"Testamentos". Quando o martírio é a melhor opção para adolescentes palestinianos

Para centenas de rapazes palestinianos, de 13 ou 15 anos, do campo de Dheisheh, na Cisjordânia, a morte devido a ataques às tropas israelitas parece ser atualmente a melhor escolha possível. A escrita ou a gravação de mensagens de despedida, conhecidas como "testamentos", em árabe, tornou-se para eles, recentemente, um ritual quase obrigatório.

RTP /
Um palestiniano de Jenin lança uma pedra contra soldados israelitas Mussa Qawasma, Reuters

Tais mensagens eram tradicionalmente deixadas por combatentes de grupos armados, como o Hamas e a Jihad Islâmica, antes de partirem para um ataque e na expetativa da morte.

Mas muitos dos adolescentes que deixam uma última mensagem aos pais e amigos, na eventualidade de virem a morrer por atirar pedras aos veículos militares, não pertencem a qualquer grupo nem professam qualquer ideologia. Move-os somente a vontade de lutar contra os israelitas.

Jalal Abukhater, um escritor palestiniano baseado em Jerusalém e na Cisjordânia, costuma ir aos funerais dos jovens abatidos a tiro, para mostrar respeito.

"Não é que eles queiram morrer", explica Abukhater, "mas sentem que não têm nada para oferecer pela Palestina exceto o seu martírio". "Pensam que só atirar pedras aos jipes é um ato de enorme bravura".

A falta de perspetivas de futuro alimenta a audácia.

Raja Abdulrahim e Hiba Yazbek, jornalistas do New York Times, sublinharam num artigo recente baseado em testemunhos recolhidos em Dheisheh, que estes "testamentos" são o reflexo do período mortal que se vive atualmente na Cisjordânia, com as tropas de Israel a conduzirem raids praticamente todos os dias e a bloquear continuamente estradas com postos de controlo.

Operações habituais mas cuja intensidade se agravou em resposta a ataques palestinianos a colonatos de Israel na Cisjordânia no último ano.
"Não fiques triste, pai"
Em seis meses, a contabilidade mortal nos territórios ocupados por Israel ascende a 155 palestinianos, vítimas de militares ou de israelitas extremistas, e a 29 israelitas, um dos números mais elevado desde 2008. Também para os palestinianos, este está ser um dos períodos mais mortíferos em duas décadas.

Nos últimos dias, Israel lançou a sua operação militar mais importante em 20 anos, contra Jenin, Cisjordânia. O alvo eram grupos armados palestinianos. Bombardeamentos destruíram estradas e outras infraestruturas. Pelo menos 12 palestinianos morreram.

Na Cisjordânia, qualquer pessoa vítima de ataques israelitas é considerada "mártir". Os seus nomes e rostos, como os de centenas de outros antes deles, irão por isso ser glorificados nas paredes dos edifícios da Cisjordânia, e, mais recentemente, nas redes sociais, incluindo as suas mensagens de despedida.

Inspirações para os adolescentes os imitarem, escrevendo "testamentos" e saindo à noite às escondidas para lançar pedras aos soldados.

O doutor Samah Jabr, que chefia a unidade da Autoridade Palestiniana para a saúde mental, considera que estas mensagens são parte integrante do trauma geracional de milhares de palestinianos nos territórios ocupados que têm de lidar diariamente com invasões militares e controlos.

Muitos adolescentes sentem necessidade de cumprir o dever de confrontar as tropas israelitas. Cada vez mais prevalece o sentido de que morrer por esta causa é algo heroico, pleno de significado e inevitável.

"Não fiques triste, pai", escreveu Amr Khamour de 14 anos. "Desejei o martírio e recebi-o". "Se regressar como mártir, queira Deus, não chores", pediu à mãe. "E perdoa-me por todos os erros que fiz".

A mensagem manuscrita num papel e depois fotografada com o telemóvel, onde foi encontrada, termina com palavras de amor para sua namorada. "Deus deu-me a pessoa querida ao meu coração, Kariwan".

Amr Khamour morreu em janeiro, vitimado por duas balas de tropas israelitas quando atirava pedras a um jipe militar na sua cidade, Dheisheh. Amr gostava também de dançar com os amigos e de gravar vídeos para o TikTok.
O martírio "é vitória"
Nem duas semanas antes, um dos amigos de Amr, Adam Ayyad, de 15 anos, tinha sido morto numa ocasião semelhante. Tal como Amr, escapulia-se à noite quando os soldados realizavam raids, para os confrontar e atirar-lhes pedras.

Um mês antes, a sua mãe, Wafaa Ayyad, tinha-lhe encontrado um "testamento" escrito numa folha simples, como tantos outros. Rasgou-o, rogou-lhe que não escrevesse outro. Mas Adam desobedeceu-lhe e o novo foi descoberto num bolso quando foi hospitalizado.

"Queria fazer muitas coisas, mas vivemos num lugar onde alcançar os nossos sonhos é impossível", escreveu Adam. "O martírio é vitória. É verdade que a nossa vida acaba, mas pelo menos termina com felicidade".

Especialistas como o doutor Jabr e Ayed Houshia, conselheiro numa escola de rapazes em Dheisheh, afirmam que eles e outros necessitam de ajudar os jovens palestinianos a canalizar medos e frustrações para ações produtivas em vez de confrontos com as forças israelitas onde podem morrer.

Perto da altura da morte de Amr, Ayed Houshia juntou os seus alunos para lhes dizer que a resistência à ocupação israelita não passava apenas por pegar em armas, mas podia ser estudar e planear um futuro. Aconselhou-os a não escreverem as suas mensagens de despedida.

"Porque estará uma criança de 13 anos a pensar na sua morte em vez de no seu futuro" indagou. Alguns dos estudantes responderam-lhe, insistindo que a pátria palestiniana exigia sacrifício. Outros admitiram já terem escrito as suas mensagens.

Pais referiram que os filhos começaram a falar mais do futuro e dos estudos, depois da sessão. Mas a realidade diária impõe-se, lamentou Houshia.

"Podemos aconselhar os alunos, mas não podemos evitar que o exército ataque", afirmou. "A ocupação é o maior motivo entre os jovens que perguntam porque deveriam parar quando são sujeitos à guerra e à morte."
Uma "gota"
A maioria dos adolescentes está consciente de que o seu sacrifício serve de muito pouco. Algumas das mensagens escritas pelos adolescentes de Dheisheh citam Uday al-Tamimi, de 22 anos, um dos seus, abatido enquanto fugia depois de matar um soldado israelita num controlo de estrada. O ataque, escreveu Uday, "é uma gota no mar agitado da luta".

"Sei que serei martirizado mais cedo ou mais tarde, e sei que não libertei a Palestina com esta operação", reconheceu. "Mas eu realizei-a com um objetivo em mente, para que mobilize centenas de jovens a pegar em armas depois de mim".

Amr visitou a campa de Adam, na área conhecida como cemitério dos mártires nos arredores de Dheisheh, perto de Belém. Disse aos amigos que gostaria de ser enterrado no lote ao lado de Adam.

A sua vontade foi cumprida. Muitos dos amigos que acompanham a mãe de Amr, quando ela ali vai cuidar das flores que cobrem a campa, levam consigo os seus próprios "testamentos". E também já escolheram onde querem ser enterrados, ali próximo, em locais que já estão a ser preparados.

Os pais de Amr dizem que tentaram evitar que o filho saísse á noite quando as tropas israelitas entraram na cidade. A operação, referiram os militares, era uma "atividade contraterrorista para deter indivíduos". Um ativista italiano terá sido preso.

O exército afirma estar a investigar a morte de Amr mas não forneceu quaisquer detalhes.
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