"Flores são melhores que balas". Protestos na Bielorrússia entram no quinto dia

por RTP
Manifestantes na Bielorrússia usam flores para apelar ao fim da repressão e da violência Reuters

O balanço dos protestos na Bielorrússia desde as eleições presidenciais de domingo é, por enquanto, de dois mortos e de quase sete mil detidos. Milhares de bielorrussos têm enfrentado na rua as forças da ordem, contra os resultados anunciados pelas instâncias oficiais e que deram a vitória, por cerca de 80 por cento dos votos, ao atual Presidente, Alexander Lukachenko, abrindo-lhe a porta a um sexto mandato.

Inconformados com a repressão, os bielorrussos não desarmaram mas adaptaram-se.

Nas fábricas estatais de Minsk, de Grodno no ocidente e em Zhodina, perto da capital, os trabalhadores estão a organizar-se para fazer greves, contra o tratamento violento aplicado aos manifestantes. Distribuem panfletos aos funcionários, uma vez que a internet deixou de ser um veículo protegido para congregar esforços.
  

Em várias cidades, as manifestações diurnas tornaram-se ocasionais, quase espontâneas, de pequenos grupos que dispersam mal se aproxima a polícia. As manifestações são inúmeras e de todos os tipos.

Em Minsk, fiéis organizaram uma procissão e ajoelharam nas ruas, a pedir o fim da violência e da repressão. Foto: Reuters

A mais recente iniciativa mais ou menos organizada tem, pelo contrário, juntado milhares de pessoas, na maioria mulheres, de todas as idades.

Esta quinta-feira, pelo segundo dia consecutivo, vestidas de branco, voltaram a dar as mãos, muitas segurando também flores, em efémeras cadeias humanas, pacíficas, de denúncia da violência e da repressão usadas para conter os protestos.

A palavra de ordem: "Flores são melhores que balas".

Nas filas ao longo das estradas, as mulheres com flores e de branco exigiram ainda, esta quinta-feira, a libertação de todos os detidos políticos, em especial os dos últimos dias.


Desde o início dos protestos que milhões de flores, de cravos a rosas, têm sido presas a escombros empilhados nas estradas e a barreiras policiais, como forma de apelo ao fim da violência no país.
Uma revolução liderada por elas
Entre as manifestantes, a única a permanecer no país entre as três mulheres que, nos últimos meses, pré-eleitorais, encabeçaram o movimento contra Lukachenko. Imagens difundidas nas redes sociais mostraram Maria Kolesnikova, responsável pela campanha da oposição, aplaudida por uma fila em Minsk, com um ramo de flores na mão.


A candidata da oposição, Svetlana Tikhanovskaïa, a quem os resultados oficiais atribuem menos de 10 por cento dos votos, fugiu do país terça-feira e exilou-se na Eslovénia, depois de clamar vitória nas eleições de domingo e exigir a Lukachenko para "ceder o poder". Já Veronika Tsepkalo fugiu do país no sábado, véspera das eleições.

A própria Svtelana foi retida durante várias horas, segunda-feira, na sede da Comissão Eleitoral. Depois disso, a agência de informação estatal, Belta, difundiu um vídeo de 'Sveta' a ler, com voz monocórdica, um texto a apelar "ao respeito pela lei" e aos seus apoiantes para não "irem para a rua". A gravação foi de imediato repudiada como falsa e realizada "sob pressão".A candidata publicou já no exílio um vídeo a pedir desculpa por ter fugido, invocando a proteção da filha, de cinco anos e do filho, de 10 e deficiente auditivo.

Alexander Lukachenko sempre desconsiderou a candidatura de Tikhanovskaïa, razão provável pela qual esta foi aceite pela Comissão Eleitoral, quando outras, mais credíveis, de adversários políticos já conhecidos, foram rejeitadas.

"A nossa constituição não é para mulheres", afirmou há alguns meses o Presidente de 65 anos, para explicar porque é que uma mulher nunca poderia substituí-lo.

"A nossa sociedade não amadureceu o suficiente para votar numa mulher. Isso é porque, pela Constituição, o Presidente tem muito poder", acrescentou.
Luís Filipe Fonseca, João Caldeirinha - RTP

O apoio crescente conquistado por 'Sveta', cujos comícios acabaram a atrair milhares de pessoas, aparentemente mostrou um país mais maduro do que Lukachenko pensava.
Paradeiro desconhecido
Só nos protestos da noite de quarta-feira a polícia prendeu um milhar de pessoas e quinta-feira de manhã anunciou mais 700 detenções, elevando para 6700 o número total de manifestantes detidos desde domingo.

Alguns destes foram libertados quinta-feira de manhã. Às portas de um dos complexos prisionais a norte da capital, Minsk, dezenas de familiares esperavam-nos ou tentavam saber notícias dos seus entes queridos, cujo paradeiro é, muitas vezes, desconhecido.

Familiares de pessoas detidas pela polícia bielorrussa tentam saber notícias, junto de uma prisão perto de Minsk Foto: Reuters

Os relatos publicados nas redes sociais sobre o que está a suceder dentro das prisões, denunciam uma longa lista de horrores, de maus tratos e de abusos, incluindo de pessoas feridas.

As forças da ordem já admitiram terem usado munição real contra os manifestantes. Lukachenko, de 65 anos, a quem a oposição chama "barata", afirma que estes são criminosos e desempregados, "ovelhas" ao serviço de interesses externos.

Todas as táticas violentas ou ameaças por parte do poder parecem fracassar junto dos bielorrussos fartos da mão de ferro com que Lukachenko governa há 26 anos.

Protestam dia e de noite, há cinco dias, galvanizados pelo exemplo de Tikhanovskaïa, uma professora de inglês de 37 anos, sem experiência política, que ousou desafiar Lukachenko depois de o marido, um ativista político da oposição, ter sido preso em maio.
Entre a condenação e o aplauso
Tanto a União Europeia como os Estados Unidos condenaram os resultados eleitorais e denunciaram o escrutínio,"nem livre nem justo". Apelaram ainda ao regime de Lukachenko para que não recorra à força. As Nações Unidas condenaram o uso da violência por parte das autoridades.

Polónia, Letónia e Lituânia propuseram um plano de mediação, antecipando uma reunião extraordinária dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, marcada para sexta-feira. A hipótese de repor sanções à Bielorrússia é uma das possibilidades em cima da mesa.

Em Minsk, o representante da União Europeia para a Bielorrússia, Dirk Schuebel, e a embaixadora da Suécia no país, juntaram-se à manifestação pelo fim da violência Foto: Reuters

Já a China e a Venezuela saudaram a vitória de Lukachenko, afastando as suspeitas e denúncias de fraude generalizada.

A Rússia fez coro, apesar de todas as anteriores acusações do Presidente bielorrusso, de que Moscovo estaria a incentivar o caos de forma a derrubá-lo da cadeira que ocupa desde 1994, quando o país deixou de ser uma República Soviética.

Esta quinta-feira Moscovo mostrou-se mesmo preocupada com a situação corrente na Bielorrússia e denunciou tentativas de forças externas para interferir e desestabilizar o país depois das eleições contestadas.

"Tomamos nota da pressão sem precedentes que esta a ser exercida por terceiros nas autoridades da Bielorrússia", referiu a porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova.

"Vemos tentativas evidentes de interferência externa nas questões internas de um estado soberano, para criar divisões na sociedade e desestabilizar a situação", denunciou em conferência de imprensa.
Horror dentro e fora das prisões
Citada pela BBC, a jornalista russa Olga Ivshina fala não em agentes externos mas da brutalidade exercida pelas próprias autoridades bielorrussas.

"O volume de provas da brutalidade policial, tanto nas ruas como dentro das prisões, acumula-se cada vez mais. Os detidos incluem não só ativistas políticos, mas também muitos jornalistas e meros transeuntes", refere.

"Um dos jornalistas libertados, Nikita Telizhenko, do website de notícias russo Znak.com, publicou um relato angustiantes dos seus três dias na prisão. Agora, no regresso à Rússia, descreve pessoas deitadas no chão num centro de detenção, empilhadas umas em cima das outras, em poças de sangue e de excrementos. Sem serem autorizadas durante horas a usar a casa de banho ou até a mudar de posição", descreve Nikita à BBC.

"Ele diz que viu pessoas gravemente feridas, com membros partidos ou severamente espancadas, não só deixadas sem assistência médica mas ainda mais pontapeadas e agredidas pelos guardas."


"O testemunho de Telizhenko's tem sido confirmado por inúmeros relatos nas redes sociais - fotos, vídeos, histórias. Falei com uma mulher americana que estava de visita ao seu namorado bielorrusso em Minsk - que foi detido sem razão aparente. Não só não estava a protestar, como estava na cama a dormir quando a polícia foi ao seu apartamento, derrubou a porta e o levou", afirma a jornalista russa.

O gigante russo de internet Yandex reportou a intervenção de homens armados, que entraram em dois dos seus escritórios em Minsk e barricaram os empregados lá dentro, antes de se irem embora.

Duas nulheres aterrorizadas numa rua de Minsk, a 10 de agosto de 2020 Foto: Reuters

Uma equipa de reportagem da BBC foi atacada pela polícia terça-feira à noite e duas pessoas morreram durante os confrontos.
"Vergonha"
As duas vítimas mortais são dois civis e a forma como perderam a vida é alvo de contestação.

Um primeiro morreu na noite de segunda-feira, na explosão de um engenho explosivo que ia atirar à policia, referem fontes oficiais. O segundo terá sido interpelado durante uma reunião em Gomel, no sudeste do país e morreu ao fim de dez dias sob custódia policial, depois de ter sido levado para um hospital por ter ficado doente, afirmaram quarta-feira as forças de segurança.

A mãe deste último, um homem de 25 anos, afirmou à Radio Free Europe que o filho não estava a participar nos protestos e que foi detido quando ia visitar a namorada. Disse que ele tinha problemas cardíacos e foi retido durante horas numa carrinha da polícia.

Muitas pessoas têm gritado "vai-te embora", das suas varandas, num recado a Lukachenko, a mesma palavra de ordem usada pelos manifestantes nas ruas. A policia tem respondido com disparo de balas de borracha.

Talvez para pressionar outros agentes das forças de segurança, têm sido publicados nas redes sociais bielorrussas muitos vídeos de ex-polícias das forças especiais a deitar no lixo o seu uniforme, em repúdio das ações dos seus ex-camaradas.

"Até agora tinha orgulho da minha unidade. Agora tenho vergonha. Vergonha de todos os que seguem tais ordens", diz um deles.
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