Rússia reforça tropas na Ossétia do Sul em resposta a ofensiva da Geórgia

Moscovo destacou uma coluna de tanques para a Ossétia do Sul com o objectivo de reforçar as suas forças de manutenção de paz estacionadas na capital daquela região separatista da Geórgia. A cidade de Tskhinvali, castigada por sucessivas vagas de bombardeamentos, encontra-se “sob controlo georgiano”, garante o Governo de Tbilissi.

Carlos Santos Neves, RTP /
Geórgia apertou cerco à capital da Ossétia do Sul Zurab Kurtsikidze, EPA

A Geórgia deu ontem início a uma ofensiva em larga escala contra a capital da região separatista da Ossétia do Sul, Tskhinvali. Intensos bombardeamentos, levados a efeito por tanques e pela aviação georgiana, deixaram a cidade “quase inteiramente destruída”, segundo o comandante das tropas de manutenção de paz russas estacionadas na Ossétia do Sul, Marat Koupakhmetov, citado pela agência russa Interfax.

Os bombardeamentos sistemáticos contra objectivos em Tskhinvali e posições de rebeldes separatistas começaram às 23h30 (19h30 em Lisboa) de quinta-feira.

Tbilissi afirma que a ofensiva visa pôr termo a um “regime criminoso” e restabelecer a ordem na região independentista. Por sua vez, um líder rebelde da Ossétia do Sul, Eduard Kokoity, denunciou o que considera ser um “passo pérfido”.

Centenas de civis terão morrido no decurso dos bombardeamentos, segundo as autoridades da Ossétia do Sul. Há também relatos, avançados pelo Ministério da Defesa em Moscovo, que apontam para as mortes de mais de dez operacionais das forças de manutenção de paz da Rússia, cujas instalações terão sido atingidas pelos bombardeamentos. Outros 30 militares russos ficaram feridos.

As tropas georgianas cumpriram esta sexta-feira um cessar-fogo unilateral de três horas para permitir a evacuação de civis da cidade de Tskhinvali. Durante os bombardeamentos, muitos dos residentes da cidade procuraram refúgio nas caves dos edifícios.

Tensão entre Moscovo e Tbilissi

A par da ofensiva do exército georgiano, cresce o espectro de uma conflagração generalizada no Cáucaso, com Rússia e Geórgia a medirem forças naquela região volátil.

As autoridades georgianas acusam Moscovo de fornecer armas aos rebeldes da Ossétia do Sul, que lutam pela independência da região desde a guerra civil dos anos de 1990. A Rússia nega qualquer envolvimento na luta independentista.

O Presidente da Geórgia, que promete restaurar o controlo de Tbilissi sobre a Ossétia do Sul e a vizinha Abkhazia, já apelou aos reservistas do país para que se apresentem ao serviço.

Mikhail Saakasvili condenou de forma severa o destacamento de “150 tanques russos e veículos de transporte de tropas” para a Ossétia do Sul.

Imagem do Presidente da Geórgia, Mikhail Saakasvili

“Isto é uma intrusão clara no território de outro país. Temos tanques russos no nosso território, jactos no nosso território em plena luz do dia”, afirmou o Presidente georgiano.

Saakasvili assegurou ainda que as forças da Geórgia abateram “dois caças russos sobre território georgiano. Uma informação desmentida por Moscovo.

Em entrevista à CNN, o Presidente da Geórgia disse mesmo que a Rússia “está a travar uma guerra” com o seu país.

Segundo o Ministério do Interior da Geórgia, uma coluna de tanques russos entrou na Ossétia do Sul a partir da província vizinha da Ossétia do Norte, que integra a Federação Russa. A coluna deverá chegar a Tskhinvali nas próximas horas.

Surgiu entretanto a notícia de um bombardeamento russo contra a base aérea militar de Vaziani, nos arredores da capital da Geórgia, Tbilissi. “Aviões russos bombardearam o território nas proximidades da base militar de Vaziani”, disse à agência France Presse o porta-voz do Ministério do Interior da Geórgia, Chota Outiachvili.

Na vertente diplomática, a Geórgia já veio apelar à comunidade internacional para que ajude a pôr fim à “agressão militar directa” da Rússia em território georgiano.

“Vamos tentar apelar à comunidade internacional, aos nossos parceiros, para que possam dirigir uma mensagem clara à Federação Russa. Esta é a última possibilidade de obter a paz”, declarou a ministra georgiana dos Negócios Estrangeiros, Ekaterine Tkechelachvili.

Medvedev promete “castigo”

O Ministério russo da Defesa garante que o reforço de tropas na Ossétia do Sul tem por objectivo “pôr fim ao derramamento de sangue” e proteger as vidas dos soldados integrados no contingente de manutenção de paz e dos residentes de Tskhinvali, a maioria dos quais tem nacionalidade russa.

O Presidente russo, Dmitry Medvedev, já veio a público para garantir que vai defender os cidadãos russos na Ossétia do Sul.

“Devo proteger a vida e a dignidade dos cidadãos russos onde quer que eles estejam. Não vamos permitir que as suas mortes fiquem por castigar. Os responsáveis vão receber um merecido castigo”, asseverou Medvedev, em declarações citadas pela agência Interfax.

Moscovo convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para abordar a crise na Ossétia do Sul. Porém, os membros daquele órgão das Nações Unidas não chegaram a acordo quanto a uma declaração, com chancela russa, a apelar às partes em conflito para que renunciem à força.

Cronologia


  • 1991-1992
    A Ossétia do Sul combate pela separação da Geórgia, cuja independência é também recente.


  • 2004
    Mikhail Saakasvili é eleito para a Presidência da Geórgia e promete recuperar todos os territórios “perdidos”.


  • 2006
    Num referendo não oficial, os habitantes da Ossétia do Sul votam pela independência face à Geórgia.


  • Abril de 2008
    Moscovo incrementa os laços com as regiões da Abkhazia e da Ossétia do Sul.


  • Julho de 2008
    A Rússia admite ter feito passar caças sobre a Ossétia do Sul. Moscovo e Tblissi trocam acusações, responsabilizando-se mutuamente pela escalada militar.


  • 7 de Agosto de 2008
    Ao cabo de intensos confrontos entre as forças militares georgianas e rebeldes da Ossétia do Sul, os dois lados chegam a acordo para um cessar-fogo.


  • 8 de Agosto de 2008
    As forças da Geórgia voltam a envolver-se em intensos combates com os rebeldes e intensificam as operações militares na região da Ossétia do Sul, apertando o cerco a Tskhinvali.


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