EUA. Programa de ensino sobre anti-racismo considerado "doutrina de esquerda"

Milhares de pais, professores e políticos norte-americanos estão preocupados com a forma como tem sido retratada a questão do racismo no país, em particular com o ensino nas escolas da teoria crítica das raças, conhecida como CRT, entre receios de que esta se torne obrigatória no curriculum por imposição federal.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um manifestante aguarda o veredicto do julgamento do polícia Derek Chauvin, em Boston, pela morte de George Floyd Reuters

A CRT estuda a forma como a questão da raça e do racismo influenciaram as políticas do país, a sua cultura e legislação.A linha principal de argumentação da CRT mantém que a supremacia branca é uma realidade e que perpetua o seu poder através da legislação. Afirma ainda que é possível transformar a relação entre a legislação e o poder da raça, alcançando a emancipação racial e o fim da subordinação.

A questão é polémica, sobretudo quanto ao impacto na autoestima de crianças, de adolescentes e de jovens, assim como quanto ao conflito implícito que gera.

Em escolas para as elites de Nova Iorque já levou a denúncias, queixas e demissão de professores. Um pai afirmou à Fox News que retirou a filha do colégio devido ao curriculum ‘despertar’, que “ensina as crianças a sentir-se mal quanto à sua cor de pele”, explicou.

Um professor de matemática, Paul Rossi, foi dispensado dos seus deveres de ensino na Grace Church School de Manhattan, depois de denunciar a escola num ensaio público. Os alunos, afirmou, estavam a ser “doutrinados”, sendo-lhes ensinado que pertenciam a um grupo racial, em vez de serem tratados como indivíduos livres.

Ross disse “ser incapaz de continuar a manter-se calado” ao “testemunhar o impacto adverso” que a instrução anti-racismo estava a ter nas crianças. Publicou depois um telefonema com o diretor da escola, George Davison, em que este reconhecia que “estamos a demonizar as pessoas brancas por terem nascido”.

Outros pais têm denunciado a "obsessão" com o racismo nas escolas dos filhos.

Na semana passada, a Administração do democrata Joe Biden propôs-se usar impostos para financiar o ensino da CRT, de forma a “incorporar diversas perspetivas raciais, étnicas, culturais e linguísticas” nos currículos e melhorar “a literacia da informação” nas escolas de todo o país.
Idaho avança contra "doutrinação de esquerda"
Adivinhava-se o choque com iniciativas legislativas em Estados como o Arkansas, o Texas, o Oklahoma, a West Virgínia, o Idaho e o Missouri, que têm procurado banir a CRT dos programas escolares, considerando que ela “doutrina” crianças e jovens, em ideias promovidas pela “esquerda liberal”.

A teoria crítica das raças “é contrária à unidade da nação e ao bem-estar” do Estado, afirmam.

Até agora, tais propostas de lei estavam a ser apenas debatidas, mas esta semana o Idaho, dominado pelo Partido Republicano, deu um passo decisivo.

Por 28 votos a favor e sete contra, a legislação a proibir o ensino e financiamento de conteúdos semelhantes ao CRT foi aprovada na segunda-feira. Já tinha passado na Câmara baixa por 57-12, seguindo linhas partidárias.

A proposta-lei vai ser agora enviada ao Governador do Idaho, o republicano Brad Little.

Os argumentos invocados pelo autor da proposta, o senador republicano Carl Crabtree, provocaram um debate aceso. “É uma medida preventiva”, afirmou. “Não indica que temos um tremendo problema no Idaho. Mas não queremos tê-lo”.

Crabtree referiu ainda que “a legislação não pretende proibir o debate de forma aberta e franca”.Os democratas afirmam que a proposta foi empurrada até à aprovação sem qualquer debate sério. Consideram-na inútil e refutam as acusações de “doutrinação”, argumentando que já existem procedimentos para lidar com problemas curriculares.

“O que se passa é que temos um grupo que tem afirmado que os nossos professores estão a fazer uma lavagem cerebral às nossas crianças com doutrinas de esquerda”, denunciou a senadora democrata Janie Ward-Engelking. “E isso não é verdade. Se fosse não seríamos o Estado mais vermelho da América”, afirmou, referindo-se à cor do Partido Republicano.

Os detratores da proposta afirmam ainda que ela esbarra nos direitos consagrados na Primeira Emenda, sobre a liberdade de discurso e de expressão.

Um grupo de 100 alunos manifestou-se à porta do Senado de Idaho, contra a proposta. Yvonne Shen, membro da Aliança da Juventude das Ilhas do Pacífico Asiático-americanas, que organizou o protesto, explicou à imprensa que a CRT é “autoconsciência” do passado.

“Se não formos capazes de reconhecer as nossas falhas, nunca as iremos ultrapassar”, afirmou, referindo a “crueldade e o sofrimento do passado do nosso país”.
Anti-racismo ou anti-americano
A proposta de lei do Idaho proíbe docentes e outros funcionários das escolas, públicas ou apoiadas com fundos estatais, assim como Universidades, de debater com os seus alunos, ou de lhas impor, crenças que afirmem que um grupo de pessoas, definidas por sexo, raça, etnicidade ou religião, é inferior ou superior a outros.

Da mesma forma, ficam proibidos de forçar os estudantes a “afirmar, adotar ou aderir” a sistemas de crenças segundo os quais indivíduos sejam responsabilizados por ações passadas cometidas por pessoas da mesma raça, sexo, grupo étnico, religião ou origem nacional.

Também fica proibido o financiamento institucional destes conteúdos.A iniciativa de Idaho marca mais uma etapa no debate norte-americano sobre a raça, que tem estado a dominar as notícias e a polarizar o país.

Na imprensa, casos como a morte de George Floyd em maio de 2020, em Minneapolis, ou de BreonnaTaylor, às mãos de agentes da polícia, entre outros que terminaram na morte de negros, têm sido usados para sublinhar mais o racismo latente no tratamento das pessoas de pele não branca do que a brutalidade dos métodos policiais.

As denúncias destes atos estigmatizam geralmente o poder dos brancos e alinham de forma consistente com a teoria crítica das raças. Muito cidadãos consideram que são por isso intrinsecamente não-americanas.

A CRT teve origem em meados dos anos 70 nos meios académicos, baseada na Teoria Crítica, uma filosofia marxista segundo a qual os problemas sociais são criados e influenciados mais por estruturas sociais e assunções culturais do que por fatores individuais e psicológicos.

Nos anos 80 do século XX tinha já originado um movimento, de análise crítica das leis focada na raça e na relação entre esta, a legislação e o poder social e político.

Os detratores da teoria afirmam que ela se baseia no construcionismo social, privilegia o relato de histórias sobre o método científico baseado na prova e na razão, rejeita conceitos como verdade e mérito e se opõe ao liberalismo
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