Cimeira do G20 entre temas quentes e a remota possibilidade de um acordo

por Andreia Martins - RTP
É a primeira vez que a cimeira do G20 acontece na América do Sul Pilar Olivares - Reuters

A cimeira de líderes das economias mais poderosas do mundo arrancou esta sexta-feira em Buenos Aires e poderá ser palco de um entendimento entre Estados Unidos e China sobre as relações comerciais. No entanto, ainda que este encontro foque as questões económicas, outras polémicas prometem dominar várias discussões bilaterais, com a recente tensão entre Rússia e a Ucrânia à cabeça. O mundo estará ainda atento ao potencial isolamento do príncipe saudita, Mohammed Bin Salman, na sequência do envolvimento no caso Khashoggi.

Mais de um ano depois do encontro em Hamburgo, o grupo dos 20 volta a reunir-se para discutir o estado da economia, desta vez em Buenos Aires, na Argentina. É a primeira vez que o encontro anual, que despontou no auge da crise financeira de 2008, decorre na América do Sul.

O G20 reúne os sete países mais ricos do mundo (G7), 13 economias consideradas “emergentes” – onde se incluem o Brasil, a Rússia, a Turquia ou a China – e ainda representantes da União Europeia, bem como responsáveis de outras organizações internacionais, nomeadamente do FMI e Banco Mundial.

Num só espaço vão estar reunidos os líderes das principais economias mundiais e a representação da União Europeia. A capital argentina prepara-se da melhor forma para o encontro com o reforço da segurança e a paralisia parcial dos transportes.  

Mauricio Macri, Presidente da Argentina, declarou mesmo feriado para esta sexta-feira, de forma a permitir que tudo se processe sem a polémica e a violência de eventos anteriores. 
Encontro entre Trump e Xi  

Com a economia mundial em cima da mesa, o país anfitrião poderá aproveitar para discutir as melhores formas de suplantar a crise monetária que atravessa. A descida a pique do peso argentino levou este ano o Governo de Buenos Aires a pedir um pedido de apoio financeiro ao FMI na ordem dos 56 mil milhões de dólares, com o desembolso de 7.600 milhões de dólares (6.700 milhões de euros) em dezembro.  

Mas deverá ser a economia mundial o prato forte deste encontro informal. Espera-se um termo ou, pelo menos, um abrandamento da guerra comercial em curso entre as duas maiores potências mundiais: Estados Unidos e China.  

No total, os países do G20 representam 85 por cento de toda a produção económica mundial.  
Donald Trump e Xi Jinping serão, por isso, presenças marcantes, num ano em que ficou marcado pela crescente imposição de novas taxas alfandegárias às importações por ambos os países. Esta contenda, iniciada por Washington, baseia-se nas acusações, veiculadas pelo Presidente norte-americano acerca do alegado roubo de propriedade intelectual, que Pequim nega.  

“Vamos colocar o acento sobre a questão do comércio, para assegurarmos que este continua a sua expansão de forma estável e que a sua estratégia é partilhada pelos principais atores", disse esta semana Jorge Faurie, ministro argentino dos Negócios Estrangeiros.

No entanto, não são esperados grandes avanços neste ponto durante a discussão bilateral. Na segunda-feira, o Presidente norte-americano ameaçou estender o âmbito do aumento das taxas aduaneiras aos produtos chineses importados pelos Estados Unidos. Na antecâmara do encontro com o homólogo chinês, avisa no Twitter que “ainda há muito a fazer” para resolver o diferendo comercial e que “milhares de milhões de dólares estão a fugir dos cofres norte-americanos”. 

A possibilidade de tréguas parece remota, pelo que uma possível intensificação da crise poderá implicar a economia mundial. Em declarações ao jornal The Wall Street Journal no início da semana, Donald Trump disse mesmo que seria “altamente improvável” uma suspensão das taxas alfandegárias e ameaçou mesmo uma futura extensão das mesmas.

Nos últimos meses, a disputa comercial entre os dois países levou a fortes quedas generalizadas nas principais praças financeiras do mundo. Também ao nível do crescimento da economia mundial, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reviu em baixa as previsões, de 3,7% para 3,5%. A guerra comercial foi um dos principais motivos apontados.   
Temas incontornáveis  

Ainda assim, será difícil aos vários líderes europeus escaparem-se de uma panóplia de temas polémicos, a começar desde logo pela presença de Mohammed bin Salman (MBS). O príncipe herdeiro saudita já está na Argentina desde quarta-feira e deverá ficar praticamente isolado até ao final do encontro, tendo em conta o envolvimento de Riade na morte do jornalista Jamal Khashoggi em território turco.  

Na quarta-feira, a Human Rights Watch apresentou mesmo uma queixa contra o monarca na justiça argentina com a intenção de investigar a “possível cumplicidade” na morte do jornalista, mas também da ação saudita no conflito no Iémen.

Mohammed bin Salman na chegada a Buenos Aires. Foto: Reuters


A organização de defesa dos Direitos Humanos quer aprovar uma cláusula da Constituição argentina, que prevê que as autoridades judiciais possam investigar e processar crimes de guerra e tortura, independentemente do lugar onde foram cometidos.

Em resposta a esta queixa, o juiz argentino Ariel Lijo já pediu ajuda às autoridades turcas e iemenitas para dar seguimento ao processo.  

O encontro que também vai contar com a presença de Vladimir Putin terá também como incontornáveis outros focos de tensão entre o Ocidente e o Kremlin, nomeadamente a crise que se adensou nos últimos dias no Mar Negro, mais concretamente no Estreito de Kerch.

O assunto seria possivelmente discutido diretamente entre Donald Trump e Vladimir Putin durante um encontro bilateral a que muitos estariam atentos, depois do recente episódio de Helsínquia em julho, do qual pouco ou nada se soube. No entanto, na véspera do início da cimeira, a Administração Trump decidiu cancelar a reunião com o homólogo russo, na sequência do crescente clima de confronto no leste da Europa.  

Esta será ainda a primeira vez que o líder russo se depara nos palcos multilaterais com a líder britânica, Theresa May, desde o incidente diplomático entre os dois países no início do ano, após um ataque com agentes químicos em Salisbury, que Londres atribui a Moscovo.

Também a questão do Brexit não deverá ficar esquecida, num momento em que o acordo negociado com a União Europeia se prepara para enfrentar o escrutínio do Parlamento britânico já no próximo dia 11 de dezembro.  

Sempre polémico, Donald Trump deverá ainda ser levado a justificar a sua recente decisão de abandonar o acordo sobre o programa nuclear do Irão, assinado em 2015, e a implementação de novas sanções económicas, nomeadamente no setor petrolífero.
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