SIDA. Estirpe de VIH resistente aos medicamentos está a alastrar, avisa a OMS

por RTP
Casal paquistanês infetado com o VIH com o filho num centro de reabilitação de uma ONG em Karachi Reuters

Cada vez mais crianças infetadas com o VIH, o Vírus da Imunodeficiência Humana, apresentam uma estirpe resistente aos medicamentos. Mesmo entre os adultos, a resistência do vírus aos tratamentos de primeira-linha está a aumentar, sendo urgente uma nova resposta, alertou a Organização Mundial de Saúde.

Um relatório da organização publicado quinta-feira,  indica que quase metade das crianças infetadas, em 10 países da África subsahariana analisados, carrega uma variante do vírus com resistência demonstrada aos pré-tratamentos contra o VIH (PDR).

Entre os adultos, a eficácia dos tratamentos parece igualmente em queda, com a PDR a ser detetada num mínimo de 10 por cento da população infetada em cada vez maior número de países. A OMS recomenda que, quando a PDR a inibidores do tipo NNRTI, como o nevirapine e o efavirenz, atinge a marca dos 10 por cento num dado país, o tratamento de primeira-linha contra o VIH seja alterado com a máxima urgência para um regime mais robusto incluindo dolutegravir.

As pesquisas indicam ainda que as pessoas com historial de exposição a retrovirais são três vezes mais suscetíveis de mostrar resistência aos medicamentos de classe NNRTI acrescenta o texto.

As conclusões estão em linha com as recomendações da OMS, que desde 2019 defende a utilização do dolutegravir como o tratamento preferencial de primeira e de segunda linha em todos as faixas etárias.

A organização sublinha que, além de mais eficaz, o dolutegravir é mais fácil de tomar e apresenta menos efeitos secundários dos que outros medicamentos em vigor.

Atualmente, 27,5 milhões de pessoas em todo o mundo recebem terapia retroviral contra o VIH, a qual se revelou até agora um supressor de sucesso do desenvolvimento do SIDA - Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

Com base nos estudos mais recentes das pesquisas realizadas "quase metade dos infantes diagnosticados com VIH transportam vírus resistente aos medicamentos” antes de iniciar a toma, refere o relatório.

A “vigilância de rotina” da resistência e a procura de alternativas constituem as duas vias principais para minimizar a transmissão das estirpes resistentes do VIH, referem os relatores. Contudo, até 2020 apenas 64 por cento dos países com níveis elevados de infeção aplicava planos nacionais de prevenção, acompanhamento e resposta ao problema.
36.3 milhões de mortos
O número de países com níveis superiores a 90 por cento de supressão do VIH aumentou de 33 por cento em 2017 para 80 por cento em 2020. Estes níveis, entre populações tratadas com terapia retroviral, evita a transmissão do vírus, a morbilidade e a mortalidade a ele associadas e evita o aparecimento de resistência medicamentosa, sublinha o relatório.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Gebreyesus, referiu ao jornal britânico Guardian que o mau uso dos medicamentos contra os micróbios pode aliás estar a fomentar a resistência do vírus, apelando à mudança de comportamentos. “Os antimicrobianos, incluindo antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitas, são a espinha dorsal da medicina moderna. Mas o seu abuso e mau uso estão a minar a eficácia destes medicamentos essenciais. Podemos todos desempenhar um papel na preservação dos antimicrobianos e prevenir a resistência aos medicamentos”, afirmou Ghebreyesus.

Os números da OMS apontam que a infeção com o VIH, que provoca o SIDA, se mantém um problema de saúde pública global, tendo ceifado a vida de 36.3 milhões de pessoas até agora.

A infeção com o VIH não tem cura, contudo o acesso crescente a prevenção, diagnóstico, tratamentos e cuidados, incluindo contra infeções oportunistas, abriu caminho a que a doença pudesse tornar-se crónica e não mortal, permitindo aos infetados viver de forma saudável e prolongada, faz notar a OMS.

No fim de 2020 existiam no mundo cerca de 37.7 milhões de pessoas a viver com o VIH, mais de dois terços das quais em África. No mesmo ano, 680 mil pessoas morreram de causas relacionadas com o VIH e 1.5 milhões foram infetadas.
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