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Caxemira. Paquistão promete devolver piloto indiano mas tensão não cessa
Os rumores abundam e as confirmações oficiais sobre operações militares em Caxemira rareiam. Esta quinta-feira, Nova Deli acusou o Paquistão de iniciar vários confrontos de artilharia. Há também notícias de caças paquistaneses terem entrado de novo em espaço aéreo indiano.
Num "gesto de paz", Islamabad prometeu devolver esta sexta-feira o piloto capturado depois de dois caças indianos terem sido abatidos ao entrarem no espaço aéreo da região disputada por ambos os países.
A Força Aérea da Índia aplaudiu a libertação do seu piloto, o Comandante
Abhinandan, mas Nova Deli não se comprometeu até agora com qualquer
medida de abrandamento da tensão.
A comunidade internacional assume-se preocupada, pede contenção e o "fim da atividade militar". Até agora, a tensão apenas aumentou.
Islamabad encerrou o espaço aéreo paquistanês, provocando o caos nos
voos comerciais e deixando milhares de passageiros à espera de voo no
aeroporto de Banquecoque, Tailândia.
E o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, já em campanha para eleições legislativas a realizar em maio, disse aos seus apoiantes do partido nacionalista Bharatiya Janata (BJP) esta quinta-feira de manhã, que a Índia irá unir-se contra os seus inimigos.
"O mundo está a observar a nossa vontade coletiva. É necessário que não façamos nada que deixe o nosso inimigo levantar um dedo contra nós", afirmou Modi numa manifestação.
As redes sociais e os jornais da Índia têm fervilhado com especulações e "notícias", algumas baseadas em rumores, sobre o que se passa em Caxemira.
Combates prosseguem
Várias fontes referem a ocorrência de combates de artilharia esta quinta-feira, no distrito de Poonch, Caxemira, desde as seis horas da manhã.
O exército indiano afirma que duraram mais de uma hora, mas um residente na zona controlada pela Índia disse à agência Reuters que continuava a ouvir, à tarde, atividade de armas pesadas. "Ouvem-se explosões à distância, de granadas de morteiro, muito altas. As lojas estão abertas mas sente-se a tensão", referiu Aijaz Ahmad.
Os ataques começaram na noite de quinta-feira e "prolongaram-se toda a noite, esporadicamente", disse por sua vez Shaukat Yusufzai, um responsável administrativo da parte de Poonch gerida pelo Paquistão.
As tropas da Índia e do Paquistão entraram em confronto quinta-feira pelo menos três vezes, ao longo da fronteira disputada de Caxemira. Nova Deli acusa as tropas paquistanesas de iniciarem todos os ataques. Os dois países abateram caças inimigos na quarta-feira, e nas últimas horas acusaram-se mutuamente de romper os acordos de paz.
A Força Aérea indiana pôs a circulam imagens dos
destroços, encontrados em Pok, do F-16 paquistanês abatido quarta-feira e
de um míssil ar-ar AMRAAM que ele terá disparado contra um alvo militar
indiano. Todos os ramos militares indianos estarão "de prontidão" para
enfrentar as forças paquistanesas.
Nova Deli está também a construir mais de 14 mil bunkers para famílias que habitam perto das fronteiras nos estados de Jammu e de Caxemira, para tentar mante-las em segurança, em vez de lançar uma operação de evacuamento.
Tanto o Paquistão como a Índia dispõem de armas nucleares. Se as usarem, mesmo que de forma limitada e numa guerra "limitada", o clima terrestre será aniquilado, provocando fome generalizada, alertam climatologistas.
A Casa Branca apelou "ambas as partes a dar imediatamente passos para desescalar a situação". Num telefonema aos seus homólogos em Islamabad e Nova Deli, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, pediu-lhes com urgência que dessem "prioridade à comunicação direta e evitassem novas atividades militares".
O enviado do Paquistão aos Estados Unidos, Asad Majeed Khan, disse que o seu Governo gostaria de ver a Administração Trump a assumir um papel mais ativo para resolver a crise. Referiu que a ausência de críticas de Washington estava a ser "interpretada" pela Índia como um apoio e um "encorajamento".O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, já
disponibilizou a mediação russa para facilitar o diálogo entre as
partes.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, telefonou por sua vez ao primeiro-ministro indiano e disse-lhe que espera uma resolução rápida da crise com o Paquistão. Ambos concordaram no estreitamento das relações técnico-militares.
Confusão nos aeroportos
O encerramento do espaço aéreo paquistanês levou a companhia Thai Airways a cancelar mais de uma dúzia de voos com destino à Europa.
Outras empresas de aviação, como a Emirates e a Qatar Airways suspenderam voos para o Paquistão, e outras como a Singapore Airlines e a British Airways foram forçadas a desviar as rotas dos seus aparelhos.
Voos do Médio Oriente e da Índia foram igualmente afetados. A Air Canada suspendeu temporariamente os seus voos para a Índia.
Ataque a terroristas
A recente escalada iniciou-se com bombardeamentos aéreos indianos terça-feira - os primeiros entre as duas nações nos últimos 50 anos - ao campo do Jaish-e-Mohammad, um grupo militante armado baseado no Paquistão, que reivindicou o ataque de 14 de fevereiro na região zona de Caxemira controlada por Nova Deli. O atentado suicida vitimou pelo menos 40 tropas paramilitares indianas.
Os bombardeamentos, afirmaram fontes diplomáticas indianas quarta-feira, "eliminaram um grande número de terroristas do Jaish-e-Mohammad, treinadores, comandantes superiores e grupos de jihadistas que estavam a receber treino para missões suicidas".
Outras fontes referiram a morte de 300 militantes. À noite, o ministro dos Negócios Estrangeiros indiano entregou ao Paquistão um dossier que descrevia em detalhe os campos do grupo.
Quinta-feira o discurso indiano já era outro. Um alto responsável militar da Força Aérea, o Marechal R.G.K. Kapoor, disse ser "prematuro" dar detalhes das baixas. Afirmou contudo que existiam "provas bastante credíveis" dos estragos infligidos ao campo nos ataques aéreos.
Os primeiros números referidos pela Índia foram ridicularizados pelo Paquistão, que considerou os bombardeamentos um "fracasso". Apenas foi atingida uma encosta quase desabitada e ninguém ficou ferido, garantiu.
Esta quinta-feira, Islamabad falava da morte de quatro civis e ferimentos noutros dois, no que refere como os ataques "deliberados" da Índia das últimas 48 horas.
No terreno, nas encostas arborizadas da aldeia de Jaba, no lado paquistanês de Caxemira e alegado alvo dos ataque indianos ao Jaish-e-Mohammad, os aldeãos mostraram aos jornalistas quatro crateras e alguns pinheiros estilhaçados pelos bombardeamentos, que os acordaram às três da manhã.
"Tremeu tudo", disse Abdur Rasheed. Mas, acrescentou, "ninguém morreu. Só morreram alguns pinheiros e foram cortados. Também morreu um corvo".
Nooran Shah, de 62 anos, ficou com um corte sobre o olho direito provocado por uma explosão que abanou a sua casa de argila. "Dizem que queriam atingir uns terroristas. Que terroristas e que pode ver aqui?", perguntou. "Estamos aqui. Somos terroristas?".