Moçambique enfrenta redução drástica no apoio alimentar já a partir da próxima semana

por Andreia Martins - RTP
Com menos financiamento e ajudas disponíveis para o próximo ano, o diretor do Programa Alimentar Mundial alerta para a "pandemia de fome" em vários países a partir de 2021. Mohamed Nureldin Abdallah - Reuters

O Programa Alimentar Mundial confirma a redução da ajuda alimentar a quem foge de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, onde se têm registado vários episódios de violência armada que provocaram uma crise humanitária com pelo menos 500 mil deslocados internos, cerca de metade com menos de 18 anos. Distinguida este ano com o Prémio Nobel da Paz, a agência humanitária queixa-se de falta de financiamento, o que terá reflexo na diminuição de porções de alimentos ou do número de beneficiários já a partir de dezembro.

A ajuda do Programa Alimentar Mundial em Moçambique já era insuficiente mas estará ainda mais limitada a partir da próxima semana. De acordo com esta agência humanitária para a alimentação, seriam necessários oito milhões de dólares todos os meses para prestar assistência aos deslocados de guerra no norte de Moçambique. Num total, seriam necessários 96 milhões de dólares para os próximos 12 meses.

Mas, em declarações à Agência Lusa, o Programa Alimentar Mundial confirma que “apenas 11,7 milhões de dólares estão garantidos”. Ou seja, o programa só teria como garantir assistência total por pouco mais de um mês, pelo que o volume e a alcance da ajuda serão reduzidos já a partir da próxima semana. 

"Sem financiamento adicional, o que é urgente, o PAM será forçado ou a reduzir as porções de alimentos ou a diminuir o número de beneficiários já em dezembro. Ou seja, daqui a uma semana", admite a organização.

O desafio está não só no apoio aos deslocados, mas também das famílias no resto do país que acolhem os que fogem. “Metade das famílias nas populações hospedeiras ficaram sem reservas de alimentos”, esclarece.

A agência humanitária conseguiu apoiar um total de 331.630 deslocados no mês de outubro e o objetivo final a alcançar seria ajudar diretamente “cerca de 750 mil deslocados internos e comunidades acolhedoras nos próximos meses”. Mas se o programa já estava profundamente depauperado face às crescente emergência, a falta de financiamento veio complicar ainda mais a situação.

"O número de deslocados internos aumenta a cada semana, o que pressiona o plano operacional e as capacidades do PAM", realça o Programa Alimentar Mundial num esclarecimento enviado à agência Lusa.

De acordo com o Governo de Maputo, há pelo menos 500 mil deslocados internos - cerca de metade com menos de 18 anos – em consequência da violência emergente no norte do país, com destaque para Cabo Delgado. Grande parte destes deslocados tem-se concentrado na cidade de Pemba, capital daquela província moçambicana.

"O rápido aumento da população como resultado dos movimentos internos pode levar à instabilidade social, disputa de recursos e confrontos entre deslocados internos e comunidades anfitriãs", alerta ainda.
Reportagem de Pedro Martins, correspondente da RTP em Moçambique, a 24 de outubro de 2020

Os números oficiais revelam que esta crise humanitária já fez cerca de duas mil mortes, para além da crise humanitária generalizada onde falta habitação e alimentos a milhares de moçambicanos. Esta província que está sob ataque de insurgentes e terroristas desde há três anos, é palco do maior investimento privado de África para a exploração de gás natural.
"Fome de proporções bíblicas"

Em resposta à agência Lusa, o Programa Alimentar Mundial sublinha que todas as áreas de apoio à população no país estão subfinanciadas. Para além da violência em Cabo Delgado, Moçambique está ainda a braços com as consequências dos ciclones Idai e Kenneth, em 2019, mas as intervenções humanitárias e de ajuda à reconstrução dedicam ao setor da nutrição “menos de 1% por cento de toda a assistência destinada ao desenvolvimento”.

Em entrevista à Associated Press, por ocasião da distinção do Programa Alimentar Mundial com o Prémio Nobel da Paz, o diretor do programa, David Beasley, salientou que esse facto poderá permitir a amplificação dos avisos sombrios em relação ao próximo ano, em que o mundo estará “à beira de uma pandemia de fome”.

“Vamos ter múltiplas fomes de proporções bíblicas em 2021. (…) Conseguimos evitar essa situação em 2020 porque os líderes mundiais responderam com apoio, pacotes de estímulo ou diferimento de dívidas”, mas com a Covid-19 tudo será posto em causa, uma vez que as doações deste ano já não estarão disponíveis.  

De acordo com o responsável, a agência necessita de 15 mil milhões de dólares para os vários programas de assistência no próximo ano, dos quais cinco mil milhões apenas para evitar situações de fome e 10 mil milhões para prosseguir com os programas da agência a nível global, a fim de evitar a desnutrição e as refeições escolares a crianças de vários pontos do mundo.

Numa análise conjunta do Programa Alimentar Mundial e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação em outubro último, 27 países “deverão enfrentar picos potenciais de insegurança alimentar aguda” nos próximos três a seis meses. Este documento inclui Moçambique na lista de países que “necessitam de atenção urgente”.

Em declarações à agência Lusa, o Programa Alimentar Mundial reconhece que os doadores tradicionais "enfrentam também a crise sanitária e socioeconómica provocada pela emergência do novo coronavírus", pelo que a mobilização de recursos é ainda mais desafiante.

O subfinanciamento também representa um desafio para as organizações não-governamentais no terreno. É o caso da HELPO, que salienta que os apoios existentes, agora em causa, já não chegavam para as necessidades.

Carlos Almeida faz parte desta organização não-governamental portuguesa que apoia várias comunidades de Cabo Delgado, sobretudo na área a educação. Em declarações à RDP África, o responsável descreve a situação atual no campo de deslocados de Metuge, perto de Pemba, em Cabo Delgado.

“É um cenário de partir o coração. As pessoas estão com acompanhamento de muitas organizações internacionais, com acompanhamento governamental, mas as condições estão longe de ser as mínimas para um ser humano viver. As pessoas estão todas amontoadas em palhotas feitas por eles próprios, algumas, a maior parte delas, cobertas com lonas para proteger da chuva. (…) As pessoas realmente estão numa grande insegurança e continuam com muito receio”, relata.

Ainda que esta ONG não se foque na ajuda alimentar, Carlos Almeida conta que tem assistido a um êxodo crescente das populações para sul devido à carência de alimentação nas zonas de maior concentração de pessoas.

“Há muitas famílias, sobretudo estas que estão nos grandes centros de aglomeração, nomeadamente dentro da cidade de Pemba (…), em que as pessoas estão a fugir para sul, para Nampula, porque, por um lado se sentem mais seguros, e porque onde há grandes aglomerados de pessoas é muito difícil conseguir sobreviver”, descreve.
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