Repressão sofrida por Quino "continua até aos nossos dias". A visão do cartoonista António Antunes

por Joana Raposo Santos - RTP
Joaquín Salvador Lavado, conhecido por Quino, nasceu na Argentina em 1932. Foi 30 anos depois que criou a personagem Mafalda. Foto: Enrique Marcarian - Reuters

Quino, o argentino que criou a contestatária personagem de banda desenhada Mafalda, morreu na quarta-feira. António Antunes, um dos maiores cartoonistas portugueses, recordou à RTP o lado "menos conhecido mas igualmente importante" de Quino e lamentou que o criador de Mafalda tenha sido, como tantos outros cartoonistas que expõem temas fraturantes, alvo de repressão - algo que diz ainda acontecer nos dias de hoje, numa sociedade que "infelizmente não se alterou".

“Num primeiro olhar todos associamos Quino à Mafalda, grande heroína de Quino. No entanto, há muito mais Quino para além da Mafalda”, realçou à RTP António Antunes, que 2017 organizou, no âmbito do Cartoon Xira – uma mostra dos melhores cartoons produzidos em Portugal -, uma exposição de Quino. O cartoonista argentino não esteve presente pois na altura já só se deslocava de cadeira de rodas.

"Essa exposição, constituída por cerca de 100 cartoons", não contou com a participação da Mafalda. "Quis mostrar esse Quino menos conhecido mas igualmente importante", pois esses cartoons faziam parte do mesmo pensamento contestatário, explicou.

“A Mafalda tornou-se um fenómeno universal, mas Quino era muito conhecido como cartoonista mesmo sem a Mafalda e tem obras que sobreviveram” a essa personagem, contou o cartoonista português, relembrando os “imensos livros publicados [por Quino] num trabalho paralelo”.

Ao contrário de outros cartoons de Quino, “a Mafalda vivia naquele ambiente que ele criou”, mas tratava igualmente “temáticas muito universais” e, por isso, fez sucesso por todo o mundo e não apenas na Argentina. António Antunes explica que, nos Estados Unidos, “a menina que pensava sobre o mundo” poderá não ter sido tão popularizada pois existiam já os Peanuts do cartoonista Charles Schulz.

Questionado sobre o que poderia Quino trazer para os dias de hoje se continuasse a desenhar, António Antunes considerou que o cartoonista argentino continuaria a praticar o papel contestatário de sempre pois, “infelizmente, a sociedade não se alterou”.

“Quino tinha uma visão muito sensata sobre a sociedade, excessos e injustiças que infelizmente continuam”, lamentou Antunes. “Não está nada desatualizado nem estaria se continuasse a desenhar”.

“Se continuasse com saúde faria o que sempre fez, porque a sociedade não se alterou, infelizmente. Pelo contrário, em alguns casos até regrediu”.
"O que se passou com Quino durante a ditadura continuou até aos nossos dias"
Joaquín Salvador Lavado, conhecido por Quino, nasceu na Argentina em 1932. Foi 30 anos depois que criou a personagem Mafalda, inicialmente concebida para uma campanha publicitária de eletrodomésticos.

Em nove anos, foram quase duas mil as tiras de banda desenhada nas quais Mafalda era a protagonista. Inteligente e contestatária, esta menina de seis anos lançava comentários que não agradavam a todos – especialmente aos militares argentinos - sobre a cena política e social argentina da altura, que atravessava uma ditadura.

Quino enfrentou, por isso, ameaças de morte que o forçaram a abandonar o próprio país, pedindo a nacionalidade espanhola.

António Antunes, cujos cartoons já foram alvo de campanhas censórias – a imagem de um Trump cego a ser guiado por um cão guia com a cara de Benjamin Netanyahu foi retirado pelo New York Times e a publicação decidiu aí não voltar a publicar cartoons -, lamentou que o criador de Mafalda tenha sido, como tantos outros cartoonistas que expõem temas fraturantes, alvo de repressão. Algo que diz acontecer ainda nos dias de hoje.

O português explica que “os cartoons geralmente criticam os poderes instituídos e, naturalmente, os cartoonistas sofrem da parte destes uma pressão ou mesmo repressão que se manifesta pela censura, despedimento, prisão, exilio e, nos casos mais extremos, a morte dos autores” - caso, por exemplo, das vítimas no atentado à publicação Charlie Hebdo.

“Encontramos atualmente, espalhada pelo mundo, uma orquestração de ismos contra a liberdade de expressão – dos radicalismos islâmico, judaico, católico, evangélico, hindu, budista ao autoritarismo puro e duro. Assim, o que se passou com Quino durante a ditadura militar continuou até aos nossos dias, agora de uma forma ainda mais generalizada e sofisticada com o concurso da internet e das redes sociais”, considera.

Para além do cartoon com Trump e Netanyahu, outros trabalhos de António Antunes geraram também polémica: a caricatura do papa João Paulo II com um preservativo no nariz e, anteriormente, o trabalho baseado na famosa fotografia de crianças judias do ghetto de Varsóvia, ameaçadas por soldados nazis com metralhadoras, transformadas no cartoon em crianças palestinianas ameaçadas por soldados israelitas com metralhadoras.
Mundo atual seria “uma vergonha” para Mafalda
Quino morreu na sequência de um acidente vascular cerebral que sofreu na semana passada. Para além de Mafalda, desenhou e publicou vários livros de desenho gráfico para um público mais adulto, nos quais predominam os temas da condição humana, da ética ou da existência divina, tratados com um humor corrosivo e negro.

Mafalda, uma menina de seis anos que detestava sopa, adorava os Beatles e tinha monólogos preocupados e existencialistas em frente a um globo terrestre, tornou-se uma espécie de comentadora política da atualidade argentina.

Quino deixou de desenhar Mafalda em 1973, admitindo ter ficado extenuado, mas continuou a desenhar e a publicar outros desenhos de humor. O El País descreveu-o como "o cartoonista mais internacional e mais traduzido em língua espanhola, e talvez o mais cativante", com centenas de tiras publicadas na imprensa de todo o mundo.

Em 2016, numa entrevista à agência Efe, Quino reconheceu que gostaria de ser recordado como "alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem" e admitiu que o mundo atual seria para a personagem Mafalda "um desastre e uma vergonha".
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