Canadá e China anunciam "uma nova parceria estratégica" após anos de tensões entre os dois países

O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, e o presidente chinês, Xi Jinping, encontraram-se esta sexta-feira em Pequim para debater uma “nova parceria estratégica”, que poderá incluir a redução de tarifas sobre automóveis chineses e produtos agrícolas canadianos, e renovar os laços diplomáticos após cerca de uma década de tensão.

RTP /
Foto: Carlos Osorio - Reuters

Mark Carney demonstrou vontade de regressar à “boa cooperação passada” entre os dois países, numa altura de indefinição de qual será a “nova ordem mundial”, que pode permitir que “países com ideias semelhantes” desenvolvam alianças em áreas como a energia e o comércio digital, em alternativa às organizações internacionais, numa altura de “corrosão” do multilateralismo.

O primeiro-ministro canadiano também espera uma redução das tarifas chinesas sobre a canola – usado na culinária e biodiesel – para 15% e a redução para 6,1% das tarifas sobre os automóveis chineses, que permitirá a entrada de 49 mil veículos elétricos chineses no mercado canadiano.

Defendeu a “nova parceria estratégica” como forma de adaptação às “novas realidades globais” e promotora de “estabilidade, segurança e prosperidade” para ambos os países e para a Ásia-Pacífico.

As “novas realidades globais” referem-se às políticas de tarifas do presidente norte-americano, Donald Trump, que têm afetado tanto a China, como o Canadá, e que tem levado vários países a promoverem aproximações à China. O primeiro-ministro canadiano destacou que a China é um parceiro “mais previsível” do que os Estados Unidos.

A “nova parceria estratégica” assenta em cinco pilares: energia limpa, cooperação comercial e económica, segurança pública, multilateralismo e fortalecimento de laços entre canadianos chineses.

A nova parceria faz parte de uma estratégia do governo canadiano em “duplicar o comércio fora dos Estados Unidos nos próximos dez anos” de acordo com a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Anita Anand. Mais de 75% das exportações canadianas têm como destino os Estados Unidos.

Xi Jinping, presidente chinês, demonstrou estar “encorajado” pelos “viragem” nas relações entre os dois países, sobretudo após o encontro entre os dois líderes em outubro, na conferência da Cooperação Económica Ásia-Pacífico, na Coreia do Sul, e destacou a importância de boas relações para “a paz mundial, estabilidade, desenvolvimento e prosperidade”.

O presidente chinês apresentou quatro propostas para as relações sino-canadianas, que incluem o respeito pela soberania de ambos os países, o desenvolvimento de bases comuns de entendimentos comerciais, a confiança mútua e a coordenação nas instituições internacionais, como a ONU e os G20.

Carney aterrou em Pequim, na quarta-feira, e encontrou-se na quinta-feira com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, onde assinaram oito memorandos de entendimento em áreas como segurança alimentar, combate ao crime e energia.

O encontro acontece em simultâneo com a assinatura de uma acordo de 250 mil milhões e dólares em investimentos na indústria tecnológica norte-americana, que China se opõe, por ter “implicações soberanas” na jurisdição chinesa sobre Taiwan.

“Viragem” nas relações após anos de tensão

Este encontro significa uma alteração da relação entre Otava e Pequim, após quase uma década de tensão.

Em 2018, o Canadá deteve a vice-presidente da multinacional chinesa Huawei, Meng Wanzhou, a pedido das autoridades dos Estados Unidos, por suspeitas de violação das sanções impostas ao Irão, com a China a retaliar com a prisão de dois cidadãos canadianos, acusados de espionagem.

Apesar dos pedidos norte-americanos de extradição, Wanzhou acabou por regressar à China, em 2021, após o pedido ter sido retirado, e os dois cidadãos canadianos foram libertados.

Em 2023, os serviços secretos do Canadá acusaram a China de ingerência nas eleições do país, tendo expulsado um diplomata chinês.

As relações comerciais atingiram um ponto baixo em 2024, com a imposição de tarifas de 100% aos automóveis elétricos chineses, com Pequim a retaliar com tarifas de 100% sobre produtos agrícolas canadianos, como canola e a carne de porco, e sobre o alumínio e o aço, as principais indústrias do país.
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