Myanmar liberta jornalistas que reportaram massacre de rohingyas

Ao cabo de mais de 500 dias de prisão em Myanmar, foram esta terça-feira libertados os jornalistas da agência Reuters Wa Lone e Kyaw Soe Oo. Os dois repórteres, distinguidos com o Prémio Pulitzer, foram detidos por alegada disseminação de informações secretas tidas como sensíveis para a segurança nacional. Cobriram um massacre de civis da etnia Rohingya.

Carlos Santos Neves - RTP /
Wa Lone and Kyaw Soe Oo à saída da prisão de Insein Myat Thu Kyaw - Reuters

Wa Lone e Kyaw Soe Oo viram rejeitado, há algumas semanas, um derradeiro recurso. Mas puderam agora deixar para trás as grades da cadeia de Insein, em Rangum. Foram abrangidos por uma amnistia concedida pelo Presidente de Myanmar, Win Myint, a 6.520 prisioneiros.Os dois jornalistas da Reuters foram condenados ao abrigo da lei que criminaliza a divulgação de informações classificadas.


“Dentro da prisão e também em todo o mundo, as pessoas desejavam a nossa libertação, por isso quero agradecer-vos por tudo”, afirmou Lone ao sair de Insein, em declarações citadas pela edição online da cadeia norte-americana CNN. “Mal posso esperar para ir à minha redação”, acrescentou.

Stephen Adler, editor-chefe da Reuters, referiu-se por sua vez a Lone e a Soe Oo como “corajosos repórteres” e “símbolos da importância da liberdade de imprensa no mundo”.

Os jornalistas, ambos de nacionalidade birmanesa, foram condenados em setembro de 2018 a sete anos de prisão. O último recurso tendo em vista a libertação fora rejeitado pelo Supremo Tribunal de Myanmar em abril deste ano.

Nesse mês, a Reuters denunciava que os dois repórteres haviam sido “vítimas de uma armadilha da polícia para silenciar” o seu trabalho.
Vencedores do Pulitzer

Wa Lone e Kyaw Soe Oo, de 33 e 29 anos, respetivamente, contaram a história do morticínio de dez homens da etnia Rohingya na localidade de Inn Dinn, num dos capítulos mais negros da repressão do regime contra aquela minoria muçulmana – uma campanha que teve início em agosto de 2017, depois de militantes rohingyas terem atacado efetivos da polícia, como recorda a CNN.

O trabalho valeu-lhes o Prémio Pulitzer de Reportagem Internacional.


A violência contínua lançou mais de 720 mil rohingyas em fuga para o Bangladesh, segundo as estimativas das organizações internacionais.

Com a perseguição – e as violações de Direitos Humanos - em crescendo, os jornalistas que procuravam relatar os ataques sobre civis tornar-se-iam também um alvo das autoridades da antiga Birmânia.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo alegam ter sido enganados, no final de 2017, por um agente da polícia que fingiu ser uma fonte. Convidados para um encontro num restaurante nos arredores de Rangum, os jornalistas receberam documentos sensíveis. Em seguida, foram detidos.

A detenção dos repórteres reforçou o coro internacional de protestos contra a repressão exercida pelas autoridades de Myanmar, em particular contra Aung San Suu Kyi, rosto da Liga Nacional para a Democracia, Nobel da Paz em 1991 e atual conselheira de Estado, o equivalente a uma chefe de governo.

c/ Reuters
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