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Áustria chega à segunda volta das Presidenciais em reboliço interno
No dia em que os italianos votam um conjunto de reformas constitucionais num polémico referendo, também na Áustria toma uma decisão de peso. Norbert Hofer, candidato da extrema-direita derrotado a 22 de maio, exigiu a repetição da segunda volta destas eleições presidenciais, por suspeitas de irregularidades na contagem dos votos. Ao fim de sete meses de várias peripécias internas que congelaram a política austríaca, o escrutínio deste domingo pode nem ser conclusivo, sete meses depois de iniciado o processo de escolha do novo Chefe de Estado.
Com os olhos postos em Roma, mas sem deixar de espreitar Viena. É assim que a Europa vive este domingo o importante referendo em Itália, um dia que pode também consagrar a subida ao poder do inesperado Norbert Hofer, candidato ligado ao Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de extrema-direita.
Alexander Van der Bellen, candidato independente ligado aos Verdes, também chegou de forma surpreendente à segunda volta das eleições presidenciais. Nenhum dos candidatos habituais dos partidos do centro mereceu no entanto a confiança do voto popular e os dois candidatos improváveis mais votados, der Bellen e Hofer, não conseguiram maioria absoluta a 24 de abril, o que ditou a realização de um novo voto.
A confusão começou precisamente na segunda volta das eleições, a 22 de maio, quando Norbert Hofer foi dado como vencedor após a primeira contagem de votos, sendo-lhe atribuídos 51,9 por cento dos votos.
Mas no dia seguinte, um diferente vencedor surgia nos noticiários austríacos. Afinal, der Bellen era o grande vencedor, incluídos na contagem os votos via postal, com uma vantagem de apenas 30 mil votos sobre o seu adversário.
A Europa podia respirar de alívio. O candidato com ideais anti-Europa e anti-Islão não conseguia chegar ao poder. No entanto, pouco depois da atualização de resultados ter sido divulgada pelo Governo, o FPÖ denunciava “graves irregularidades” na contagem dos votos e recorreu mesmo ao Supremo Tribunal austríaco. Afinal, o próprio ministro austríaco do Interior, Wolfgang Sobotka, admitira “desleixo” na contagem de votos.
Na Justiça, o veredicto foi favorável a um novo escrutínio. O Supremo Tribunal afastou a hipótese de fraude eleitoral, mas reconheceu a existência de irregularidades formais, como a contagem de votos por funcionários desacreditados para o fazer. "Bananen-Republik"
Há vários meses sem Presidente eleito, a Áustria avançava então para a repetição da segunda volta, marcada para 2 de outubro. Mas continuava a desorganização do próprio executivo austríaco. O mesmo ministro do Interior admitia em setembro alguns problemas técnicos com os votos via postal, um método muito usado no país: resumidamente, os envelopes autocolantes onde os votos deviam ser enviados não colavam.
Para complicar ainda mais a situação, uma gráfica de Viena responsável pela impressão de boletins de voto foi assaltada nesse mesmo mês. Num clima de completa confusão, o Parlamento austríaco optou por adiar as eleições para este domingo.
Todos estes incidentes trouxeram ao espaço público austríaco o uso recorrente da expressão “Bananen-Republik", ou seja, República das Bananas. Dá-se o facto de o país não ter Chefe de Estado há já mais de sete meses e a imprevisibilidade dos resultados deixar os austríacos à beira de um ataque de nervos.
"Se nem umas eleições conseguimos organizar, talvez seja melhor tornarmo-nos um protetorado da ONU”, escrevia em setembro o jornalista Rainer Nowak, diretor do diário vienense Die Presse".
Influência externa?
O resultado final poderá ser conhecido na noite do próximo domingo, mas o empate técnico entre os dois candidatos, registado nas últimas sondagens, deixa prever mais uma agonizante contagem até ao último voto. Na pior das hipóteses, o vencedor será conhecido até à próxima terça-feira.
Neste ponto, os austríacos parecem apenas pedir um resultado efetivo que termine a novela das eleições presidenciais, que já se arrasta há sete meses.
A Agência Reuters sublinhava no sábado que esta passagem de tempo poderia ter influência no processo de escolha dos austríacos. É que desde o voto de maio, aconteceram os dois eventos políticos do ano: o referendo britânico em favor do Brexit e a eleição de Donald Trump pelos norte-americanos.
Van der Bellen, candidato independente pelos Verdes, tem focado a campanha precisamente nesses dois pontos e pede aos eleitores que “não brinquem com o fogo”. O adversário, Norbert Hofer, vem da extrema-direita e é frequentemente associado a uma retórica populista e anti-establishment, e chegou mesmo a prometer um referendo sobre a permanência na União Europeia, um poder que não lhe é no entanto conferido, enquanto Presidente da República.
Isto porque na Áustria, o chefe de Estado está geralmente limitado a funções mais simbólicas ou cerimoniais, dispondo, ainda assim, de vários poderes que lhe permitem alterar as mais importantes instituições de poder, nomeadamente impedir ou ajudar à formação de coligações de Governo.
Um dos objetivos de Norbert Hofer é, precisamente, acabar com o predomínio dos dois partidos do centro que têm governado o país nas últimas décadas. Uma hegemonia que foi desde logo posta em causa em abril, quando nenhum dos dois candidatos presidenciais apoiados pelo centro conseguiu passar a esta confusa segunda volta.
Alexander Van der Bellen, candidato independente ligado aos Verdes, também chegou de forma surpreendente à segunda volta das eleições presidenciais. Nenhum dos candidatos habituais dos partidos do centro mereceu no entanto a confiança do voto popular e os dois candidatos improváveis mais votados, der Bellen e Hofer, não conseguiram maioria absoluta a 24 de abril, o que ditou a realização de um novo voto.
A confusão começou precisamente na segunda volta das eleições, a 22 de maio, quando Norbert Hofer foi dado como vencedor após a primeira contagem de votos, sendo-lhe atribuídos 51,9 por cento dos votos.
Mas no dia seguinte, um diferente vencedor surgia nos noticiários austríacos. Afinal, der Bellen era o grande vencedor, incluídos na contagem os votos via postal, com uma vantagem de apenas 30 mil votos sobre o seu adversário.
A Europa podia respirar de alívio. O candidato com ideais anti-Europa e anti-Islão não conseguia chegar ao poder. No entanto, pouco depois da atualização de resultados ter sido divulgada pelo Governo, o FPÖ denunciava “graves irregularidades” na contagem dos votos e recorreu mesmo ao Supremo Tribunal austríaco. Afinal, o próprio ministro austríaco do Interior, Wolfgang Sobotka, admitira “desleixo” na contagem de votos.
Na Justiça, o veredicto foi favorável a um novo escrutínio. O Supremo Tribunal afastou a hipótese de fraude eleitoral, mas reconheceu a existência de irregularidades formais, como a contagem de votos por funcionários desacreditados para o fazer. "Bananen-Republik"
Há vários meses sem Presidente eleito, a Áustria avançava então para a repetição da segunda volta, marcada para 2 de outubro. Mas continuava a desorganização do próprio executivo austríaco. O mesmo ministro do Interior admitia em setembro alguns problemas técnicos com os votos via postal, um método muito usado no país: resumidamente, os envelopes autocolantes onde os votos deviam ser enviados não colavam.
Para complicar ainda mais a situação, uma gráfica de Viena responsável pela impressão de boletins de voto foi assaltada nesse mesmo mês. Num clima de completa confusão, o Parlamento austríaco optou por adiar as eleições para este domingo.
Todos estes incidentes trouxeram ao espaço público austríaco o uso recorrente da expressão “Bananen-Republik", ou seja, República das Bananas. Dá-se o facto de o país não ter Chefe de Estado há já mais de sete meses e a imprevisibilidade dos resultados deixar os austríacos à beira de um ataque de nervos.
"Se nem umas eleições conseguimos organizar, talvez seja melhor tornarmo-nos um protetorado da ONU”, escrevia em setembro o jornalista Rainer Nowak, diretor do diário vienense Die Presse".
Influência externa?
O resultado final poderá ser conhecido na noite do próximo domingo, mas o empate técnico entre os dois candidatos, registado nas últimas sondagens, deixa prever mais uma agonizante contagem até ao último voto. Na pior das hipóteses, o vencedor será conhecido até à próxima terça-feira.
Neste ponto, os austríacos parecem apenas pedir um resultado efetivo que termine a novela das eleições presidenciais, que já se arrasta há sete meses.
A Agência Reuters sublinhava no sábado que esta passagem de tempo poderia ter influência no processo de escolha dos austríacos. É que desde o voto de maio, aconteceram os dois eventos políticos do ano: o referendo britânico em favor do Brexit e a eleição de Donald Trump pelos norte-americanos.
Van der Bellen, candidato independente pelos Verdes, tem focado a campanha precisamente nesses dois pontos e pede aos eleitores que “não brinquem com o fogo”. O adversário, Norbert Hofer, vem da extrema-direita e é frequentemente associado a uma retórica populista e anti-establishment, e chegou mesmo a prometer um referendo sobre a permanência na União Europeia, um poder que não lhe é no entanto conferido, enquanto Presidente da República.
Isto porque na Áustria, o chefe de Estado está geralmente limitado a funções mais simbólicas ou cerimoniais, dispondo, ainda assim, de vários poderes que lhe permitem alterar as mais importantes instituições de poder, nomeadamente impedir ou ajudar à formação de coligações de Governo.
Um dos objetivos de Norbert Hofer é, precisamente, acabar com o predomínio dos dois partidos do centro que têm governado o país nas últimas décadas. Uma hegemonia que foi desde logo posta em causa em abril, quando nenhum dos dois candidatos presidenciais apoiados pelo centro conseguiu passar a esta confusa segunda volta.