Rússia anuncia cessar-fogo mas alerta para retaliações

O Presidente russo, Dmitry Medvedev, anunciou a suspensão das operações militares na Geórgia, mas as autoridades russas e georgianas trocam acusações de desrespeito do cessar-fogo. Medvedev disse concordar com o plano de paz apresentado pelo presidente em exercício do Conselho Europeu, Nicolas Sarkozy.

Raquel Ramalho Lopes, RTP /
"Ainda não temos paz. Mas temos um cessar-fogo provisório das hostilidades", disse o Presidente francês Mikhail Klimentyev, EPA

A proposta apresentada pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy define que as partes envolvidas no conflito devem cumprir seis condições. A primeira consiste em deixar de recorrer à força e na interrupção de toda a acção militar, seguida do acesso livre à ajuda humanitária. A quarta medida depende do regresso dos soldados da Geórgia às suas bases permanentes, enquanto os militares da Rússia devem voltar às posições anteriores ao início da operação militar.

A sexta e última medida proposta por Sarkozy consiste no “início do debate internacional sobre o futuro estatuto e modelos de segurança duradouros da Abecásia e da Ossétia do Sul”, enumerou o Presidente francês.



Nicolas Sarkozy aponta: “Ainda não temos paz. Mas temos um cessar-fogo provisório das hostilidades. E todos devem ter em conta este progresso admirável. Ainda há muito trabalho para ser feito. O que queremos é alcançar o melhor resultado”.

O Chefe de Estado francês garantiu estar a falar em nome dos 27 países-membros da UE e avançou com a disponibilidade da Europa em participar numa força de paz na Geórgia. Sarkozy sublinhou que a sua “preocupação enquanto presidente da União Europeia é manter a unidade da Europa”.

Outro dos motivos da iniciativa europeia para resolver o conflito russo-georgiano deve-se ao desejo de “fortalecer as relações entre a Europa e a Rússia”. Logo, uma participação europeia numa força de paz só se concretizaria “se os diferentes actores o desejassem”, explicou Sarkozy.

Rússia alerta que poderá tomar “outras medidas”

O Presidente russo saudou, numa conferência de imprensa conjunta com Nicolas Sarkozy, o plano de paz internacional para resolver o conflito na Geórgia. Medvedev considera que este é o primeiro passo para um debate internacional sobre o estatuto das regiões separatistas.

Contudo, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros avisou que o plano não terá significado se o exército da Geórgia não voltar às bases. Serguei Lavrov afirmou que se o Governo de Tbilissi rejeitar a proposta a Rússia será forçada "a tomar outras medidas para não permitir a mínima possibilidade de uma repetição da situação que resultou da agressão da Geórgia" à Ossétia do Sul.

Moscovo faz depender a aplicação do plano da retirada das tropas georgianas da Abecásia. Uma movimentação anunciada por Tbilissi ao final da tarde.

O Presidente da Geórgia disse ontem que concordava com um plano de quatro pontos, transmitido pelo ministro francês dos Negócios Estrangeiros.

Sarkozy foi recebido no aeroporto pelo homólogo georgiano, em Tbilissi.

Ataques russos continuam apesar de cessar-fogo

A Rússia continuou, segundo vários testemunhos, a avançar no território da Geórgia já depois do anúncio para um acordo de cessar-fogo. O embaixador do Reino Unido na Geórgia referiu que continuam os bombardeamentos em Gori. Os ataques russos já atingiram alvos civis, como um autocarro e um hospital.

O Presidente Sarkozy adiantou ter recebido a garantia de Medvedev de que as tropas russas não vão permanecer na Geórgia: “Concordamos na questão da soberania. A Geórgia é um país independente. Os russos, e isso disse-me o Presidente Medvedev, não têm qualquer intenção de continuar na Geórgia”.

Poucas horas antes da reunião com Sarkozy, o exército russo enviava 135 blindados para a Abecásia, onde decorriam confrontos entre as tropas abecases e georgianas.

O chefe de Estado russo apelidou Mickaïl Saakachvili de “lunático”. “Sabem, os lunáticos diferem das outras pessoas porque quando cheiram sangue é muito difícil impedi-los. Então tens de usar cirurgia”, declarou Medvedev, na conferência de imprensa conjunta com Sarkozy.

Em Tblissi, uma multidão aclamava o seu presidente e cantava: “Geórgia, Geórgia”. Foram também exibidos cartazes de Putin, antecessor de Medvedev com a frase “Procurado: Crimes contra a humanidade”.

Guerra no Cáucaso provoca 100 mil refugiados

Milhares de civis foram obrigados a abandonar as habitações por causa das acções militares. A população está a deslocar-se para a Ossétia do Norte.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) estima que por causa da guerra tenham sido deslocadas cem mil pessoas. A ONU quer abrir dois corredores humanitários que permitam uma passagem dos civis com segurança.

A ONU fez chegar, hoje, à capital da Geórgia um avião com bidões, coberturas e tendas. Para amanhã está prevista a chegada de outro avião com ajuda para cerca de 30 mil pessoas.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha espera a aterragem, ainda esta terça-feira, de um avião com 16 toneladas de equipamento médico e água.

Com a intenção de auxiliar na coordenação humanitária, a Bulgária já disponibilizou, junto da UE, o seu porto de Bourgas, junto ao Mar Negro.

Os Estados Unidos anunciaram uma ajuda inicial de 250 mil dólares à Geórgia, além de outras medidas de apoio à economia e estabilidade deste país.

A UE, por sua vez, anunciou uma ajuda de um milhão de euros. Mas a Espanha também tornou público o donativo de 500 mil euros para a Cruz Vermelha.

Geórgia acusa Rússia de limpeza étnica no TIJ

A Geórgia vai acusar a Rússia de limpeza étnica entre 1993 e 2008 junto do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). “A Geórgia apresentou uma queixa contra a Rússia por violações da convenção internacional para a eliminação de todas as formas de discriminação racial”, confirmou aquele tribunal das Nações Unidas.

Esta terça-feira, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem também recomendou à Rússia para não ameaçar a vida das populações civis na Geórgia.
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