Donald Trump exige assinatura dos Acordos de Abraão para conseguir paz

Donald Trump exige assinatura dos Acordos de Abraão para conseguir paz

A ideia foi avançada pelo presidente norte-americano, esta segunda-feira, numa estratégia de levar os países de maioria muçulmana a normalizar as relações com Israel. A exigência pode complicar as negociações e irritar os tradicionais aliados dos EUA no Médio Oriente.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Donald Trump durante as cerimónias, a 24 de maio, do Memorial Day no cemitério nacional, em Arlington, EUA Foto: Nathan Howard - Reuters

Apesar do desafio se dirigir a diversos Estados, Donald Trump pretende, como prioridade, o compromisso de Riade e do Catar.

O presidente norte-americano referiu, na sua plataforma Truth Social, que o processo de reconhecimento do Estado de Israel "deve começar com a assinatura imediata da Arábia Saudita e do Catar, e todos os outros devem seguir o exemplo".

"Se não o fizerem, não devem fazer parte deste acordo [com o Irão], porque isso revela más intenções",acrescentou.

Os Acordos de Abraão "provaram ser, para os países envolvidos", a fonte de um "boom financeiro, económico e social, mesmo nestes tempos de guerra e de conflito", sublinhou ainda.



Trump enumerou os líderes muçulmanos com quem falou sábado, sobre formas de terminar o conflito com o regime dos Ayatolahs.

"Afirmei que, depois de todo o trabalho que os Estados Unidos realizaram para tentar resolver esta situação muito complexa, todos estes países deveriam ser obrigados, no mínimo, a assinar simultaneamente os Acordos de Abraão", revelou. 

"Se o Irão assinar o acordo comigo, enquanto Presidente dos Estados Unidos da América, será uma honra tê-lo também como parte desta coligação mundial sem precedentes. O Médio Oriente estará unido, poderoso e economicamente forte como talvez nenhuma outra região do mundo!" antecipou ainda Trump. 

O regime xiita iraniano jurou no entanto destruir Israel, mal chegou ao poder em 1979. Assinados em 2020 e intermediados pelo genro de Donald Trump durante a primeira Administração Trump, os Acordos de Abraão levaram à normalização das relações entre Israel e vários países árabes, incluindo os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, Marrocos e o Sudão. O Cazaquistão anunciou em novembro de 2025 a sua intenção de assinar o acordo.

Esta pressão de Trump já foi rejeitada pelo Paquistão, que tem procurado mediar as negociações entre Washington e Teerão.

Uma fonte de Islamabad, sob anonimato. , referiu à Reuters que, o cessar-fogo com o Irão e os Acordos de Abraão são questões que “não estão interligadas e não podem ser interligadas”

“O Paquistão não tem qualquer obrigação de acatar tal exigência”, acrescentou.
"Improvável"
Trump já tinha avançado com a mesma ideia por ocasião do acordo de paz em Gaza, em outubro de 2025.

Aaron David Miller, antigo diplomata norte-americano e investigador do think-tank Carnegie Endowment for International Peace, mostrou-se cético quanto a uma resposta positiva a esta ideia do presidente norte-americano.

"Parece-me altamente improvável que assistamos a qualquer expansão destes acordos a curto prazo", disse à Agência France Presse. Acrescentou ter "dificuldade em levar este pedido a sério".

A normalização de relações com Israel trouxe, por exemplo, diversas vantagens aos EAU, signatários dos acordos em 2020, incluindo económicas e científicas, mas os Emirados tornaram-se um alvo prioritário do Irão, desde o início da guerra, a 28 de Fevereiro.

Circunstância que levou Aaron David Miller e afirmar que “o suposto modelo do Dubai, baseado num certo grau de segurança e estabilidade, será provavelmente agora posto em causa”. 

Provavelmente, as reticências já demonstradas por outros Estados do Golfo e da Ásia, quanto à assinatura dos Acordos, ter-se-ão agravado.“Os sauditas não vão aderir aos Acordos de Abraão. A rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados impede isso”, lembrou ainda o investigador, sublinhando que Riade procura um acordo separado com Washington.

O próprio Trump parece ter consciência da falta de futuro da proposta, ao sugerir que o Irão poderia assinar igualmente os Acordos de Abraão, comentando, “uau, isso seria qualquer coisa!”.

A publicação de Donald Trump, após um fim-de-semana a dizer que um acordo com Teerão "está próximo", parece igualmente em linha com a falta de "pressa" enunciada entretanto pelo presidente dos EUA.

Trump pediu domingo aos negociadores iranianos e norte-americanos que "não se precipitasse num acordo".
Fator de irritação

O fator Israel deve também ser tido em conta. Antes de qualquer normalização, Riade insiste na criação de um Estado palestiniano, opção rejeitada pelo atual governo do primeiro-ministro israelita e aliado de Trump na região, Benjamin Netanyahu.

E outros países da região, como o Catar e Doha, têm boas relações com grupos islamitas que querem destruir IsraelA invasão de Israel pelo Hamas, a 7 de outubro de 2023, que resultou em centenas de mortos e de reféns, com a correspondente resposta israelita que arrasou Gaza, complicou ainda mais uma eventual aproximação.

Para já, os aliados árabes dos Estados Unidos da América no Médio Oriente têm insistido na opção diplomática para prolongar o atual cessar-fogo entre Washington e Teerão e conseguir uma resolução do conflito. 

Com algumas oscilações e ameaças, Trump tem correspondido positivamente ao apelo.

A inclusão desta exigência sobre os Acordos poderá contudo revelar-se um fator adicional de irritação e de agravamento de tensão até agora inexistente.
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