Como Elon Musk comprou o Twitter. História de uma capitulação em 11 dias

Muita tinta vai ainda correr sobre as razões que levaram o multibilionário Elon Musk, o homem mais rico do mundo, patrão da Tesla e da SpaceX, a adquirir a rede social Twitter. A versão do próprio é acima de tudo a defesa, dentro dos limites inseridos na lei, da liberdade de expressão, a qual, afirma, está sob ataque tanto da extrema-esquerda como da extrema-direita. Se o vai conseguir o futuro o dirá.

RTP /
Elon Musk olha para o seu telemóvel em 29 de abril de 2022 na conferência de imprensa sobre o teste de lançamento da cápsula tripulada Crew Dragon da SpaceX Reuters

A saga da aquisição, essa, já pode ser analisada e irá provavelmente por si só merecer filmes mais ou menos romanceados. Porque é digna de ser contada.

O fim é o conhecido. Dia 24 de abril de 2022, o conselho de administração da rede social viu-se, entre a espada e a parede, forçado a aceitar a proposta de Musk, colocada dez dias antes, de aquisição do Twitter por 41 mil milhões de euros [44 mil milhões de dólares].

A oferta tinha sido súbita, inusitada, inesperada e assustadora. Entre algum ceticismo inicial quanto à seriedade de Musk, o conselho de administração tentou contrariá-la através de uma poison pill, tática defensiva habitual para proteger uma companhia de uma aquisição hostil, baseando-se nos direitos dos acionistas e sócios a adquirir ações da empresa a preços de saldo. Em suma, tentaram fazer o Twitter menos atraente enquanto negócio. Geralmente uma pílula envenenada é altamente eficaz na repulsa da ameaça, sinal de que a empresa tenciona combater a aquisição e no mínimo leva a meses, se não anos, de lutas. Já Elon Musk engoliu-a sem sequer ficar doente.

Capitularam em 11 dias.

Tal rapidez foi “invulgar” comentou Edward Rock, professor de gestão corporativa na Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque. “O interessante” foi o conselho de administração do Twitter “aceitar um acordo em tão pouco tempo e sendo este um acordo tão incondicional”.

Igualmente interessantes serão as razões que levaram Musk a precipitar-se na compra do Twitter.
Crime?
A oito de abril, logo após ser conhecida a compra de três mil milhões de ações da empresa, surgiram notícias a falar em crime financeiro e o multibilionário percebeu que poderia estar metido em sarilhos. Por lei nos Estados Unidos, qualquer pessoa que faça uma compra desta magnitude é obrigada a informar primeiro as entidades reguladoras e só depois avançar. O atraso permitiu a Musk embolsar 156 milhões de dólares.

Os regulamentos exigem ainda a notificação do mercado quando um acionista ultrapassa a quota de cinco por cento das ações, meta já atingida por Musk a 14 de março sem que ninguém soubesse.

Uma infração grave, que lhe permitiu continuar a comprar ações a baixo preço sem que outros investidores pudessem reagir. Musk poderá ter de pagar uma multa de seis números pela falha.

Se estas aventuras terão sido o motivo real de Musk em querer comprar o Twitter, depois de garantir que seria um acionista passivo, não é conhecimento público. O certo é que a passividade se transformou rapidamente em ataque fulminante. E este deu frutos.
Escassos quatro meses
“O que vos direi é que, com base na análise e perceção de risco, certezas e valor, o conselho decidiu por unanimidade que a oferta de Elon representou o melhor valor para os nossos acionistas”, explicou o presidente da companhia, Bret Taylor, aos mais de sete mil empregados do Twitter, numa comunicação na manhã de segunda-feira, 25 de abril, ouvida pelo jornal The New York Times.

Foi a conclusão inevitável dos 11 membros da administração do Twitter, após horas de análise financeira e de projeções, semeadas de intenso debate. À pergunta, poderá a companhia valer mais do que os 54,20 dólares por ação oferecidos por Musk? E poderia surgir outro investidor? Para ambas, a resposta frustrante foi não.

Os administradores enfrentavam ainda um outro problema, o próprio multibilionário, um negociador imprevisível, que recusava alterar o preço da oferta e estava mesmo pronto a denegrir publicamente a empresa e a usar a sua considerável fortuna para obter um acordo nos seus termos.

Não foi só a capitulação que foi rápida. Toda a operação se iniciou há escassos quatro meses, em janeiro, quando Musk começou a adquirir paulatinamente ações do Twitter até conseguir uma participação superior a nove por cento.

Quando tal veio a público no início de abril, através de uma declaração de títulos do multibilionário, o Twitter ofereceu-lhe um lugar na administração. Musk começou por aceitar e depois mudou de ideias, talvez por perceber que tal não o iria proteger de eventuais problemas com os reguladores.
A oferta
A 13 de abril Musk avisou Taylor, presidente do conselho de administração do Twitter desde 2016, numa mensagem de texto. “Vou enviar-te uma oferta esta noite, será pública de manhã”.

Dito e feito. Na manhã de dia 14 de abril chegou a carta, declarando a intenção de Elon Musk de adquirir o Twitter por 54,20 dólares por ação, vaga quanto a planos para a empresa ou financiamentos. Estavam envolvidos na operação Anthony Armstrong e Michael Grimes, dois banqueiros do Morgan Stanley, ambos com ligações à aquisição de tecnológicas.

O conselho de administração do Twitter ficou sem saber como reagir. Elon Musk não era conhecido por adquirir empresas e já tinha anteriormente desistido de alguns negócios, como quando em 2018 prometeu tornar a Tesla uma empresa privada e depois recuou.

Dia 15 de abril, os administradores da rede social aprovaram por unanimidade a aplicação da pílula envenenada. Apelaram ainda ao Goldman Sachs, o seu banco de sempre, e ao JPMorgan Chase. Meteram ao barulho a firma de advogados Simpson Thatcher&Bartlett para apoiar o seu habitual escritório de advocacia, Wilson Sonsini.

Elon Musk ficou imperturbável. Os seus banqueiros começaram a reunir dezenas de milhares de milhões de dólares em empréstimos, apoiados numa carta com promessas pouco detalhadas das intenções do multibilionário para a empresa. Musk terá ele mesmo ligado para alguns bancos, referiram fontes próximas, sob anonimato, ao The New Yotk Times.

A tática convenceu o Citigroup, o Bank of America, o BNP Paribas e outros bancos a investir. Decisivos terão sidos os sucessos do empresário e a sua riqueza pessoal, referiram outras fontes. Certo é que a fortuna de Musk está avaliada em 270 mil milhões de dólares e ele não precisaria de empréstimos para realizar o negócio.
Twitter vs Twitter
Musk diversificou as táticas. Usou o Twitter, rede onde possui 84 milhões de seguidores, para pressionar o acordo ameaçando levar a proposta diretamente aos acionistas se a administração recusasse a oferta. O conselho de administração dividiu-se.

A 16 de abril Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter que se afastou de presidente executivo em novembro passado mas se mantém no conselho, tweetara que este tinha sido a “disfunção consistente da empresa”, reconhecendo depois que não estava autorizado a dizê-lo. A crítica calou fundo noutros membros da administração e executivos, afirmaram duas pessoas que trabalharam o acordo ao The New York Times. Taylor pediu a Dorsey que se abstivesse de tweets negativos, este fez-se de surdo e continuou a dizer mal dos colegas.

A 21 de abril, Elon Musk apresentou financiamentos da ordem dos 46.5 mil milhões de dólares, 13 mil milhões em dívidas por parte do Morgan Stanley e outros financiadores e outros 12.5 mil milhões em empréstimos contra participações na Tesla. Os restantes 21 mil milhões, disse Musk, seriam pagos em dinheiro.

Talvez só então o conselho de administração do Twitter levou a oferta a sério. Nenhuma outra proposta tinha surgido entretanto, referiram sob anonimato fontes familiares com a discussão. E seriam realistas as perspetivas de aumento de utilizadores e de rendimentos, dois objetivos agressivos para uma empresa que em oito anos da última década não dava lucros, perguntavam-se Taylor e outros administradores.

A pandemia tinha sido uma bomba de oxigénio levando à valorização das ações do Twitter acima dos 77 dólares em fevereiro de 2021. Mas o efeito foi de curta duração e os lucros da publicidade estavam muito aquém dos seus competidores. Com o fim do efeito da pandemia, as ações do Twitter haviam caído abaixo dos 40 dólares.
Estocada final
Elon Musk não era o primeiro salvador a apresentar-se. Taylor tinha sido um de outros dois. Egon Durban, que tinha trabalhado com Musk em 2018 nos esforços para privatizar a Tesla, poderia ser suspeito de tentar influenciar o negócio. Durban, copresidente executivo da firma de investimentos Silver Lake, garantiu que não tinha nada a ver com a proposta de Musk ou o seu financiamento.

No sábado 23 de abril, Musk falou com Taylor e ameaçou pessoalmente levar a sua proposta aos acionistas, sem falar explicitamente numa oferta hostil, referiram testemunhas do telefonema.

Domingo 24, o conselho de administração concluiu que tinha de aceitar a oferta, por ser incapaz de cobrir os 54,20 dólares por ação e não se vislumbrar um só cavaleiro andante para lutar contra o dragão. Taylor telefonou a Musk a dizer que o Twitter aceitava ser comprado. Mesmo assim, o multibilionário enviou ainda uma carta a ameaçar com uma oferta hostil.

Os advogados do Twitter incluíram no negócio todas as cláusulas possíveis de proteção em caso de incumprimento e um prazo de seis meses para concluir o negócio, que poderá ser importante se as ações das tecnológicas continuarem a cair.

Os conselheiros de Musk deram as garantias de financiamento, com o multibilionário a assinar pessoalmente cada ponto, diz quem assistiu. A compra do Twitter revelou-se assim profundamente pessoal para Musk.
Que irá suceder ao Twitter
Quando o acordo foi anunciado segunda-feira 25 de abril, Musk festejou a vitória com um tweet, escrevendo a palavra “Yessss!!!” entre emojis de foguetões, estrelas e corações.

Muitos analistas duvidam que este tenha sido apesar de tudo um bom negócio. O Twitter é uma plataforma de nicho utilizada sobretudo por jornalistas, políticos e ativistas, maioritariamente jovens e influentes, pouco atraente para o norte-americano médio, o que explica em parte os seus problemas financeiros. Por outro lado, as análises de mercado, sublinham, demonstram que os utilizadores nos Estados Unidos preferem e aderem mais a redes sociais com algum controlo de discurso, pelo que as promessas de deitar ao lixo as regulações de incentivo ao ódio poderão virar-se contra Musk.

O Twitter demonstrou ainda ser uma plataforma de debate onde os utilizadores replicam conteúdos, não os criam. O objetivo é, muitas vezes, lançar e ganhar uma discussão, outra característica que alheia a maioria dos norte-americanos. Estes mantêm-se fiéis ao Facebook, com 71 por cento a frequentar a sua página diariamente, pelo menos, de acordo com pesquisas de 2021. O YouTube reina incontestado sobretudo na criação de conteúdos.

Logo depois da publicação da oferta de Musk, registaram-se flutuações nas contas do Twitter podendo indicar a saída de uns utilizadores e a entrada de outros.

Seja qual for o impacto da aquisição do Twitter, 66 por cento dos americanos numa sondagem da Momentive na semana passada consideraram que as redes sociais têm um impacto mais negativo do que positivo na democracia e na liberdade de discurso. O futuro dirá se a aposta de Musk na democratização dos conteúdos o irá afinal tornar mais ou menos rico.
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