Donald Trump muda embaixada e reconhece Jerusalém como capital israelita

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Donald Trump assina a ordem executiva que transfere a embaixada dos Estados Unidos em Israel de Telavive para Jerusalém
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O Presidente norte-americano, Donald Trump, reconheceu esta quarta-feira Jerusalém como capital de Israel, ao anunciar a mudança da embaixada neste país de Telavive para a cidade santa. “Há muito que [esta decisão] deveria ter sido tomada”, sublinhou Trump.

Dando seguimento à promessa desta terça-feira, Donald Trump anunciou publicamente a decisão de mudar a representação diplomática norte-americana em Israel de Telavive para Jerusalém. Simultaneamente, o Presidente norte-americano anunciou ainda o reconhecimento de Jerusalém como capital israelita, tornando-se os Estados Unidos no único país a fazê-lo.

Num discurso que deverá incendiar ainda mais os discursos no Médio Oriente - que já ontem deu fortes sinais de que a decisão originaria fortes protestos no mundo árabe -, Trump quis temperar o anúncio com um apelo à calma e dando sinal de que Washington se mantinha aberta à mediação de negociações de paz para a região.

Donald Trump sublinhou que os Estados Unidos permanecerão absolutamente comprometidos com um acordo que agrade tanto a palestinianos como israelitas: “Farei tudo o que estiver no meu poder para construir esse acordo”. Sendo esse o desejo de ambas as partes, Trump mostrou-se disposto a trabalhar na chamada solução de dois Estados.


Para o Presidente, este anúncio marca também uma nova abordagem ao conflito israelo-palestiniano. Trump lamentou aqui que a proclamação de Jerusalém não tivesse sido feita antes pela Casa Branca, já que – defendeu – qualquer posição noutro sentido não teve até hoje qualquer resultado para o processo de paz.

Nesse sentido, sublinhou o Presidente Trump, o reconhecimento de Jerusalém como capital dos israelitas “há muito que já deveria ter sido feito”.

O anúncio representa uma rutura com décadas do que era o cânone da diplomacia norte-americana para o Médio Oriente. Consciente do peso deste anúncio, Trump deixou um apelo à calma e à tolerância: “Hoje apelamos à calma, à moderação. E que as vozes da tolerância se sobreponham a quem propaga o ódio”.

Para os “próximos dias”, Donald Trump deixou também a promessa de uma deslocação à região do seu vice, Mike Pence.
"Dia histórico"

O Governo israelita já havia saudado a decisão de Donald Trump de avançar com a mudança da embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém. “Este é um dia histórico. Saúdo a decisão do presidente Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel”, declarou o ministro israelita dos Transportes e das Informações, Yisrael Katz.

A importância desta mudança está muito clara na cabeça da liderança israelita, que fará da decisão uma arma para confrontar outras lideranças ocidentais. “Quem agora não reconhecer Jerusalém como capital de Israel, não reconhece também o direito à existência de Israel como um Estado judeu”, acrescentou Katz.

Da outra parte, têm-se multiplicado os avisos a Donald Trump contra a ideia de mudar a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém. Insuficientes, contudo.
Uma cidade, três religiões

A questão aqui não é meramente geográfica. Jerusalém é considerada uma cidade santa para três religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E uma embaixada em Jerusalém é a chancela de que Israel precisava do seu maior aliado para dar impulso a essa ideia de formalizar como capital uma cidade também reclamada pelos palestinianos, que não desistem de ter em Jerusalém-Leste, anexada pelos israelitas em 1967, a capital de um futuro Estado da Palestina.



Na realidade, em termos políticos, esse reconhecimento de Jerusalém como capital israelita é “apenas” o cumprimento de Donald trump de uma das suas promessas eleitorais. Por outro lado, a mudança da embaixada de Telavive para Jerusalém é, na realidade, um facto consumado nos estatutos norte-americanos para a região. Desde há muitos anos que essa cláusula obriga a que, de seis em seis meses, o Presidente no ativo assine uma moratória - waiver - prorrogando a questão e renunciando à mudança da representação diplomática em Israel.Uma lei norte-americana de 1995 solicitava a Washington a mudança da embaixada para Jerusalém. Essa medida nunca foi aplicada, porque os presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama adiaram sua implementação, a cada seis meses, com base em “interesses nacionais”.

Foi nesse sentido que guindou a argumentação do Presidente Trump, quando numa reunião com a imprensa no seu gabinete, antes ainda do discurso, assinalou ter “um anúncio importante a fazer (...) e que há muito já deveria ter sido feito”.

“Muitos presidentes disseram que iam fazer qualquer coisa e não fizeram nada”, assinalou Donald Trump, referindo-se a essa intenção frustrada dos seus antecessores de mudar a embaixada de Telavive para Jerusalém.

Ou seja, essa moratória já saiu com a chancela de Barack Obama e de outros presidentes antes dele e, de acordo com os analistas, apesar do anúncio desta tarde, irá acontecer de novo com Donald Trump - em termos práticos, passarão muitos anos até que a mudança aconteça de facto. Mas a razão desses waivers que vêm adiando a questão da embaixada não é, contudo, meramente formal. Trata-se antes, de acordo com os especialistas, da observância de uma condição fulcral para a manutenção do frágil equilíbrio da região do Médio Oriente e da salvaguarda da – por mais escassa que pareça – possibilidade de um acordo de paz israelo-palestiniano.

O próprio Mahmoud Abbas deixava na terça-feira um alerta muito incisivo, através do seu porta-voz, contra as intenções do Presidente norte-americano: transferir a embaixada dos Estados Unidos para a cidade santa teria “consequências muito perigosas”.

O Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, o rei Abdullah da Jordânia, o Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, e o soberano da Arábia Saudita receberam telefonemas de Trump. O Presidente não colheu nem simpatias nem apoio. Apenas reações de desagrado.
Estados Unidos isolados
A data de 6 de dezembro de 2017 fica para a História como o dia em que os Estados Unidos reconheceram Jerusalém como capital de Israel, o único país no mundo a avançar com essa posição.

A comunidade internacional nunca reconheceu Jerusalém como capital de Israel, nem tão pouco a anexação em 1967 da parte oriental da cidade.

Israel considera a cidade santa como a sua capital “eterna e reunificada”, mas os palestinianos defendem que Jerusalém Oriental será um dia a capital de um Estado palestiniano. Este é um dos principais diferendos a opor duas partes.

Os países com representação diplomática em Israel têm as embaixadas em Telavive, em conformidade com o princípio, consagrado em resoluções das Nações Unidas, de que o estatuto de Jerusalém apenas poderá ser definido em negociações entre israelitas e palestinianos.

c/ agências

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