autores do estudo australiano referem que, neste campo, "as características das pinturas de Kimberley – o preenchimento esparso, as cores dos pigmentos, o detalhe anatómico, as figuras em tamanho real ou próximo – são partilhadas" por gravuras encontradas em Espanha e na Indonésia, além de mais áreas da Austrália e na Ásia.

"As análises por radiocarbono apontam uma enorme diversidade cronológica, desde menos de cinco mil anos (um exemplo da China) aos mais antigos motivos figurativos encontrados na ilhas do Sudoeste Asiático, de Sulawesi (um porco pintado há mais de 44 mil anos) e do Bornéu (de um animal não identificado, com mais de 40 mil anos)", referem no artigo.

As datas de motivos semelhantes encontrados na Europa oscilam entre os 35 mil e os 12 mil anos, o que coloca as pinturas de Kimberley em meados do período cronológico europeu e levanta especulações sobre o domínio cultural do "realismo" na pintura rupestre em diferentes continentes.

Para Cissy Gore-Birch, diretora da Corporação Aborígene de Balanggarra que detém os direitos sobre Kimberley e que cooperou no estudo, a datação das pinturas é ainda mais significativa.

"É importante que os conhecimentos e histórias dos povos indígenas não se percam e continuem a ser partilhados com as próximas gerações”, afirma.

A gravura mais antiga jamais descoberta, um rabisco encontrado na África do Sul, terá 73.000 anos.
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