França confirma utilização de gás sarin "várias vezes" na Síria

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros Laurent Fabius garante que o gás de nervos sarin foi usado diversas vezes na Síria. A diplomacia francesa não aponta contudo os locais nem nomeia os responsáveis pela utilização do agente químico. A revelação surge horas depois do Secretario-geral da ONU, Ban Ki Moon, ter ficado em choque com o nível de atrocidades que se têm vindo a cometer na Síria, de acordo com um relatório elaborado por investigadores da ONU para os Direitos Humanos.

Graça Andrade Ramos, RTP /
O ministro francês dos Negócios Estrangeiros Laurent Fabius confirma que o agente químico gás sarin foi usado "várias vezes e de forma localizada" na Síria Muhammed Ahmed/Reuters

Rebeldes e governo sírio acusam-se mutuamente de crimes de guerra na Síria, em particular quanto ao uso de agentes químicos e biológicos contra populações civis, denunciados pela primeira vez em 19 de março de 2013.

A presença do gás sarin em diversas amostras recolhidas na Síria foi identificada durante testes realizados no centro militar de investigação francês de Bouchet. "Estes testes mostram a presença de sarin em várias amostras na nossa posse," afirmou Laurent Fabius num comunicado.

Os resultados foram enviados pela França às Nações Unidas, nomeadamente ao professor Ake Sellström, chefe da Comissão de Inquérito da ONU que investiga as suspeitas internacionais sobre o uso de armas químicas na Síria.
Jornalistas recolheram amostras
Parte das amostras testadas em França foi recolhida por jornalistas do jornal "le Monde" entre 12 e 14 de maio, em Jobar, arredores de Damasco e revelaram metabolitos de sarin em urinas. Os próprios jornalistas foram testemunhas do ataque com gases tóxicos, tendo recolhido então o material a testar.

Outras amostras proveem de Saraqeb, a sul de Homs, onde foram recolhidas dia 29 de abril e confirmam igualmente a presença de gás sarin, embora sem estabelecer a sua origem.

A França "tem a certeza de que o gás sarin foi utilizado várias vezes e de forma localizada" acrescenta o comunicado da diplomacia francesa, que se torna assim o primeiro país a confirmar o uso de armas químicas no conflito que dura há mais de dois anos.O governo sírio garantiu sempre às autoridades internacionais que os seus arsenais químicos, já conhecidos, não cairiam nas mãos dos rebeldes.

No passado dia seis de maio, a magistrada Carla del Ponte, da Comissão de Inquérito da ONU às violações dos direitos humanos na Síria, afirmou que os rebeldes haviam usado gás sarin, de acordo com os "testemunhos recolhidos."
Em queda livre
A revelação francesa foi publicada depois de investigadores dos direitos humanos da ONU terem afirmado de manhã, em Genebra, ter "indícios razoáveis" de que uma quantidade limitada de armas químicas foi usada na Síria.

As autoridades da ONU afirmam que o agente químico foi usado pelo menos quatro vezes entre março e abril e avisaram que a Síria está "em queda livre."

Um relatório detalhado preparado pelos organismos da Defesa dos Direitos Humanos da ONU sobre o conflito sírio foi igualmente entregue esta terça-feira a Ban Ki Moon.

"Francamente ele achou o catálogo de atrocidades neste relatório ao mesmo tempo doentio e espantoso," afirmou aos jornalistas Martin Nesirky, porta-voz do secretário geral das Nações Unidas.

O relatório acusa ambos os lados do conflito sírio de cometer crimes de guerra e avisa para o perigo de se fornecer armamento aos rebeldes.
"Preço humano"
"Crimes de guerra e crimes contra a humanidade têm-se tornado uma realidade diária na Síria, onde nos impressionaram os relatos horríveis das vítimas," lê-se no relatório. "A crescente oferta de armas é paga por um preço humano," acrescenta o relatório da ONU.

A Comissão apoia as suas conclusões nos relatos de testemunhas dos factos, recolhidos em 430 entrevistas dentro da própria Síria e em Genebra, incluindo via Skype e pelo telefone. Recolheu ainda fotografias e vídeos, imagens satélite e registos médicos.

Relatórios de fontes governamentais ou não-governamentais, análises académicas e relatórios da ONU, incluindo de organismos de defesa dos Direitos Humanos e organizações humanitárias estão incluídos na investigação.
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