Síria. Exército avança sobre forças curdas que falam em "traição"

O comando curdo acusou este sábado o Governo sírio de ter "traído" um acordo entre as duas partes sobre a retirada, em 48 horas, das forças curdas de partes do norte do país.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Orhan Qereman Orhan Qereman - Reuters

O exército de Damasco tem estado a repelir as Forças Democráticas da Síria (SDF, predominantemente curdas), a leste do Eufrates, depois de lhes ter exigido que evacuassem os últimos distritos de Alepo que ainda controlavam.

Esta semana, o exército sírio recebeu reforços, o que levou ao estabelecimento de um acordo de 48 horas para possibilitar o recuo das forças curdas.

O comandante das SFD, Mazloum Abdi, anunciou sexta-feira à noite a retirada, a partir de sábado, de uma área delimitada pelo exército entre Deir Hafer, a cerca de 50 km a leste de Alepo, e o rio Eufrates.

A administração autónoma curda declarou também, em comunicado, um cessar-fogo "até nova ordem" em toda a província de Raqqa.

O território, evacuado sob pressão pelas forças curdas, foi ocupado este sábado pelo exército sírio, que delimitou uma "zona militar fechada" em torno da cidade de Tabqa, nas margens do Eufrates, na província de Raqqa.

Avisou igualmente que iria atacar alvos controlados pelas forças curdas na área, incluindo um junto à cidade de Raqqa, pedindo aos civis que evacuassem a área.

Registaram-se durante o dia combates entre as duas partes, num setor onde se encontraram frente a frente. As SFD alegaram ter perdido vários dos seus combatentes ao longo do dia, em “intensos combates em curso” e “bombardeamentos” contra a província de Raqqa.

As FDS afirmam que as forças governamentais, com o seu avanço sobre Raqqa, "violaram acordos recentes e traíram as nossas forças quando estas se retiravam" de duas cidades que tinham caído nas mãos das autoridades sírias. 

Acusam Damasco de "traição".

Num comunicado emitido pela televisão nacional, o exército sírio anunciou também a recuperação do controlo, este sábado, de 34 "cidades e aldeias" evacuadas pelas Forças Democráticas da Síria.
Apelos ao fim dos combates
Os Estados Unidos instaram já o governo sírio, do presidente islamista Ahmad al-Sharaa, a "cessar todas as ações ofensivas" entre Alepo e a cidade de Raqqa.Aviões da coligação liderada pelos EUA foram vistos a sobrevoar cidades no norte da Síria, pontos críticos de conflito onde tropas do exército e facções curdas se confrontaram sábado, referiram duas fontes à agência Reuters, uma da segurança síria e outra da defesa turca. A fonte síria referiu que os aviões lançaram sinalizadores de aviso sobre a área.

A Presidência francesa de Emmanuel Macron e o presidente do Curdistão iraquiano, apelaram por seu lado à “desescalada imediata” dos confrontos.

No sul da Turquia, a comunidade curda está a preparar-se para apoiar as comunidades sírias, especialmente nas viças de Batman e de Siirt, relatou um correspondente da Agência France Press e media pro-curdos.

Em Batman, mais de uma centena de manifestantes, muitos deles jovens, reuniram-se em resposta à convocatória da ala jovem do partido pró-curdo DEM, o terceiro maior partido no Parlamento turco, segundo o site de notícias Rüdaw Türkce.

De acordo com esta fonte, que publicou imagens da marcha, a polícia interveio para controlar a multidão, "sem incidentes".

Outras imagens mostram manifestantes reunidos atrás de faixas com os dizeres "Rojava não está sozinha", numa referência à autoproclamada administração autónoma curda no norte e leste da Síria.
Damasco recupera campos de petróleo
O presidente sírio Ahmad al-Sharaa, que derrubou o anterior presidente, Bashar al-Assad, está determinado a estender o controlo sobre todo o território sírio.

Sob Bashar, a população curda da Síria controlava parte do território norte da Síria. Durante a guerra civil declarada no país após a Primavera Árabe em 2011, e perante o avanço do auto-declarado Estado Islâmico, as forças curdas foram aliadas da coligação liderada pelos Estados Unidos que forçaram o grupo islamita a recuar.

No caos da derrota do Estado Islâmico e, posteriormente, de Bashar al-Assad, os curdos ampliaram o controlo sobre o território, incluindo campos de petróleo e de gás.

O governo anunciou este sábado que assumiu o controlo de dois campos petrolíferos até agora controlados pelas forças curdas.
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