Quatro anos de conflito. Zelensky diz que Putin "não alcançou os seus objetivos de guerra"

Quatro anos de conflito. Zelensky diz que Putin "não alcançou os seus objetivos de guerra"

No dia em que se assinala o quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia, o presidente ucraniano disse que o líder russo "não alcançou os objetivos de guerra" nem "quebrou os ucranianos". A presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu estão, esta terça-feira, em Kiev para debater contribuições e homenagear os ucranianos.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
A Praça Maidan, em Kiev, está repleta de bandeiras ucranianas que representam os cidadãos ucranianos que morreram nestes quatro anos de guerra Foto: António Mateus - RTP

"Putin não alcançou os seus objetivos. Não quebrou o povo ucraniano. Não ganhou esta guerra", disse Volodymyr Zelensky numa mensagem vídeo de 18 minutos publicada esta terça-feira nas redes sociais, gravada no `bunker` do gabinete presidencial ucraniano.

"Preservámos a Ucrânia e tudo faremos para alcançar a paz e para que a justiça seja feita. Queremos paz, uma paz forte, digna e duradoura", acrescentou o chefe de Estado.

O líder ucraniano recordou uma conversa telefónica que teve, em 24 de fevereiro de 2022, com o então presidente dos EUA, Joe Biden, na qual lhe disse que não fugiria da Ucrânia e que precisava de armas.

"Falei com o presidente Biden aqui, e também o ouvi dizer: `Volodymyr, há perigo, precisas de sair da Ucrânia urgentemente. Estamos prontos para te ajudar com isso`. E eu respondi que precisava de armas, não de um táxi", disse Zelensky.

Zelensky reforça a resistência ucraniana, o direito dos ucranianos à sua defesa e à sua independência.

"Queremos paz: uma paz forte, digna e duradoura", disse Zelensky, deixando um apelo aos negociadores: "Não anulem todos estes anos, não desvalorizem toda a luta, a coragem, a dignidade, tudo o que a Ucrânia passou. Não podemos, não devemos, entregar tudo isto, esquecer tudo isto, trair tudo isto".
Costa e Von der Leyen em Kiev
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estão esta terça-feira a Kiev para assinalar “quatro anos de coragem inabalável”.

Costa e Von der Leyen, que no ano passado já se tinham deslocado à Ucrânia em 24 de fevereiro, vão participar na cerimónia memorial oficial em Kiev e visitar uma infraestrutura energética bombardeada pela Rússia, antes de se reunirem com Zelensky.

Vão também participar, a partir de Kiev, numa reunião da Coligação da boa vontade sobre a Ucrânia, convocada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, a decorrer por videoconferência.


No entanto, ao contrário do ano passado, em que Von der Leyen aproveitou a ida a Kiev para anunciar um novo financiamento de 3,5 mil milhões de euros à Ucrânia, desta vez os dois líderes vão chegar à capital ucraniana com um revés e poucos anúncios previstos.

Na segunda-feira, devido à oposição da Hungria, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE não conseguiram aprovar o 20.º pacote de sanções à Rússia, preparado precisamente para assinalar o quarto aniversário da guerra. 
A Hungria ameaçou também bloquear um empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, o que, a verificar-se, pode deixar Kiev sem o financiamento necessário para aguentar o esforço de guerra a partir da primavera.

Em Bruxelas, o Parlamento Europeu decidiu também organizar uma sessão plenária extraordinária para assinalar o quarto aniversário da guerra, agendada para as 10h15 (09h15 em Lisboa) e com uma duração de cerca de uma hora.

A sessão vai começar com um discurso de Zelensky, feito por vídeo, passando depois os eurodeputados a debater a guerra e o apoio da UE à Ucrânia, antes de votarem uma resolução.
Impasse nas negociações
Quatro anos depois do início do conflito, a Rússia não conseguiu a tão esperada vitória e as negociações para um cessar-fogo continuam num impasse.

As negociações diplomáticas entre Kiev e Moscovo, iniciadas em 2025 sob os auspícios dos Estados Unidos, não conseguiram até ao momento interromper os combates.

O exército russo, que ocupa cerca de 20 por cento da Ucrânia, bombardeia diariamente áreas civis e infraestruturas, o que desencadeou recentemente, no meio de um inverno particularmente rigoroso, a pior crise energética do país desde o início da invasão.

Apesar das pesadas baixas, as tropas russas têm continuado o seu lento avanço nas linhas da frente nos últimos meses, especialmente no Donbass, o principal polo industrial do leste da Ucrânia, epicentro dos combates e que Moscovo reivindica como território anexado. As questões do Donbass e da central nuclear de Zaporizhia, a maior da Europa – ocupadas pela Rússia –, continuam a ser questões “sensíveis” nas negociações.

Zelensky recusa pagar o preço de um cessar-fogo exigido por Putin, que passa pela retirada de territórios estratégicos que a Rússia não conseguiu capturar, e rejeita a exigência da Rússia de que a Ucrânia entregue 20 por cento da região leste de Donetsk, bem como territórios nas regiões a sul de Kherson e Zaporizhia.

A guerra causou imensa destruição na Ucrânia, um país que, mesmo antes do conflito, já enfrentava dificuldades económicas.

A reconstrução pós-guerra custará cerca de 588 mil milhões de dólares (mais de 500 mil milhões de euros) na próxima década, segundo um relatório conjunto de Kiev, do Banco Mundial, da União Europeia e das Nações Unidas, publicado na segunda-feira.

c/agências
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