Mundo
Guerra na Ucrânia
CIA alerta para risco de incursões de drones russos em países europeus mediterrânicos
Esta quinta-feira, dois F18 espanhóis descolaram da Roménia para vigiar "alvos aéreos" após um alerta para drones russos próximos da fronteira com a Ucrânia.
A Rússia estará a preparar novas incursões com drones na Europa, mas desta vez contra países mediterrânicos. Os serviços de informação dos Estados Unidos recolheram informações sobre os planos de escalada do Kremlin e partilharam-nas com vários governos europeus. Portugal não é mencionado na lista de potenciais alvos.
O jornal espanhol El Mundo avança que entre os potenciais alvos estão Espanha, França e Itália. Em agosto, o diretor da CIA esteve em Moscovo e terá sido durante essa visita que reuniu informações sobre os planos do Kremlin. Os serviços secretos norte-americanos acreditam que os drones poderão ser lançados a partir de navios da chamada "frota fantasma" que a Rússia tem no mar Mediterrâneo.
A justificação para tal escalada já vem sendo discutida há algum tempo. Moscovo tem insistido repetidamente que o fornecimento de armamento, dados de informações e conselheiros militares à Ucrânia transforma os países ocidentais em participantes na guerra e em alvos legítimos.
Um navio mercante pode transportar vários destes aparelhos e lançá-los por catapulta com muito menos dificuldade do que um Shahed ou um Geran, que são consideravelmente maiores.
A uma distância de 200 ou 300 quilómetros da costa, o voo duraria entre uma hora e quinze minutos e duas horas, aproximadamente, dependendo da velocidade real.
A sua pequena carga não serve para destruir uma grande instalação, mas pode provocar um incêndio, danificar equipamentos expostos ou paralisar temporariamente um porto ou aeroporto. O efeito pretendido poderia ser político e económico, para além de material.
Visita do diretor da CIA a Moscovo
A Lituânia - assim como outros países- lida com esta informação após a misteriosa viagem do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo, a 25 de agosto.
Ratcliffe chegou num avião militar americano que tinha feito escala em Riga, mesmo no flanco báltico da NATO. Não há registo público de que tenha realizado reuniões na Letónia, embora fontes diplomáticas de um país báltico confirmem que estavam cientes da viagem com antecedência e que, posteriormente, foram informadas sobre o seu conteúdo. O Wall Street Journal e o Politico afirmaram que Ratcliffe foi alertar a Rússia contra qualquer ataque ou provocação à NATO.
Segundo fontes conhecedoras do alerta, os governos de Espanha, França e Itália foram também informados de que a Rússia estava a preparar uma possível operação com drones contra um destes países.
Este aviso coincide com a reação excecional de Emmanuel Macron, que depois de reunir o Conselho de Defesa a 16 de setembro, convocou, dois dias depois, no Palácio do Eliseu, os líderes de todos os partidos e os candidatos às eleições presidenciais de 2027.
Vários analistas de defesa consultados confirmaram a existência de um relatório da CIA que circulou entre as chancelarias europeias — um documento muito preciso na descrição do ataque e ao qual os franceses atribuíram grande credibilidade.Porquê uma incursão em Espanha, França ou Itália?
Os três países terão campanhas e eleições em 2027 e contam com forças radicais capazes de explorar o medo e o cansaço em relação à Ucrânia. Em França e em Itália, existem ligações ou posições claramente próximas dos interesses do Kremlin.
Keir Giles, analista britânico especializado em estratégia militar russa que trabalhou para a Academia de Defesa do Reino Unido, alerta que a distância de Espanha em relação à fronteira russa não garante a sua segurança.
"Não são necessariamente os países da linha da frente que serão o alvo. O alvo será onde estiver o ponto mais fraco da Europa", sustenta. Entre os possíveis pontos vulneráveis, refere "países como o Reino Unido ou a Espanha, que não investiram em sistemas integrados de defesa aérea e antimíssil adequados à ameaça russa", alertou o analista britânico em declarações ao jornal El Mundo.O principal objetivo de uma ação com drones Gerbera lançados de um navio mercante não seria necessariamente causar grande destruição.
Com uma carga explosiva de cerca de quatro ou cinco quilos, o aparelho é mais útil para fechar um aeroporto, provocar um incêndio, sobrevoar uma instalação militar ou demonstrar que a Rússia pode alcançar a retaguarda europeia.
"A Rússia observa onde qualquer ação terá mais impacto devido à falta de resiliência, de defesa civil e à fragilidade política", acrescenta Keir Giles.
A escolha do alvo, explica, responde a "uma equação que muda continuamente. Moscovo calcula onde pode obter o maior resultado com os riscos e os recursos que está disposta a assumir”.
A ideia de um lançamento naval contra a NATO já tinha sido apontada pelo blog ucraniano Defense Express há exatamente um ano, quando drones Gerbera transportados em petroleiros da "frota fantasma" foram lançados através de catapultas a partir de águas internacionais. "A Federação Russa já tinha realizado lançamentos de veículos aéreos não tripulados a partir de navios. Por exemplo, em 2020, a ZALA (empresa russa fabricante de drones, ligada ao consórcio armamentista Kalashnikov) realizou lançamentos de demonstração, lançando drones a partir de uma embarcação em movimento", recordou Keir Giles.
Em outubro de 2024, a Rússia retomou estas experiências a partir de uma plataforma marítima praticamente estacionária.
A Suécia interferiu com o aparelho e classificou o voo como uma violação do seu espaço aéreo. Precisamente por esses dias, o porta-aviões francês Charles de Gaulle estava em Malmö.
O drone manteve-se a mais de 10 quilómetros de distância e não foi identificado. E, no passado dia 14 de setembro, um navio de guerra russo disparou dois sinalizadores de emergência contra um helicóptero militar dinamarquês que realizava tarefas de vigilância de rotina em águas internacionais do Mar Báltico."Remédio russo contra arrogância francesa"
Nos círculos russos próximos do meio militar, já se apresenta o flanco sul do Mediterrâneo como uma via a partir da qual se pode ameaçar a França, chegando-se a divulgar uma lista de possíveis alvos.
A 19 de setembro, apenas um dia após a reunião convocada por Macron, o canal Rybar na rede social Telegram publicou um mapa do Mediterrâneo sob o título "Remédio russo contra a arrogância francesa". O texto imaginava o fornecimento de drones Geran-5 à Argélia e apontava que poderiam atingir fábricas aeronáuticas, bases militares, centrais nucleares e complexos petroquímicos no sul de França.
"A impressão que os russos querem passar é a da sua própria teia de aranha", explica a fonte lituana, referindo-se à espetacular operação em que a Ucrânia escondeu drones em contentores transportados por camiões através da Rússia — sem que os condutores soubessem — e os lançou perto de aeródromos russos para destruir várias aeronaves.
Fontes dos serviços de informações dos países bálticos associam a maior agressividade russa aos danos que os ataques ucranianos estão a causar no seu sector energético.
A recente intensificação das atividades de sabotagem russas visa vários objetivos: reduzir o apoio à Ucrânia, provocar divisões na NATO e alarmar a população europeia.
A Polónia também dispõe de informações semelhantes. O primeiro-ministro Donald Tusk alertou para eventuais ataques russos com drones ou mísseis contra países que ajudam a Ucrânia, sublinhando que estas nações já demonstraram capacidade para impedir tais operações ou para identificar os seus autores e mandantes. "A Rússia não se vai esconder. Precisamos, simplesmente, de evitar consequências", alertou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Kestutis Budrys.
As dimensões do Gerbera superam ligeiramente a largura interna habitual de um contentor. Podia ser transportado com as asas desmontadas, dobrado ou posicionado na diagonal, sendo preparado no convés.
O modelo já cruzou os céus da União Europeia: o Gerbera-2 (uma variante deste drone russo), recuperado recentemente na costa polaca, transportava uma ogiva de fragmentação com detonador e cerca de quatro quilos de explosivo.
No entanto, este incidente não envolveu um lançamento naval. O drone veio provavelmente de Kaliningrado, atravessando a Lituânia.
O método não é exclusivo da Rússia, a Ucrânia também lança drones aéreos a partir de plataformas no mar.
Segundo El Mundo, alguns analistas acreditam que esta poderá ser uma resposta. Informações da Bloomberg, revelam que uma pessoa próxima do Kremlin alertou para a intenção de punir a Europa pelo apoio a Kiev.
O jornal espanhol El Mundo avança que entre os potenciais alvos estão Espanha, França e Itália. Em agosto, o diretor da CIA esteve em Moscovo e terá sido durante essa visita que reuniu informações sobre os planos do Kremlin. Os serviços secretos norte-americanos acreditam que os drones poderão ser lançados a partir de navios da chamada "frota fantasma" que a Rússia tem no mar Mediterrâneo.
A justificação para tal escalada já vem sendo discutida há algum tempo. Moscovo tem insistido repetidamente que o fornecimento de armamento, dados de informações e conselheiros militares à Ucrânia transforma os países ocidentais em participantes na guerra e em alvos legítimos.
Até agora, a Rússia agiu abaixo daquilo a que os especialistas chamam "limiar bélico", evitando ações que pudessem provocar uma resposta coordenada da NATO. No entanto, lançou uma crescente campanha de sabotagem contra alvos em países que apoiam a Ucrânia, para além de incidentes isolados aparentemente destinados a testar limites e reações. Entretanto, dois F18 espanhóis descolaram na
Roménia para vigiar "alvos aéreos", na sequência de um alerta para drones russos
perto da fronteira com a Ucrânia.
Uma primeira escalada ocorreu há um ano, quando 19 drones, voando sem munições, se desviaram para o espaço aéreo polaco.
O grande ponto de viragem foi o recente incidente com drones armados no aeroporto de Leipzig, que as autoridades alemãs atribuem aos serviços de informação russos. Agora, as autoridades lituanas sabem até o tipo de drone os russos poderiam utilizar contra Espanha, França ou Itália. Seria o Gerbera, um drone que mede aproximadamente dois metros, tem 2,5 metros de envergadura, pesa até 18 quilos, atinge cerca de 160 quilómetros por hora e tem um alcance máximo declarado de 600 quilómetros, dependendo sempre da carga explosiva transportada ou de outras variáveis, como o vento.
O grande ponto de viragem foi o recente incidente com drones armados no aeroporto de Leipzig, que as autoridades alemãs atribuem aos serviços de informação russos. Agora, as autoridades lituanas sabem até o tipo de drone os russos poderiam utilizar contra Espanha, França ou Itália. Seria o Gerbera, um drone que mede aproximadamente dois metros, tem 2,5 metros de envergadura, pesa até 18 quilos, atinge cerca de 160 quilómetros por hora e tem um alcance máximo declarado de 600 quilómetros, dependendo sempre da carga explosiva transportada ou de outras variáveis, como o vento.
Um navio mercante pode transportar vários destes aparelhos e lançá-los por catapulta com muito menos dificuldade do que um Shahed ou um Geran, que são consideravelmente maiores.
A uma distância de 200 ou 300 quilómetros da costa, o voo duraria entre uma hora e quinze minutos e duas horas, aproximadamente, dependendo da velocidade real.
A sua pequena carga não serve para destruir uma grande instalação, mas pode provocar um incêndio, danificar equipamentos expostos ou paralisar temporariamente um porto ou aeroporto. O efeito pretendido poderia ser político e económico, para além de material.
Visita do diretor da CIA a Moscovo
A Lituânia - assim como outros países- lida com esta informação após a misteriosa viagem do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo, a 25 de agosto.
Ratcliffe chegou num avião militar americano que tinha feito escala em Riga, mesmo no flanco báltico da NATO. Não há registo público de que tenha realizado reuniões na Letónia, embora fontes diplomáticas de um país báltico confirmem que estavam cientes da viagem com antecedência e que, posteriormente, foram informadas sobre o seu conteúdo. O Wall Street Journal e o Politico afirmaram que Ratcliffe foi alertar a Rússia contra qualquer ataque ou provocação à NATO.
Segundo fontes conhecedoras do alerta, os governos de Espanha, França e Itália foram também informados de que a Rússia estava a preparar uma possível operação com drones contra um destes países.
Este aviso coincide com a reação excecional de Emmanuel Macron, que depois de reunir o Conselho de Defesa a 16 de setembro, convocou, dois dias depois, no Palácio do Eliseu, os líderes de todos os partidos e os candidatos às eleições presidenciais de 2027.
Vários analistas de defesa consultados confirmaram a existência de um relatório da CIA que circulou entre as chancelarias europeias — um documento muito preciso na descrição do ataque e ao qual os franceses atribuíram grande credibilidade.Porquê uma incursão em Espanha, França ou Itália?
Os três países terão campanhas e eleições em 2027 e contam com forças radicais capazes de explorar o medo e o cansaço em relação à Ucrânia. Em França e em Itália, existem ligações ou posições claramente próximas dos interesses do Kremlin.
Keir Giles, analista britânico especializado em estratégia militar russa que trabalhou para a Academia de Defesa do Reino Unido, alerta que a distância de Espanha em relação à fronteira russa não garante a sua segurança.
"Não são necessariamente os países da linha da frente que serão o alvo. O alvo será onde estiver o ponto mais fraco da Europa", sustenta. Entre os possíveis pontos vulneráveis, refere "países como o Reino Unido ou a Espanha, que não investiram em sistemas integrados de defesa aérea e antimíssil adequados à ameaça russa", alertou o analista britânico em declarações ao jornal El Mundo.O principal objetivo de uma ação com drones Gerbera lançados de um navio mercante não seria necessariamente causar grande destruição.
Com uma carga explosiva de cerca de quatro ou cinco quilos, o aparelho é mais útil para fechar um aeroporto, provocar um incêndio, sobrevoar uma instalação militar ou demonstrar que a Rússia pode alcançar a retaguarda europeia.
"A Rússia observa onde qualquer ação terá mais impacto devido à falta de resiliência, de defesa civil e à fragilidade política", acrescenta Keir Giles.
A escolha do alvo, explica, responde a "uma equação que muda continuamente. Moscovo calcula onde pode obter o maior resultado com os riscos e os recursos que está disposta a assumir”.
A ideia de um lançamento naval contra a NATO já tinha sido apontada pelo blog ucraniano Defense Express há exatamente um ano, quando drones Gerbera transportados em petroleiros da "frota fantasma" foram lançados através de catapultas a partir de águas internacionais. "A Federação Russa já tinha realizado lançamentos de veículos aéreos não tripulados a partir de navios. Por exemplo, em 2020, a ZALA (empresa russa fabricante de drones, ligada ao consórcio armamentista Kalashnikov) realizou lançamentos de demonstração, lançando drones a partir de uma embarcação em movimento", recordou Keir Giles.
Em outubro de 2024, a Rússia retomou estas experiências a partir de uma plataforma marítima praticamente estacionária.
Além das manobras, já se registou um incidente preocupante no Báltico. Em fevereiro, uma unidade naval sueca detetou um drone a descolar do navio russo de inteligência de sinais Zhigulevsk, no estreito de Öresund.
A Suécia interferiu com o aparelho e classificou o voo como uma violação do seu espaço aéreo. Precisamente por esses dias, o porta-aviões francês Charles de Gaulle estava em Malmö.
O drone manteve-se a mais de 10 quilómetros de distância e não foi identificado. E, no passado dia 14 de setembro, um navio de guerra russo disparou dois sinalizadores de emergência contra um helicóptero militar dinamarquês que realizava tarefas de vigilância de rotina em águas internacionais do Mar Báltico."Remédio russo contra arrogância francesa"
Nos círculos russos próximos do meio militar, já se apresenta o flanco sul do Mediterrâneo como uma via a partir da qual se pode ameaçar a França, chegando-se a divulgar uma lista de possíveis alvos.
A 19 de setembro, apenas um dia após a reunião convocada por Macron, o canal Rybar na rede social Telegram publicou um mapa do Mediterrâneo sob o título "Remédio russo contra a arrogância francesa". O texto imaginava o fornecimento de drones Geran-5 à Argélia e apontava que poderiam atingir fábricas aeronáuticas, bases militares, centrais nucleares e complexos petroquímicos no sul de França.
"A impressão que os russos querem passar é a da sua própria teia de aranha", explica a fonte lituana, referindo-se à espetacular operação em que a Ucrânia escondeu drones em contentores transportados por camiões através da Rússia — sem que os condutores soubessem — e os lançou perto de aeródromos russos para destruir várias aeronaves.
Fontes dos serviços de informações dos países bálticos associam a maior agressividade russa aos danos que os ataques ucranianos estão a causar no seu sector energético.
A recente intensificação das atividades de sabotagem russas visa vários objetivos: reduzir o apoio à Ucrânia, provocar divisões na NATO e alarmar a população europeia.
A Polónia também dispõe de informações semelhantes. O primeiro-ministro Donald Tusk alertou para eventuais ataques russos com drones ou mísseis contra países que ajudam a Ucrânia, sublinhando que estas nações já demonstraram capacidade para impedir tais operações ou para identificar os seus autores e mandantes. "A Rússia não se vai esconder. Precisamos, simplesmente, de evitar consequências", alertou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Kestutis Budrys.
As dimensões do Gerbera superam ligeiramente a largura interna habitual de um contentor. Podia ser transportado com as asas desmontadas, dobrado ou posicionado na diagonal, sendo preparado no convés.
O modelo já cruzou os céus da União Europeia: o Gerbera-2 (uma variante deste drone russo), recuperado recentemente na costa polaca, transportava uma ogiva de fragmentação com detonador e cerca de quatro quilos de explosivo.
No entanto, este incidente não envolveu um lançamento naval. O drone veio provavelmente de Kaliningrado, atravessando a Lituânia.
O método não é exclusivo da Rússia, a Ucrânia também lança drones aéreos a partir de plataformas no mar.
Segundo El Mundo, alguns analistas acreditam que esta poderá ser uma resposta. Informações da Bloomberg, revelam que uma pessoa próxima do Kremlin alertou para a intenção de punir a Europa pelo apoio a Kiev.