Clima. Biden quer usar cimeira de líderes para restaurar credibilidade nos EUA

por Joana Raposo Santos - RTP
O foco da cimeira será a promessa dos EUA de cortar as emissões de carbono pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2005. Tom Brenner - Reuters

O Presidente norte-americano, Joe Biden, preside esta quinta e sexta-feira à cimeira de líderes sobre o clima e tem pela frente o desafio de reconstruir a credibilidade das outras nações nos objetivos climáticos dos Estados Unidos, depois de uma presidência Trump marcada pelo abandono do Acordo de Paris.

O foco da cimeira será a promessa dos EUA de cortar as emissões de carbono pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2005. Este objetivo tem sido acompanhado de perto pelos ambientalistas, para quem uma redução inferior a 50 por cento seria pouco ambiciosa.

Quando o ex-presidente Barack Obama aderiu ao Acordo de Paris, estabeleceu a meta de cortar as emissões de carbono em 26 a 28 por cento até 2025. A nova promessa de Biden é, por comparação, bastante mais auspiciosa.

É, porém, um objetivo difícil de cumprir nos Estados Unidos, onde republicanos e até alguns democratas continuam cautelosos quanto à ideia de eliminar empregos no setor dos combustíveis fósseis, como o carvão ou o gás natural.

A cimeira pretende, assim, ajudar a reafirmar a liderança norte-americana num mundo que se tem tornado cada vez mais cético quanto às promessas dos EUA, que podem ser revertidas pelo Congresso ou pela tomada de posse de um novo Presidente. Foi, aliás, o que aconteceu este ano, quando Joe Biden reverteu várias das decisões de Donald Trump logo no seu primeiro dia na Sala Oval.

“Aquilo que fazemos em ‘casa’ importa, e o modo como os outros nos veem a agir será um sinal de que estamos de volta e totalmente envolvidos [com a causa climática]”, explicou à CNN um membro do Governo norte-americano.

“Nesta reunião haverá um sinal significativo de que nós esperamos ação. Estamos à espera que as pessoas anunciem medidas, aumentem a sua ambição e indiquem novos passos que pretendem dar para ajudar a resolver o problema do clima”, acrescentou.

Poucos meses depois do início da sua presidência, Trump tinha retirado os EUA do Acordo de Paris por desvalorizar o problema das alterações climáticas. Mesmo depois de pressionado por outros líderes, como a alemã Angela Markel ou o canadiano Justin Trudeau, o agora ex-presidente recusou regressar ao acordo. “Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, não de Paris”, disse na altura. São 40 os líderes mundiais a marcar presença na cimeira virtual de dois dias que tem início no Dia da Terra. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e o Papa Francisco vão também participar na reunião.

Apesar da decisão de Trump, a luta pelo clima não parou totalmente, uma vez que muitos governos estaduais e locais continuaram a levar a cabo iniciativas a favor do ambiente. Agora, segundo um funcionário da Administração Biden ouvido pela CNN, os Estados Unidos estão “muito perto de entrarem na trajetória” prometida pelo novo Presidente.

O encontro de líderes será também um teste às capacidades diplomáticas de Joe Biden, uma vez que nem todos os participantes são aliados dos EUA. O Presidente russo, Vladimir Putin, e o homólogo chinês, Xi Jinping, já confirmaram a sua presença.

Funcionários da Casa Branca disseram esperar que o tema das alterações climáticas possa ser uma área de cooperação mesmo com países com os quais Washington tem relações tensas. Não se sabe, porém, que tipo de discurso terão Putin e Jinping nas suas intervenções nesta cimeira.

A cimeira de líderes vai decorrer virtualmente devido à pandemia de Covid-19 e acontece apenas um dia depois de o Conselho e o Parlamento Europeu terem alcançado um acordo provisório para atingirem o objetivo da neutralidade climática na UE em 2050.

O acordo prevê que, até 2030, as emissões de carbono sejam reduzidas em 55 por cento, em comparação com os níveis de 1990.

O avanço europeu e a cimeira convocada pelos Estados Unidos acontecem depois de, esta semana, um relatório da Agência Internacional de Energia ter estimado que as emissões de carbono vindas do uso de emergia possam aumentar em 1.5 mil milhões de toneladas já em 2021. A confirmar-se, este será o segundo maior aumento anual de toda a história.

Ainda segundo o relatório, o consumo de carvão na Ásia (particularmente na China) está a superar o rápido crescimento das energias renováveis.
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