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Charles de Gaulle. Coronavírus continua a encostar grandes porta-aviões às docas
As fortalezas flutuantes das grandes armadas mundiais não escapam à progressão do novo coronavírus e há, depois do episódio USS Theodore Roosevelt, um novo porta-aviões atingido pela covid-19: o francês Charles de Gaulle, segundo maior porta-aviões nuclear do mundo, foi obrigado a "lançar a âncora" em Toulon após uma razia de quase 700 militares, mais de um terço da tripulação. Os paralelismos com o super-navio norte-americano tocam ainda a atuação das hierarquias, com marinheiros franceses a apontarem decisões que terão colocado em risco a vida da tripulação.
Para já são 668 marinheiros a acusar positivo, mais de um terço numa tripulação de quase 1900, mas são ainda aguardados 30% dos resultados dos exames, o que deverá trazer mais notícias de infecção pelo novo coronavírus.
Destes positivos iniciais, mais de 30 militares encontram-se hospitalizados, um deles nos cuidados intensivos. Apesar de intubado e ventilado, o seu estado está estabilizado, de acordo com o capitão Eric Lavault, porta-voz da Marinha francesa.
Uma nota particular tem ver com a velocidade com que se espalhou o vírus no navio: de 50 casos iniciais assinalados na quarta-feira da última semana, a contabilização saltou para os quase 700 em escassos dias, depois de serem realizados novos testes no início desta semana.
Há ainda outros 200 militares que compõem as equipas das embarcações de defesa que acompanhavam o Charles de Gaulle nesta missão e que estão também entre os elementos testados ou a aguardar testes. Para já, não há indicação de que essas tripulações tenham sido atingidas pela Covid-19.
A controvérsia é entretanto outra: se, à semelhança do que aconteceu com o USS Theodore Roosevelt, também a hierarquia francesa tomou tarde decisões que urgiam, colocando em risco a vida da tripulação. Face a queixas de marinheiros, do Eliseu chegou de imediato o desmentido das versões que apontavam para um ignorar de sintomas diagnosticados a bordo muito antes dos exames médicos oficiais.
O porta-aviões, em missão no Mediterrâneo desde 21 de Janeiro, fez uma escala em Brest, na Bretanha (Noroeste francês) a 13 de Março, para levantar âncora três dias depois, a 16. É também nessa escala que tem origem a polémica sobre a gestão da crise do coronavírus pelo governo francês.
A paragem em Brest constituiu o único momento em que a tripulação teve contacto com o exterior desde a saída para o mar – com a subida a bordo de elementos de terra e saída para uma volta na cidade de alguns marinheiros do Charles de Gaulle – e terá sido, de acordo com um elemento da tripulação, em declarações ao abrigo do anonimato, poucos dias depois que o capitão do navio deu pela primeira vez conta de vários membros da tripulação com sintomatologia compatível com a Covid-19, pedindo à sua hierarquia para colocar um ponto final na missão e permitir o regresso.
A 20 de Março é entretanto confirmado um caso positivo a bordo de uma embarcação belga que também esteve aportada em Brest. Nas semanas seguintes, são realizados vários exames numa natural tentativa de despistar sintomas de gripe vulgar e problemas comuns na saúde dos marinheiros, até que na primeira semana de Abril (dias 4 e 5) o navio se vê a braços com um aumento exponencial de militares infectados.
O Ministério das Forças Armadas, acusado de num primeiro momento ter ignorado o alerta e ordenado o prosseguir da missão – o que foi já desmentido pelos responsáveis médicos da Marinha francesa –, manda regressar o Charles de Gaulle, que fez meia-volta para estacionar nas águas mediterrânicas de Toulon, próximo de Marselha, onde está a ser testada a quase totalidade da tripulação.
Ainda a 10 de Abril, numa declaração ambígua, a ministra das Forças Armadas, Florence Parly, declarava perante os senadores da comissão dos Negócios Estrangeiros e das Forças Armadas que não seria a Covid-19 a desviar os objectivos franceses: “Pode a Covid-19 alterar os nossos planos e as nossas operações, sim, por vezes. Mas poderá desviar-nos dos nossos objectivos? Não”.
As acusações à forma como a Marinha e o próprio governo franceses geriram a crise a bordo do Charles de Gaulle são ainda pontuais e primam pela discrição, não havendo de momento registo de uma posição do comandante do navio. O contrário do que aconteceu no caso do super-porta-aviões americano USS Theodore Roosevelt, onde o capitão Brett Crozier se expôs de tal forma que acabaria exonerado do comando do navio – uma crise que fez ainda cair um elemento da equipa do presidente Trump, o secretário da Marinha, Thomas Modly, precisamente o responsável pela demissão do comandante Crozier. Uma demissão contestada tanto nos meios militares, como no Pentágono e em Washington.
Para já, foi ordenado em França um inquérito pelo chefe do Estado-Maior da Marinha, o almirante Christophe Prazuck, para “tirar todas as lições da gestão da epidemia a bordo”. A preocupação assenta de momento em perceber como é que a tripulação foi contaminada e como é que a epidemia se propagou a bordo, com todas as pistas a pontarem a Brest.