Desvio de voo. Quatro responsáveis bielorrussos acusados de pirataria aérea nos EUA

por Andreia Martins - RTP
Kacper Pempel - Reuters

A justiça norte-americana anunciou na quinta-feira a acusação de quatro responsáveis bielorrussos pelo desvio de um avião, em maio do ano passado. A acusação alega que as autoridades recorreram a uma falsa ameaça de bomba para que o voo fosse obrigado a aterrar em Minsk, de forma a permitir a detenção do jornalista Roman Protasevich e da namorada, que seguiam a bordo.

A acusação implica quatro homens neste caso: Leonid Mikalaevich Churo e Oleg Kazyuchits, respetivamente o diretor-geral e vice-diretor da autoridade de navegação aérea na Bielorrússia, e ainda dois responsáveis de segurança do Estado com nome e apelido desconhecidos.

As autoridades norte-americanas entendem que Leonid Mikalaevich Churo comunicou pessoalmente a falsa ameaça de bomba aos responsáveis de tráfego aéreo da Bielorrússia ainda antes sequer do avião ter descolado. 

Os responsáveis pelo tráfego aéreo no país aguardaram então que o aparelho entrasse no espaço aéreo bielorrusso antes de alertar o piloto sobre a suposta ameaça.

O vice-diretor, Oleg Kazyuchits, terá tentado falsificar o registo do incidente para ocultar a ameaça de bomba e o envolvimento das autoridades de segurança da Bielorrússia.  

Em comunicado, o procurador federal de Manhattan, Nova Iorque, Damian Williams, adianta que quatro funcionários bielorrussos são acusados de "conspiração no sentido de cometer um ato de pirataria para desviar o voo 4978 da Ryanair".

Refere ainda a "violação das regras internacionais e do direito penal norte-americano", e que foram colocados em perigo "quatro norte-americanos e outros passageiros inocentes", referindo-se aos restantes passageiros a bordo do avião.

Para o diretor assistente do FBI, Michael Driscoll, o sequestro constituiu uma “violação imprudente da lei dos Estados Unidos”.

“O próximo piloto que receber um pedido de socorro de uma torre pode duvidar da autenticidade da emergência, o que coloca vidas em risco", afirmou aquando da apresentação da acusação num tribunal federal de Nova Iorque.

Caso venham a ser julgados nos Estados Unidos, os quatro responsáveis bielorrussos podem enfrentar uma pena de prisão perpétua pelo desvio do avião. Os acusados são nesta altura considerados como "fugitivos" pela justiça norte-americana. 
Ameaça de bomba “deliberadamente falsa”

Roman Protasevich e a namorada, Sofia Sapega, de nacionalidade russa, foram detidos pelas autoridades bielorrussas a 23 de maio de 2021, após o desvio de um avião civil da Ryanair que fazia a ligação entre Atenas, na Grécia, e Vilnius, na Lituânia.

Enquanto o voo sobrevoava o espaço aéreo bielorrusso, as autoridades do país terão então forçado o desvio do avião por alegada ameaça de bomba a bordo.

De acordo com um relatório das Nações Unidas conhecido esta semana, a ameaça de bomba naquele avião foi “deliberadamente falsa”.

O caso gerou grande polémica e protestos a nível internacional, sobretudo por parte da União Europeia, até porque o aparelho em causa pertencia a uma companhia aérea irlandesa, a Ryanair, e fazia a ligação entre duas capitais de dois Estados-membros.

União Europeia, Reino Unido e União Europeia responderam desde então ao desvio do avião com a aplicação de sanções contra o regime de Lukashenko.  

Na Bielorrússia, Roman Protasevich, jornalista de 26 anos, foi responsável pela gestão do NEXTA, um canal no Telegram que desempenhou um papel central no movimento de oposição a Alexander Lukashenko após as eleições presidenciais de agosto de 2020.

Na altura, este meio foi decisivo para mostrar os protestos e contestação nas ruas após o escrutínio de 9 de agosto, quando a televisão estatal os ignorava.

A eleição em causa foi fortemente contestada pela oposição, com protestos nas ruas durante várias semanas que ficaram marcados pelo uso desmedido de força policial contra os manifestantes. Alexander Lukashenko, no poder desde 1994, foi dado como vencedor do escrutínio com mais de 80 por cento dos votos.

Desde o desvio do avião, Roman Protasevich esteve detido pelas autoridades bielorrussas até junho, tendo passado os últimos meses em prisão domiciliária, em contacto “intermitente” com a família, de acordo com os pais.
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