Trump em rota de colisão com novo diretor do FBI

O motivo da mais recente briga entre a Casa Branca e os serviços de segurança norte-americanos é um relatório parlamentar confidencial, elaborado por representantes republicanos, que acusa o FBI de parcialidade na investigação à campanha eleitoral de Donad Trump em 2016.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Donald Trump (à esquerda) junto do Procurador-geral Jeff Sessions (centro) e do diretor do FBI, Christopher Wray (à direita) a 15 de dezembro de 2017 numa cerimónia na Academia do FBI em Quantico. Reuters

Os republicanos querem torna-lo público.

Já o FBI alega que isso poderá revelar métodos específicos de contra-espionagem, significando potencialmente um risco de segurança. Diz ainda que o relatório está ferido de erros graves.

O documento tem quase quatro páginas e, apesar da oposição do Departamento de Justiça (equivalente ao Ministério Público) e do FBI, a sua publicação foi autorizada segunda-feira pela comissão para a informação da Câmara dos Representantes, presidida pelo republicano Devin Nunes.

Os republicanos mantêm que o relatório expõe motivações políticas, a favor dos democratas, na vigilância de um membro da equipa da candidatura presidencial de Donald Trump, em 2016.
A denúncia
De acordo com os jornais, que citam fontes que tiveram acesso direto ao relatório, o texto sugere que o Departamento de Justiça e o FBI abusaram do seu poder para obter autorizações, em nome da segurança nacional, para vigiar as comunicações de Carter Page, um conselheiro diplomático da equipa de Trump suspeito de espionagem devido aos seus contactos habituais com responsáveis russos.

O documento sustenta que a vigilância se baseava numa investigação controversa de um ex-espião britânico, Christopher Steele, sobre as alegadas ligações de Donald Trump com a Rússia: uma investigação por seu lado financiada pelo Partido Democrata e por isso de autenticidade duvidosa, afirmam os republicanos.

O documento refere, afirmam as fontes citadas, que os responsáveis do FBI e do Departamento da Justiça ocultaram informações ao juiz do Tribunal da Vigilância de Informação Externa, quando pediram as autorizações de vigilância.

Quarta-feira, Devin Nunes denunciou em comunicado a "utilização por parte de altos responsáveis de informações não verificadas num documento judiciário para alimentar um inquérito de contra-espionagem durante uma campanha política americana".

"Mal a verdade seja revelada poderemos adotar medidas para garantir que as nossas agências de informação e de Justiça nunca mais voltem a ser a ser abusadas desta forma", afirmou Nunes.
Contra-ataque democrata
Os democratas acusam os republicanos de, com este relatório, pretenderem desacreditar de forma perigosa o inquérito, aberto em 2017, sobre uma eventual intervenção russa em conluio com a equipa de Trump, para influenciar a campanha.

Dizem também que os republicanos adulteraram o documento após este ser votado, à revelia e sem aprovação do comité.

Isso mesmo foi referido quarta-feira à noite numa carta enviada a Devin Nunes pelo mais alto representante democrata no comité, Adam B.Schiff, na qual acusa os republicanos de ter feito "alterações materiais" ao relatório após a votação para a sua publicação segunda-feira e antes de o enviarem para a Casa Branca para revisão.

Estas alterações, sustenta Schiff, deveriam obrigar o comité a suspender esse processo para levar de novo o documento a votação.

Os republicanos já rejeitaram estas alegações, que classificam como "uma tentativa esquisita de tentar evitar a publicação do relatório".

"A minoria do comité queixa-se agora da edição mínima do relatório, incluindo correções gramaticais e duas edições requeridas pelo FBI e pela própria minoria", diz um comunicado do porta-voz do presidente do comité, Jack Langer. "O voto para publicar o relatório fez-se absolutamente de acordo com os procedimentos e de acordo com as regras da Câmara e do comité", acrescenta.
Credibilidade do FBI em causa
O próprio FBI tenta de todas as formas defender-se e à sua independência política. Domingo, através dos democratas, o diretor Christopher Wray terá tentado comunicar aos membros republicanos do comité a natureza sensível do material em que se baseia o relatório - tão delicada que apenas dois membros do comité foram autorizados a ter acesso direto.

Mas, de acordo com a ata da reunião à porta-fechada, publicada quarta-feira, Devin Nunes respondeu que estava a investigar o FBI e não iria deixar o diretor da agência que está sob investigação a rever a informação.Christopher Wray foi nomeado por Donald Trump em substituição de James B.Comey, caído em desgraça. Tem mantido uma oposição discreta e sem confronto direto com Donald Trump. O Presidente tem afirmado que a reputação de credibilidade da agência está em "frangalhos" e Wray procura por todos os meios negar essa análise e sustentar a sua independência face a pressões políticas.

"O FBI teve ocasião limitada de rever este memorando no dia antes do comité ter votado a sua publicação", afirmou a agência num comunicado.

"Tal como ficou expresso na nossa avaliação preliminar, temos grandes reservas sobre omissões sobre matéria de facto que têm um impacto fundamental na fiabilidade do memorando".

O Departamento da Justiça tem avisado que o relatório induz ao erro e que a sua publicação seria um mau precedente para tornar públicos segredos governamentais, incluindo fontes de informação sensíveis e métodos de recolha de informações.

Donald Trump está a ser acusado à porta fechada pelo FBI de estar a por a política à frente da segurança nacional e a colocar em risco a reputação da agência.

Segunda-feira, o próprio diretor, Christopher Wray, foi à Casa Branca acompanhado do vice-procurador-geral, Rod J. Rosenstein, para tentar evitar a publicação do relatório. Reuniram-se com o chefe de gabinete John F.Kelly, sem sucesso.
Trump garante publicação
Rosenstein é também um dos principais visados na polémica. Foi ele quem autorizou o prolongamento das investigações a Carter, já em 2017 e quem nomeou o promotor responsável pela investigação à alegada intervenção russa, Robert Mueller. É ele também que tem poderes para o destituir.

A questão do relatório do comité surge quando Mueller está a apertar o cerco a um dos mais próximo colaboradores do Presidente, o seu genro, Jared Kushner e se prepara para, nas próximas semanas, interrogar o próprio Donald Trump sobre as suas alegadas interferências para parar a investigação já quando depois de ocupar a Casa Branca.

O próprio Donald Trump tem negado sempre a tese de colaboração com a Rússia para influenciar a campanha presidencial.

A partir da votação de segunda-feira, Donald Trump teria cinco dias para vetar a revelação do relatório mas ontem, após o discurso sobre o Estado da União, terá garantido ao representante republicano da Carolina do Sul, Jeff Duncan, que ele será tornado público.

"Oh nao se preocupe, 100 por cento", afirmou o Presidente.
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