Combinação de imunoterapias revela-se capaz de "matar" células tumorais sem deixar vestígios

Um novo tratamento de imunoterapia, que combina dois medicamentos já conhecidos em terapias contra tumores cancerígenos, teve efeitos benéficos num número significativo de pacientes oncológicos em estado terminal, prolongando a sua esperança de vida ou erradicando nalguns casos a doença.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Fundação Royal Marsden

A imunoterapia estimula através de fármacos a eficácia do sistema imunitário dos próprios pacientes no reconhecimento e no combate contra células tumorais e tem vindo a revelar-se como uma das possibilidades de tratamento mais eficazes contra o cancro, até pela escassez de efeitos secundários revelados.

Os cientistas descobriram agora que a combinação dos medicamentos Nivolumab e Ipilimumab reduziu os tumores em todos os pacientes participantes do estudo, tendo mesmo levado ao desaparecimento das células cancerígenas nalguns dos casos analisados, o que espantou os médicos. Verificou-se uma “tendência positiva de sobrevivência”, referiram investigadores do Instituto de Pesquisa do Cancro (ICR) de Londres e da Fundação Real Marsden do Serviço Nacional de Saúde britânico.

A fase 3 do estudo abrangeu quase mil pacientes oncológicos com tumores da cabeça e do pescoço, em fase terminal, e os resultados, apesar de prematuros e estatisticamente pouco significativos, foram ainda assim “clinicamente importantes”, referiu Kevin Harrington, professor de terapias oncológicas biológicas (imunoterapias) do ICR e consultor clínico de oncologia no Royal Marsden, que liderou um segundo estudo, o CheckMate 651, do qual ainda se esperam resultados.

“Teremos de continuar a seguir os participantes nos testes para perceber se podemos comprovar os benefícios para a sua sobrevivência”, reconheceu.

A combinação dos fármacos foi particularmente bem-sucedida contra tumores com altos níveis do marcador PD-L1. A taxa de sobrevivência nos pacientes com este marcador foi a mais elevada de sempre num estudo de terapia de cancros localizados na cabeça e no pescoço, metastizados ou em recidiva.

Em média, os pacientes do estudo viveram mais três meses do que os que receberam quimioterapia, com a taxa média de sobrevivência do grupo a cifrar-se em 17,6 meses, a mais alta alguma vez registada neste tipo de pacientes.

O Royal Marsden é um hospital especializado no tratamento de cancros e já em 2019, num estudo com cerca de 900 pacientes, indicava que a imunoterapia em combinação com a quimioterapia potenciava os efeitos desta, prolongando a esperança de vida dos doentes. Na altura o medicamento estudado foi o Pembrolizumab, um anticorpo monoclunal.
Tábua de salvação
Um dos participantes no estudo com o Nivolumab combinado com o Ipilimumab, cuja esperança de vida não ia além do ano 2018, partilhou com o jornal Guardian o momento “maravilhoso” em que as enfermeiras lhe telefonaram, semanas depois de ele ter iniciado os testes, para o informar de que o seu tumor tinha “desaparecido completamente”.

Barry Ambrose foi diagnosticado em 2017 com um cancro na garganta que já se tinha espalhado para os pulmões, e os cuidados paliativos eram a única opção de alívio. Foi-lhe contudo apresentada a possibilidade de participar no estudo sobre a combinação das imunoterapias.

“Quando me falaram disso nem hesitei em participar. O que é que eu tinha a perder?” explicou ao jornal britânico. “Revelou-se uma tábua de salvação”.

“Apesar de ter de fazer duas viagens semanais de Suffolk até ao hospital para o tratamento, não tive praticamente efeitos secundários e consegui manter o meu ritmo de vida normal a fazer o que mais amo, velejar, andar de bicicleta e passar tempo com a minha família”, contou. Apenas oito semanas após iniciar o tratamento as tomografias revelaram que o tumor na garganta tinha desaparecido.

“Quando as enfermeiras me telefonaram a dizer-me que, ao fim de dois meses, o tumor na minha garganta tinha sido erradicado, foi um momento maravilhoso”, contou Ambrose. “Apesar de nessa altura a doença ainda permanecer nos pulmões o efeito foi espantoso”.

Ambrose submeteu-se depois a quimioterapia, seguindo-se a cirurgia. Atualmente não tem qualquer vestígio de cancro.

“O tratamento que recebi no Royal Marsden não tem paralelo e tenho muita sorte de terem continuado a encontrar curas que funcionaram no meu caso”, reconheceu ao Guardian o avô de 77 anos, que na semana passada realizou um cruzeiro à vela pela costa do Reino Unido com a mulher, Sue.
Arma potente
A combinação dos dois medicamentos de imunoterapia poderá revelar-se agora uma arma potente contra diversas formas avançadas de cancro, acreditam os investigadores.

Outros testes anteriores sugerem benefícios semelhantes das imunoterapias em casos terminais de cancro de rins, da pele e do intestino, prolongando a possibilidade de sobrevivência.


Além de prolongar a vida dos pacientes, as imunoterapias têm a vantagem de provocar muito menos efeitos secundários em comparação com a quimioterapia “extrema” tradicionalmente recomendada aos doentes com cancro em estado avançado. “As imunoterapias são mais suaves, e tratamentos sofisticados podem ter resultados benéficos para os pacientes”, explicou o professor Kristian Helin, diretor executivo do ICR, ao Guardian. “São resultados promissores” acrescentou, referindo-se à combinação do Nivolumab com o Ipilimumab.

Esta não é a primeira vez que o Royal Marsden testa a combinação de fármacos contra cancros, com resultados promissores.

A 19 de setembro, o hospital anunciou novas opções de tratamento para mulheres com um tipo raro de cancro nos ovários que raramente responde a terapias hormonais, precisamente através da combinação de dois medicamentos, o VS-6766 e o Defactinib, que bloqueiam sinais de que as células cancerígenas necessitam para crescer.

Os resultados da terapia revelaram-se promissores logo na fase 1 do estudo que abrangeu 25 pacientes metade das quais, 46 por cento, registou uma redução dos tumores.

Ainda mais significativa, reportaram os investigadores, foi a resposta das pacientes com a mutação do gene KRAS, uma das mais comuns encontrada num quarto de todos os tumores e extremamente difícil de tratar.

Os tumores de quase dois terços destas pacientes (64 por cento) diminuíram após o tratamento, sugerindo que a tipificação de um tumor pode ser um indicador importante na identificação das pacientes para quem o tratamento combinado seria mais benéfico.

Após a participação no estudo, as pacientes viveram em média 23 meses antes de o cancro progredir.
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