Assembleia Constituinte promete defender Venezuela de "agressões imperialistas"

A cerimónia de tomada de posse da Assembleia Constituinte decorreu esta sexta-feira em Caracas e consumou a chegada ao poder dos 545 novos deputados eleitos no polémico escrutínio de 30 de julho. Delcy Rodríguez, antiga ministra venezuelana dos Negócios Estrangeiros, foi a escolha unânime para liderar o novo órgão legislativo. No discurso de juramento, evocou a Constituinte de Hugo Chávez, em 1999, e avisou que o país vai resolver os problemas internos entre venezuelanos, sem “mandatos imperiais”.

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A nova Assembleia Constituinte começa a trabalhar já no sábado a partir do Palácio Legislativo Ueslei Marcelino - Reuters

Os retratos de Simón Bolivar e de Hugo Chávez regressaram esta sexta-feira ao Salão Elíptico do Palácio Legislativo, levados em mãos entre apoiantes chavistas e populares, que se juntaram à porta do Parlamento.

As duas imagens tinham sido retiradas do Parlamento em janeiro de 2016, quando a oposição venceu a maioria nas últimas eleições legislativas, em finais de 2015.

A cerimónia de tomada de posse da nova Assembleia Constituinte, que decorreu esta sexta-feira em Caracas, contou com fortes medidas de segurança antes e depois da inauguração. Desde quarta-feira que a Guarda Nacional Boliaviana protege o perímetro do Parlamento. 

Cá fora, as manifestações da oposição que decorreram em vários pontos da cidade - ainda assim, em menor núnero que o inicialmente esperado - foram contidas com gás lacrimogéneo, segundo avançou a agência EFE. 

Entre as medidas de segurança que permitiram uma cerimónia sem incidentes, o jornal venezuelano El Nacional conta que vários meios de comunicação foram impedidos de cobrir a cerimónia, tendo sido dado acesso apenas aos media estatais.


Ana Romeu, Pedro Pessoa - RTP

Sem jornalistas em número significativo mas com a presença dos novos 545 deputados a quem caberá elaborar um novo documento constitucional e substituir a “minoria violenta” que, segundo Delcy Rodríguez, tentou destabilizar o regime ao longo dos últimos meses.

A antiga chefe da diplomacia venezuelana foi eleita por unanimidade como Presidente da Assembleia Constituinte, na votação da proposta apresentada por Fernando Soto Rojas, deputado histórico do Partido Socialista venezuelano. Aristóbulo Istúriz Almeida assumiu o lugar de primeiro vice-presidente da Constituinte. Isaías Rodríguez ocupa o cargo de segundo vice-presidente.

No discurso empenhado após a sessão de juramento enquanto presidente, Delcy Rodríguez deixou uma mensagem clara à comunidade internacional, que nos últimos dias tem criticado o regime de Nicolás Maduro.

Vários países e entidades, incluindo a União Europeia, os Estados Unidos e, mais recentemente, o Vaticano, pediram contenção ao Governo venezuelano e anunciaram que não reconheciam a eleição para a Assembleia Constituinte, convocada pelo Presidente.

A antiga ministra rejeitou as críticas apontadas ao regime de Maduro e prometeu que a Venezuela vai resolver os problemas internos “sem qualquer tipo de ingerência estrangeira”. "Um povo dono do seu destino e sem ordens externas", disse.

“Que a comunidade internacional não se engane com a Venezuela. Vamos resolver as nossas questões entre venezuelanos e venezuelanas, sem intervenções estrangeiras e sem mandatos imperiais”, declarou."Chantagem pela fome"
Rodríguez respondeu diretamente às sanções económicas que foram aplicadas esta semana pelos Estados Unidos, ou ao bloqueio iminente do país na Mercosur e garantiu: “Teremos o poder para combater a guerra económica. (...) A chantagem pela fome não vai funcionar. Na Venezuela não há fome, há vontade”.

Ao contrário da visão da maioria dos países estrangeiros e da oposição, a nova Assembleia Constituinte é sinónimo de "paz". "Com a Constituinte chegou imediatamente a paz. O povo venezuelano demonstrou que nada o detém quando está decidido a defender a paz e a soberania nacional", sublinhou a nova dirigente.

Aplaudida de pé em vários momentos durante o discurso após juramento, Rodríguez evocou insistentemente a Constituinte de 1999, protagonizada por Hugo Chávez, bem como o modelo instaurado pelo antigo dirigente da Venezuela. "Um modelo exclusivo no mundo", que sofreu, segundo a Presidente da Assembleia Constituinte, uma "conspiração sem paralelo".

Para a dirigente, a nova Assembleia Constituinte "nasceu de um profundo conflito histórico gerado por um grupo minoritário, que pretende ser de pátria e a restauração do modelo neoliberal a custo de qualquer preço". "Não viemos destruir a nossa Constituição, viemos defendê-la, viemos melhorá-la e fortalece-la", garantiu.

Sobre a oposição que tem estado nas ruas e no Palácio Legislativo, Rodríguez considera-os "direita contra-revolucionária fascista" que apostou na "violência criminal com fins políticos". "Sofrimento, tortura, essa foi a nossa juventude. Mas isso acabou graças a Chávez", disse ainda a antiga ministra.

A nova Assembleia Constituinte começa a trabalhar já no sábado a partir do Palácio Legislativo. O Parlamento (Assembleia Nacional), que se recusa a conhecer o resultado da Constituinte, marcou para segunda-feira uma sessão extraordinária.
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