Alarme na Alemanha impõe quatro semanas de confinamento parcial. "Temos de agir e já", explica Merkel

por Graça Andrade Ramos - RTP
A angústia da chanceler Angela Merkel, ao anunciar novas medidas para tentar deter o ritmo exponencial de contágios do novo coronavírus na Alemanha, dia 28 de outubro de 2020 Reuters

O cenário não podia ser mais grave. A Alemanha enfrenta um ritmo de crescimento exponencial de infeções pelo novo coronavírus, que irá levar os hospitais ao limite em poucas semanas, se nada for feito. "Precisamos de agir agora", afirmou a chanceler alemã, Angela Merkel, para explicar as medidas mais graves dos últimos meses que vão agora ser impostas a todos os alemães.

A partir de dia 2 de novembro, segunda-feira, os encontros sociais privados ficarão limitados a dez pessoas de, no máximo, duas casas. Restaurantes, bares, teatros, cinemas, piscinas e ginásios vão ser encerrados e todos os concertos cancelados.

Escolas, infantários, centros de dia e comércio, como lojas e cabeleireiros, irão manter-se em funcionamento "enquanto for possível" e com respeito das novas regras de higiene e de distanciamento social. A maioria das empresas continuará a laborar com escritórios e locais de trabalho abertos.

Eventos desportivos poderão ter lugar, desde que sem espectadores. E as autoridades alemãs solicitaram aos seus cidadãos que não viajem por razões "não essenciais", como visitar familiares. Aliás, as pernoitas em hotéis só estarão disponíveis em caso de viagens de negócio ou de trabalho.As medidas foram acordadas durante uma vídeoconferência esta tarde, entre Merkel e os líderes dos 16 Estados alemães, alarmados com o alastramento da segunda vaga de contágios pelo SARS-CoV-2 e uma autêntica "emergência sanitária nacional".

"Se a celeridade das infeções se mantiver, dentro de semanas o sistema terá atingido os limites da sua capacidade. Temos de agir e já", afirmou Merkel.

O mês passado, a urgência do Governo central foi repudiada como exagero por alguns dos responsáveis estaduais e a chanceler foi mesmo acusada de alarmismo quando anunciou que o número de casos podia ultrapassar os 19 mil diários no Natal.

Ao ritmo atual, essa meta deverá chegar muito mais cedo. Merkel disse aos seus pares que "cada dia conta", referindo que, quanto mais for feito agora "mais tempo conseguimos para as férias de Natal".

Nas últimas 24 horas, o país registou praticamente 15 mil novos casos de infeção, mais do dobro de há sete dias, para um novo total de 464.239 desde o início da pandemia, revelou o Instituto Robert Koch esta quarta-feira. Houve ainda mais 85 óbitos com Covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus.
Descontrolo
A primeira vaga da pandemia de Covid-19 foi relativamente calma na Alemanha e o país registou então pouco mais de dez mil mortos. Agora, o descontrolo é total e o país bate recordes todos os dias.

O número de novos casos está a duplicar a cada semana, ao mesmo tempo que o número de camas UCI ocupadas multiplicou por dois em dez dias.

"Só precisa de dobrar mais quatro vezes e o sistema deixa de ter resposta", afirmou Angela Merkel.

A chanceler garantiu que o sistema de saúde do país ainda está a conseguir reagir, mas acrescentou que as autoridades sanitárias estão incapazes de traçar a origem de cerca de 75 por cento das infeções, o que dificulta a perceção quanto às medidas mais eficazes a adotar.O confinamento de quatro semanas é uma tentativa de quebrar as cadeias de infeção e achatar a curva de contágios, para permitir voltar a controlar a propagação do coronavírus.

"Esperamos que, ao fazer isto durante quatro semanas, consigamos deter esta progressão dramática, que tenhamos oportunidade de recuperar um pouco a segurança", afirmou o líder camarário da cidade de Berlim, Michael Mueller.

A cidade está a ser afetada por um dos piores surtos de todo o país, que levou ao colapso do sistema de seguimento dos contágios. De tal forma que está a ser solicitado às pessoas com teste positivo que contactem elas mesmas as pessoas com quem se cruzaram.

Mueller disse que as medidas agora anunciadas marcam "um dia duro e amargo" para a Alemanha.

Para meados de novembro está prevista uma nova reunião entre Angela Merkel e os responsáveis estaduais, para tomar o pulso ao confinamento parcial e avaliar a eficácia das medidas decididas esta quarta-feira.
Custos de milhares demilhões de euros
A economia alemã é a maior da Europa e o impacto de uma eventual paralisação fabril será sentido em todo o continente e não só. Muitas pequenas empresas e famílias alemãs estão ainda a sofrer os efeitos do primeiro confinamento e este novo encerramento, mesmo parcial, poderá ser devastador.

Para o tornar mais aceitável, Angela Merkel anunciou várias medidas de apoio, ao abrigo de um pacote de 10 mil milhões de euros, como o pagamento às empresas com até 50 funcionários de 75 por cento dos seus lucros anuais referentes a novembro. Empresas maiores receberão 70 por cento.

Artistas ou ajudantes de palco e outros profissionais livres irão ser contemplados com empréstimos de emergência e o Governo promete expandir um programa de liquidez já em vigor, para dar a muito pequenas empresas de até dez empregados acesso a empréstimos muito baratos.O mês de confinamento parcial deverá custar aos cofres alemães entre sete e 10 mil milhões de euros.

Apesar de um apoio generalizado à necessidade de resposta à pandemia, milhares de pessoas ligadas aos setores das artes e da restauração saíram a rua em Berlim esta quarta-feira, contra o que consideram a negligência com que estão a ser tratadas, com um sentido crescente de má gestão política do problema.

A ministra da Cultura, Monika Grüttgers, já disse que os milhares de milhões de euros que têm estado a ser investidos na manutenção do setor artístico terão de ser consideravelmente aumentados.

O ministro da Administração Interna, Horst Seehofer, mostrou-se por seu lado favorável a inspeções surpresa da polícia a casas particulares, de forma a garantir que as pessoas cumprem os limites impostos às reuniões.

Nas ruas fala-se em "confinamento light". O Governo alemão prefere usar a expressão "quebra onda" ao referir-se às novas medidas anunciadas.
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