Vaga de sabotagens de linhas férreas. Alemanha desconfia da Rússia

Vaga de sabotagens de linhas férreas. Alemanha desconfia da Rússia

Uma vaga de atos de vandalismo tem afetado as linhas férreas da região de Düsseldorf, na Alemanha, conseguindo perturbar a circulação ferroviária nas principais ligações de passageiros e de carga. Os serviços secretos alemães estão a investigar e acreditam no envolvimento de operacionais, russos ou ao serviço de Moscovo. O país está em estado de alerta.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um polícia federal alemão inspeciona um poço de cabos de linhas férreas em Leipzig, em 2022 Jan Woitas - AFP

Degradação das vias e de cabos, atos de vandalismo e de sabotagem, são algumas das ocorrências que se multiplicam desde julho, com impacto diverso na circulação de comboios alemães.

Enquanto alguns problemas poderiam ser atribuídos à idade das composições e das infraestruturas, a par da falta de manutenção e de pessoal, outros foram sem dúvida provocados por mão humana.

Foi o caso dos três incêndios ocorridos no início de agosto, em dois dias consecutivos, na linha Düsseldorf-Duisburg, uma das mais utilizadas do país, com uma média de 700 a 800 ligações diárias.

Um dos incêndios foi reivindicado pelo grupo de extrema-esquerda Komando Angry Birds, conhecido pelas autoridades pela sua luta contra “o sistema industrial” e que costuma operar na area de Düsseldorf.

Mas as investigações procuram outras pistas. Os problemas voltaram a surgir nos últimos dois dias.

Na madrugada de segunda-feira, a sabotagem de linhas férreas causou perturbações ao longo de mais de 12 horas nas ligações entre Colónia e Düsseldorf.

Os problemas prosseguiram noutros locais e até terça-feira. “Segunda-feira, desconhecidos estragaram cabos na via férrea entre Herzogenrath e Kohlscheid. Às primeiras horas desta terça-feira, um ato de vandalismo sobre cabos ocorreu igualmente nos arredores de Heinsberg, numa via férrea”, indicou um comunicado policial.

A empresa responsável pelos caminhos de ferro da Alemanha, a Deutsche Bahn (DB), recusa para já pronunciar-se sobre as motivações e autores dos atos criminosos. Promete ainda assim, reforçar a segurança e avigilância. Um porta-voz da empresa afirmou que já foram destacados 4.500 agentes de segurança e 6.000 polícias para patrulhar cerca de 34.000 quilómetros de vias férreas.

“Daqui até ao fim de 2025, a DB terá contratado 280 colaboradores suplementares”, referiu a empresa em comunicado, “para assegurar a proteção das linhas, das instalações e dos edifícios”.

A Alemanha está em estado de alerta perante a vaga de atos de vandalismo.

Os comboios alemães já foram visados em 2022, quando ocorreram incidentes envolvendo cortes de cabos de comunicação em Berlim e Herne, na Renânia do Norte-Vestfália, e em 2023, quando ocorreram alegados ataques incendiários em condutas de cabos ferroviários, perto de Hamburgo.

A investigação dos casos mais recentes foi entregue ao departamento da Segurança do Estado, a Staatsschutz, que geralmente se debruça sobre crimes e delitos politicos.
Campanha russa 

O processo de análise está ainda no início mas, como suspeitos do costume, surgem grupúsculos ligados à extrema esquerda alemã e a Rússia.

A hipótese que gera mais consenso é a de que os ataques se integrem numa campanha russa para instaurar o caos em toda a Europa, eventualmente com o envolvimento de grupos criminosos que permitam a Moscovo defender-se com uma negação plausível.

O objetivo seria perturbar a população civil, incutindo pânico, mais do que atingir alvos militares e linhas de abastecimento. Na semana passada, os serviços de informação alemães estimaram que as sabotagens e os ataques cibernéticos dos últimos meses custaram à economia alemã cerca de 289 mil milhões de euros, e que "as pistas apontam cada vez mais para a Rússia e a China".

Outros países europeus estão também a ser vítimas de sabotagens ou de ataques misteriosos.

A Dinamarca denunciou na terça-feira um "grave ataque" às infraestruturas do país, depois de drones de origem desconhecida terem sobrevoado o Aeroporto de Copenhaga no dia anterior.

No passado fim de semana, vários aeroportos europeus foram afetados por um ciberataque ao software de check-in de passageiros fornecido por uma empresa.
PUB