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Cabul e Islamabad suspendem operações militares com fim do Ramadão

Cabul e Islamabad suspendem operações militares com fim do Ramadão

As tréguas foram anunciadas dois dias depois de um ataque aéreo, atribuído ao Paquistão, que vitimou centenas de pessoas num centro de tratamento de toxicodependentes em Cabul.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Meia centena de vítimas de um bombardeamento a um centro médico em Cabul foram a enterrar a 18 de março 2026 Foto: Reuters

Paquistão e Afeganistão estão em conflito há meses. O Paquistão acusa o Afeganistão de abrigar combatentes talibãs paquistaneses (TTP), que reivindicaram a responsabilidade por ataques mortais em solo paquistanês. 

O governo talibã de Cabul, nega a suspeita.

Esta quarta-feira os dois países anunciaram tréguas durante o feriado de Eid al-Fitr, "a pedido de países islâmicos amigos, Arábia Saudita, Qatar e Turquia", disseram ambos. O ataque de segunda-feira foi o mais mortífero desde o início do conflito entre os dois países. 

A trégua, anunciada primeiro pelo Paquistão e depois pelo Afeganistão, expressa em termos semelhantes, surgiu pouco depois do enterro de algumas das vítimas do bombardeamento, esta quarta-feira.
 
A medida entrará em vigor na quinta-feira (quarta-feira, 19h00 GMT) e durará até à próxima segunda-feira, à meia-noite, hora local (19h00 GMT de domingo), coincidindo com o feriado do Eid al-Fitr, afirmou o ministro paquistanês da Informação, Attaullah Tarar.

A fragilidade do fim das operações militares ficou, apesar disso, patente.

Islamabad avisou que o país está preparado para responder vigorosamente em caso de ataque.

Igualmente, o porta-voz do Governo afegão, Zabihullah Mujahid, declarou que o Afeganistão "responderá corajosamente a qualquer agressão".
Primeiros funerais

O ataque aéreo de segunda-feira fez 408 mortos e 265 feridos, segundo as autoridades talibãs.

Pouco mais de meia centena de vítimas foram a enterrar esta quarta-feira em Cabul, segundo um porta-voz do Ministério da Saúde. Numa encosta encharcada pela chuva na capital afegã, os voluntários do Crescente Vermelho depositaram caixões de madeira simples numa vala comum recém-escavada ao final da tarde de quarta-feira, observou um jornalista da AFP.

Vários membros dos talibãs compareceram à cerimónia, que foi fortemente protegida.

"Hoje é um dia triste", disse o ministro do Interior afegão, apresentando as suas condolências às famílias. "Os afegãos estão a passar por momentos difíceis e nós vamos vingá-los", acrescentou.

"Não somos fracos; verão as consequências dos vossos crimes", declarou o ministro às forças paquistanesas.

Mas Sirajuddin Haqqani, que durante muito tempo foi o homem mais procurado por Washington no Afeganistão, deixou a porta aberta para a resolução do conflito através da mediação.

"Não queremos a guerra, mas a situação chegou a este ponto. Estamos a tentar resolver o problema através da diplomacia", enfatizou. 

Outras vítimas serão sepultadas nas suas regiões de origem, disse à AFP Abdul Mateen Qani, porta-voz do Ministério do Interior. O processo de identificação ainda está em curso.
ACNUR exige investigação

A violência do bombardeamento e o número de vítimas trouxeram o conflito para a prioridade internacional. O ataque fez com que “alguns corpos explodissem”, explicou Jacopo Caridi, diretor para o Afeganistão da ONG humanitária Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC).

O hospital atende aproximadamente 2.000 pacientes com dependência de drogas vindos de todo o Afeganistão. 

“Algumas partes foram completamente destruídas", referiu Jacopo Caridi em entrevista à agência France Presse, descrevendo cenas “horríveis”, com partes de corpos nos escombros. "Vimos muitos pedaços de corpos espalhados”, disse. 

Islamabad negou ter atacado deliberadamente o centro médico, alegando que o alvo eram objetivos "militares e terroristas". Terça-feira, o ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, apelou a uma investigação "rápida" e "independente" ao ataque.

Já esta quarta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o ataque e reiterou que "as instalações médicas devem ser respeitadas e protegidas pelo direito internacional".

Os apelos para um cessar-fogo imediato entre os dois vizinhos intensificaram-se igualmente, dando nota do crescente número de vítimas civis desde a escalada dos combates de 26 de fevereiro.

O mais recente balanço das Nações Unidas, apontado dia 17 de março mas sem incluir as vítimas do ataque da véspera, aponta a morte de pelo menos 76 civis afegãos nas últimas três semanas.
 
Mais de 115 mil pessoas foram deslocadas dentro do Afeganistão.

c/agências
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