A três dias da COP26, estão os compromissos dos países alinhados com o Acordo de Paris?

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Russell Cheyne - Reuters

Faltam apenas três dias para a COP26 e mais de um terço dos países do mundo, entre eles os maiores emissores de gases com efeito de estufa, ainda não apresentaram os novos compromissos de reduções. Em relação às novas metas climáticas já apresentadas, a ONU já emitiu um veredicto: "são um caminho para o desastre". Os compromissos atuais de redução das emissões de gases com efeito de estufa apresentados por cerca de 200 Estados ficam aquém do Acordo de Paris e podem mesmo conduzir a um aumento da temperatura média global em 2,7 graus centígrados até ao final do século.

Em 2015, cerca de 200 países assinaram o Acordo de Paris que ambiciona limitar o aumento da temperatura média global do planeta entre 1,5 e 2 graus Celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Na cimeira do clima de Paris ficou ainda estabelecido que cada país tinha o compromisso de apresentar as suas contribuições atualizadas de redução a cada cinco anos, numa nova COP (Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas). A nova COP estava agendada para 2020, mas devido à pandemia de Covid-19 foi adiada para 2021.

No próximo domingo, dia 31, realiza-se a 26ª cimeira da ONU sobre alterações climáticas (COP26), em Glasgow - a primeira após o Acordo de Paris em que os países têm de atualizar as contribuições para diminuição das emissões de gases com efeito de estufa.


Um dos grandes objetivos da COP26 é o de assegurar que os países do mundo apresentam metas ambiciosas de redução de gases com efeito de estufa até 2030
, para que a meio do século o planeta não produza, devido à atividade humana, mais gases do que aqueles que consegue eliminar, alcançando a neutralidade carbónica. Estarão os compromissos dos países alinhados com este objetivo? António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), já respondeu a esta questão e é claro: os compromissos dos países "são um caminho para o desastre".

A última avaliação da ONU dá razão à afirmação de António Guterres, ao concluir que os compromissos de redução das emissões de gases com efeito de estufa apresentados por cerca de 200 Estados conduzem a um aumento da temperatura média global de 2,7 graus centígrados, bem longe do objetivo do Acordo de Paris.

De acordo com estimativas independentes e científicas, referentes a este mês, das organizações que elaboram o índice Climate Action Tracker (CAT), só um pequeno país africano está no caminho de cumprir as metas definidas no Acordo de Paris: a Gâmbia.

Na escala de cores do CAT, em que a verde aparece apenas a Gâmbia e a vermelho estão os países com medidas altamente insuficientes, a União Europeia está no laranja, o que significa que as medidas são insuficientes e permitem um aumento de temperatura que ultrapassa os 2ºC. Também no laranja estão países como o Chile, o Japão, o Peru, a África do Sul ou os Estados Unidos.

A vermelho, com medidas altamente insuficientes, estão 15 países, entre eles grandes economias e grandes emissores de gases com efeito de estufa, como a Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Índia, Indonésia, México ou Ucrânia, cujos compromissos de redução de emissões resultam num aumento do aquecimento global que ultrapassa os 3ºC.

Em situação crítica, na lista negra do CAT, estão seis países, praticamente sem medidas para conter as emissões de gases com efeito de estufa: a Federação Russa, a Arábia Saudita, o Irão, Singapura, Tailândia e Turquia. Segundo as estimativas do CAT, com as políticas destes seis países, a temperatura global aumentaria 4ºC.

Mas afinal, quais são os compromissos climáticos dos principais países emissores?
China sem novas metas
Entre os países no centro das atenções da COP26 está a China, enquanto maior emissora mundial de gases de efeitos de estufa. Esta quinta-feira, Pequim formalizou junto da ONU as novas metas climáticas do país e deu um verdadeiro golpe na cimeira, ao não apresentar medidas mais ambiciosas, como foi pedido pela ONU. Pequim limitou-se a reiterar as promessas já anunciadas o ano passado pelo presidente chinês, Xi Jinping, que consistem em atingir o volume máximo de emissões antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono em 2060, apesar de não ser especificado como pretende alcançar esta meta.

Nas chamadas “contribuições nacionalmente determinadas” (NDC, na sigla inglesa), a China reiterou as metas para 2030, incluindo a redução da intensidade carbónica da economia chinesa (rácio entre a emissão de gases com efeito de estufa e o Produto Interno Bruto – PIB) em mais de 65% em relação a 2005 e o aumento da participação de combustíveis não fósseis na matriz energética para cerca de 25%.

As novas metas climáticas da China, responsável por mais de um quarto das emissões globais de gases com efeito de estufa, eram muito aguardadas antes do arranque do encontro. Apesar de ser um dos países protagonistas da COP26, Xi Jinping já anunciou que não marcará presença na cimeira.
EUA de volta ao acordo
Os EUA são o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa e estiveram durante quatro anos de costas voltadas para o clima, quando o ex-presidente Donald Trump abandonou o Acordo de Paris. O país regressou ao acordo no início deste ano, no próprio dia em que o novo presidente, Joe Biden, foi empossado.

Em abril, durante uma cimeira sobre o clima, Joe Biden prometeu cortar as emissões de gases de efeito de estufa do país em 53% até 2030 (relativamente aos níveis de 2005) e passar a liderar a luta global contra o aquecimento global.
Biden também estipulou como objetivo descarbonizar a economia dos EUA inteiramente até 2050.
Índia sem objetivos concretos
A Índia é o terceiro maior emissor de gases, mas não se pronunciou sobre a redução de emissões e está entre os países que, a três dias da COP26, ainda não apresentaram os novos compromissos para o clima.


O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, confirmou que vai comparecer à cimeira sobre o clima – o que, por si só, é um sinal positivo – e fontes governamentais anunciaram que o país fará uma nova proposta climática, mas sem adiantarem mais detalhes.

Em 2015, Índia comprometeu-se a cortar a intensidade carbónica em 33% a 35% até 2030 em relação aos níveis de 2005, alcançando uma redução de 24% até 2016.
O país também se está a aproximar da meta de atingir cerca de 40% da produção de eletricidade com base em energia renovável – uma meta colocada até 2030.

Apesar disso, um relatório apoiado pela ONU publicado na terça-feira defende que o país tem "espaço significativo" para objetivos mais ambiciosos.
Rússia quer alcançar neutralidade carbónica até 2060
O presidente russo, Vladimir Putin, participa na cimeira de forma virtual. O país é o quarto maior emissor de gases com efeito de estufa e pretende reduzir as emissões em 79% até 2050 face a 1990.

Moscovo procura ainda alcançar a neutralidade carbónica até 2060.
União Europeia quer reduzir emissões de metano
A UE assumiu o compromisso em 2015 de reduzir as suas emissões de CO2 em pelo menos 40% até 2030 em relação a 1990. A meta foi elevada em dezembro para "pelo menos 55%" até 2030.

Os 27 Estados-membros da União Europeia vão no domingo a Glasgow apresentar cinco novas medidas para combater as alterações climáticas. Entre elas está a redução em 30% e até 2030 das emissões de metano, um dos gases que mais contribui para o aquecimento global; a atribuição de mais mil milhões de euros para a preservação das florestas e o envio de cinco mil milhões até 2027 para os países mais desfavorecidos combaterem as alterações climáticas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, reconheceu que o ponto de partida para a cimeira de Glasgow não é o melhor e sublinha que é preciso agir de imediato para evitar que o planeta chegue a um ponto sem retorno e numa questão que é de sobrevivência da humanidade.

c/agências
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