"Situação está pior". Ex-subdiretor da Mossad denuncia estratégia de Netanyahu com o Irão

por RTP
Benjamim Netanyahu em fevereiro de 2021 Reuters

O Irão acumulou mais urânio enriquecido e continua a estender a sua influência por todo o Médio Oriente, apesar de tudo o que Israel fez para anular o acordo nuclear de 2015. Ao Jerusalem Post, um dos responsáveis por várias operações secretas dos últimos anos, destinadas a isolar e a prejudicar o Irão, não escondeu a insatisfação com o fracasso da estratégia israelita.

"A nossa situação hoje é pior do que no tempo do Acordo nuclear", em 2015, afirmou categórico. "Eles", os iranianos "não abrandaram a sua influência na região, nem por um momento. Estão a desenvolver mísseis... o acordo que fizemos não era bom mas regressámos ao ponto de partida", sublinhou.

Por questões de segurança, o entrevistado só pode ser identificado pela inicial do seu primeiro nome, "A". Até há um mês, era um dos favoritos para substituir Yossi Cohen, o diretor dos serviços secretos israelitas, a Mossad, que se reformará em junho.O ex-diretor operacional da Mossad reformou-se em fevereiro, depois de perder o cargo de diretor dos serviços secretos israelitas para "D", que o antecedeu como subdiretor de Yossi Cohen. Dentro da agência, ambos são tidos em grande consideração e considerados capazes e apolíticos. 

As críticas de "A" à forma foi gerido o dossier iraniano, têm um alvo direto, o atual primeiro-ministro de Israel.

Para "A"Benjamin Netanyahu atou a corda com que se enforcou, ao colocar-se "em completa oposição" à Administração Obama, o que reduziu a capacidade de Israel em mitigar buracos no Acordo nuclear iraniano.

A única solução pareceia ser destruir o entendimento que permitiu ao Irão regressar à cena internacional. "Como é que rompemos o acordo?" questionou "A", para logo responder. "Obviamente, se conseguirmos que a América o denuncie, irá começar a desfazer-se até se dissolver completamente".
Operações secretas
Em 2018, um dos objetivos do ataque da Mossad ao arquivo nuclear iraniano foi obter material convincente para levar o então Presidente norte-americano, Donald Trump, a retirar-se do Acordo firmado em 2015 pelo antecessor, Barack Obama, que punha um freio às aspirações nucleares iranianas.

A missão foi liderada pelo próprio gabinete de Netanyahu e várias outras operações foram iniciadas para convencer Trump a abandonar o acordo. "Preparámo-nos de acordo com isso, iniciámos o processo e o arquivo era um dos objetivos", revelou o ex-subdiretor da Mossad.

O problema foi que, referiu "A",  apesar do programa nuclear iraniano ser uma ameaça existencial a Israel, pelo que devia ser a prioridade, o Governo de Netanyahu começou a misturar outros problemas, como o papel do Irão na região e o programa iraniano para contrabandear mísseis guiados para a milícia xiita libanesa Hezbollah e para as suas forças por procuração na Síria.

Ao tentar resolver todas estas questões de uma só vez, Netanyahu perdeu o foco e a capacidade de concentrar a pressão na redução da ameaça nuclear do Irão, concluiu o especialista em informações secretas.

Apesar de ter conseguido que Trump retirasse os Estados Unidos do Acordo nuclear, este não se dissolveu, como esperavam os israelitas. Antes se aguentou até à chegada à Casa Branca de um novo inquilino, Joe Biden, ex-vice-presidente de Obama e cuja estratégia com o Irão se baseia na diplomacia do regresso ao Acordo, sob condições, e não na oposição frontal.

"A" admitiu a sua frustração com o fracasso absoluto da estratégia. "Se olharmos para hoje, março de 2021, temos uma situação na qual existe enriquecimento de urânio em Fordow, regista-se atividade em Kashan, trabalha-se em Natanz, eles têm 2,5 toneladas de urânio enriquecido acumuladas e agora centrifugadoras avançadas também", enumerou, referindo vários locais onde o Irão desenvolve o seu programa nuclear.

"Mas estamos num sistema democrático", acrescentou, numa aparente farpa a Netanyahu e num recado aos eleitores israelitas à beira de mais umas eleições legislativas.
À beira de (novas) eleições
Segunda-feira, Netanyhau convocou o ministro da Defesa Benny Gantz e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gabi Ashkenazi, do Partido Azul e Branco e seus rivais dentro do próprio gabinete, para debater a estratégia a seguir contra o programa nuclear iraniano e apresentar uma frente unida. Na reunião participaram também Yossi Cohen e o conselheiro para a Segurança Nacional, Meir Ben-Shabbat, eventuais futuros enviados especiais de Israel para as questões iranianas. Ambos respondem diretamente a Netanyahu.

"Esta é uma questão de suprema importância, certamente maior do que querelas politicas", referiu um alto responsável israelita à Agência Reuters.

"Tem de se garantir que todos remam para o mesmo lado e ninguém cai na tentação de falar mais do que deve na esperança de conseguir mais votos".

Israel deverá voltar às eleições legislativas no próximo dia 23, devido a desentendimentos na coligação entre o Likud e o Azul e Branco.

As sondagens preveem um descalabro para o centrista Azul e Branco de Gantz e de Ashkenazy, com o Likud de Netanyahu a manter vantagem apenas suficiente para tentar formar a próxima coligação.

Tanto Gantz como Netanyahu foram mantidos à margem das negociações de Netanyahu para normalizar as relações diplomáticas e económicas com outras potências regionais, como os Emirados Árabes Unidos, alcançadas no verão de 2020.

As novas relações entre Israel e os seus vizinhos árabes sunitas, muito criticadas por Palestinianos e seus apoiantes, foram uma vitória para o primeiro-ministro israelita e poderão ajudar a formar uma frente regional contra a ameaça iraniana, comum a todos, em contra-balanço pelo fracasso quanto ao Acordo.
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