"Bem-vindos a casa". Primeiros refugiados afegãos chegam aos EUA

por Graça Andrade Ramos - RTP
Afegãos manifestam-se em Cabul a exigir mais celeridade na atribuição dos SIV - vistos de emigração especiais de entrada nos EUA - por temerem pela própria vida Reuters

Os primeiros 200 afegãos em risco de vida por terem colaborado com as tropas norte-americanas chegaram de avião na madrugada desta sexta-feira aos Estados Unidos, diretamente de Cabul, incluídos na ponte aérea organizada para retirar para já 2.500 pessoas e intitulada Operação Refúgio dos Aliados, anunciou a Administração Biden.

“Hoje é um marco importante, continuamos a cumprir a nossa promessa a milhares de afegãos que serviram com soldados e diplomatas americanos nestes últimos 20 anos”, referiu o Presidente norte-americano, ao anunciar a chegada através de um comunicado.

“Acima de tudo”, acrescentou Joe Biden, “quero agradecer a estes corajosos afegãos por ficarem ao lado dos Estados Unidos e hoje, tenho orgulho em dizer-lhes, ‘bem-vindos a casa”. Até agora, apenas 700 afegãos passaram todos os testes de segurança que lhes permitirão viver nos Estados Unidos ao abrigo de um SIV – um visto de imigração especial. Com as suas famílias, somam cerca de 2.500 pessoas com acolhimento garantido aguardadas para as próximas semanas.

Um total de 50.000 pessoas ou mais poderão vir a ser retiradas do Afeganistão através da Operação Refúgio dos Aliados.

Ao anunciar os planos de acolhimento para esta primeira leva, a Administração Biden reconheceu que há milhares de outros à espera, para quem o tempo se está a esgotar.

“Estas chegadas são simplesmente as primeiras de muitas outras”, sublinhou o Presidente Joe Biden.

Estamos a trabalhar rapidamente para relocalizar fora de perigo os afegãos elegíveis para os SIV – nos Estados Unidos, em bases norte-americanas no estrangeiros ou em países terceiros – para poderem esperar em segurança a conclusão dos seus pedidos de visto”, acrescentou Biden.
Milhares desesperam em Cabul
Cerca de 20.000 afegãos que foram sendo contratados como intérpretes ou para outras funções pelos Estados Unidos, desde 2001, pediram para ser acolhidos nos EUA. Receiam sofrer represálias, incluindo a morte, se os islamitas taliban regressarem ao poder, já que estes os consideram traidores.

Em conjunto com as respetivas famílias, o número total de pessoas a pretender migrar para os EUA rondará as 100.000, de acordo com algumas estimativas. O processo de dezenas de milhares de pedidos de vistos especiais está a ser um pesadelo para a Administração dos EUA, uma vez que cada pedido tem de ser comparado com informações sobre a pessoa em causa e avaliado ao pormenor por questões de segurança.

O número de vistos é limitado e quaisquer aumentos do contingente têm de ser autorizados pelo Congresso. Quinta-feira, este deu luz verde a um financiamento de 1.1 mil milhões de dólares para o acolhimento dos auxiliares afegãos.

Apesar do reforço de pessoal, calcula-se que pelo menos 10 mil dos pedidos mais recentes falhem a ponte aérea para a segurança.

Há também notícia de dezenas de candidatos impedidos de alcançar Cabul, apesar de serem elegíveis para os SIV, pelo avanço taliban dos últimos três meses.

À medida que se aproxima a data de retirada completa das tropas, marcada para 31 de agosto, o desespero apodera-se dos afegãos que receiam ficar para trás. Têm promovido protestos nas ruas de Cabul, a exigir proteção.

Devido ao enorme número de candidatos à partida para os Estados Unidos, em plena ofensiva taliban e entre os perigos associados à pandemia de Covid-19 no Afeganistão, os responsáveis norte-americanos preveniram que a retirada irá ser demorada.

“Pretendemos prosseguir o programa após a retirada das tropas” internacionais, indicou Tracey Jacobson, responsável pelo dossier no Departamento de Estado norte-americano. “Estamos a trabalhar o mais depressa possível”.

Além dos afegãos que trabalharam para os Estados Unidos, os diplomatas estão também a estudar “um leque de opções” para ajudar a saída de militantes de direitos humanos e jornalistas que arriscam represálias por parte dos taliban, referiu Jacobson.
Atraso "inconcebível"
Ecoando a promessa de Biden, o encarregado de negócios dos EUA junto da Embaixada em Cabul, Ross Wilson, afirmou aos repórteres esta manhã que, após a primeira ronda de voos da ponte aérea, cerca de 4.000 candidatos e as suas famílias nas últimas fases de processamento serão levadas para algures fora do Afeganistão mas ainda não nos Estados Unidos, enquanto esperam.

Isso irá deixar cerca de 15.000 afegãos ainda não processados à espera no Afeganistão.

“Consideramos apropriado focar as nossas energias no lote de candidatos a SIV que demonstraram que cumprem os critérios legais e então relocalizá-los”, afirmou Wilson, garantindo que estão a ser feitos esforços em Washington para ajudar os candidatos mais recentes a preparar a documentação necessária.

Adam Bates, conselheiro de políticas para o projeto Assistência Internacional aos Refugiados, que tem estado a oferecer apoio legal aos candidatos, criticou os Estados Unidos por terem tido 20 anos para antecipar o que seria a retirada.

“É inconcebível estarem tão atrasados” em todo este processo, referiu à Agência Reuters.

Kim Staffieri, cofundador da Associação Aliados em Tempos de Guerra, que auxilia quem pediu um SIV, referiu que uma pesquisa através da rede Facebook, mostrou que metade dos candidatos não consegue chegar a Cabul, incluindo muitos cuja retirada foi aprovada.

As autoridades norte-americanas afirmam que a “esmagadora maioria” a quem foi oferecida a ponte aérea conseguiram chegar a Cabul.
"Ajudar os que nos ajudaram"
Os primeiros 200 afegãos acolhidos esta sexta-feira vão ser submetidos a testes clínicos, em Fort Lee, a sul de Washington, antes de serem autorizados a juntar-se a familiares, se os tiverem no país, a instalar-se em alojamentos providenciados pelo Departamento de Estado e pela agência da ONU para os refugiados dos Estados Unidos, a OIM, ou em famílias de acolhimento.

A maioria foi submetida a “testes de verificação de antecedentes” e a testes Covid-19. Alguns já foram vacinados e outros poderão sê-lo em Fort Lee.

Cerca de 300 militares norte-americanos de diversas bases irão providenciar apoio logístico, alojamento temporário e apoio médico a Fort Lee, anunciou o secretário da Defesa, Lloyd Austin.

Cerca de 75.000 afegãos foram acolhidos nos Estados Unidos na última década, referiu ainda Lloyd em comunicado, no qual acrescentou ser uma “obrigação moral” para o país “ajudar aqueles que nos ajudaram”.

Num sinal do agravamento da situação militar e política no Afeganistão, os taliban conseguiram entrar na capital da província de Helmand, Lashkargah, dando início a combates rua a rua com o exército afegão.

Milhares de pessoas estão em fuga da região.

Em Herat, no oeste afegão, a sede dos serviços da Missão das Nações Unidas de Auxílio ao Afeganistão foi atingida por artilharia “de elementos antigovernamentais”, fazendo um morto e vários feridos. A área em torno da Missão está a ser palco de confrontos entre as forças taliban e do Governo de Cabul, acrescentou.
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