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Fake News. PJ só pode investigá-las via "crimes associados"
As fake news, como são mundialmente conhecidos os fenómenos de desinformação e difusão de notícias falsas, estiveram em análise esta quinta-feira numa conferência organizada pelas agências de notícias Lusa e Efe, em Lisboa, sob o tema "Combate às fake news. Uma questão democrática".
Todos os oradores deixaram sugestões para a luta contra este tipo de notícias, denunciando os seus efeitos, nefastos a vários níveis. Para já, contudo, as fake news não são crime.
Isso mesmo sublinhou Carlos Cabreiro, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T) da Polícia Judiciária. "Não temos um crime ainda que venha a prever esta questão das fake news", sublinhou.
A PJ, contudo, não está de mãos atadas e pode reagir. "Há um conjunto vasto de crimes a que as podemos associar", sublinhou o diretor da UNC3T, dando o exemplo do crime de calúnia.
O grande problema é a identificação dos autores. Neste "domínio do falso", afirmou Carlos Cabreiro, "as polícias não estão nada facilitadas". E "até o conceito de nação é colocado em causa", assim como o tempo da ação.
"O lastro de informação" pode ser criado hoje, lembrou, mas ter impacto "daqui a seis, sete meses, distante da prática dos factos", lembrou.
O anonimato permitido por um "conjunto vasto de ferramentas" e a criação de falsas identidades são outros obstáculos. Existe "um vasto conjunto de ferramentas que permitem a anonimização", refletiu o técnico, acrescentando que "o próprio mercado possibilita a criação de falsas identidades".
"Estamos perante uma combinação perfeita em que, com um simples clique, podemos causar um dano alargado, podemos ter um alvo de milhões de pessoa, um elevado número de vítimas, e com uma velocidade inigualável", sublinhou Carlos Cabreiro.
Fact-checking ou verificação
O cruzamento de informação entre os vários intervenientes confiáveis será um dos fatores mais importantes na luta contra a desinformação e a criação/difusão de notícias falsificadas.
A nível do jornalismo começam a ser dados os primeiros passos, para se desenvolver um sistema de verificação de factos. A Lusa, em parceria com outras entidades, vai desenvolvê-lo, anunciou a ministra da Cultura, no início da conferência.
"Estamos a desenvolver em conjunto um projeto um pouco mais sofisticado", afirmou Graça Fonseca, revelando que desafiou a Lusa a lançar este debate na sociedade portuguesa, dada a importância que o tema tem no futuro das democracias ocidentais e na qualidade da democracia. "É disso que estamos aqui a falar hoje", disse.
"Hoje em dia, a tecnologia permite-nos ter sistemas bastante sofisticados de fact-cheking", disse, referindo a inteligência artificial como meio de combater a atual "capacidade de os algoritmos determinarem as notícias" que são lidas pelo utilizador.
"A Lusa, em parceria com outras entidades, vai precisamente desenvolver um projeto dessa dimensão", revelou a ministra, que tutela a Comunicação Social.
Fake News em debate no Parlamento
Estas serão algumas das questões a debater em abril próximo pelo Parlamento português, conforme anunciou esta quinta-feira o presidente da Assembleia da República. O debate terá por base um estudo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), sobre a desinformação na comunicação digital. O documento deverá incluir "medidas legislativas a tomar", e deverá ser entregue à Assembleia no início de abril.
"Certo é que vivemos um tempo em que a desinformação, sejam notícias falsas, deturpadas, imprecisas ou enganosas, atingiu uma gravidade tal que constitui uma verdadeira ameaça para a democracia", disse Ferro Rodrigues no encerramento da conferência organizada pelas agências ibéricas de notícias.
O presidente da Assembleia da República destacou, ainda, o "total empenho do Parlamento numa reflexão profunda" sobre o futuro do jornalismo e mostrou-se confiante de que será possível "um consenso" entre partidos para aprovar "medidas e meios" para "um eficaz combate à desinformação".
Ferro Rodrigues reconheceu que "a intervenção do Estado em matérias que podem contender com a liberdade de expressão e de imprensa é sempre delicada" e admitiu ser "possível encontrar soluções" que não firam "os princípios constitucionais instituídos".
Sem adiantar pormenores sobre o tipo de medidas possíveis de adotar, o presidente da Assembleia da República lembrou os relatórios e recomendações da União Europeia e de outras organizações que "atestam a preocupação mundial por este fenómeno" e que têm "medidas delineadas" que são "uma base de trabalho" para todos.
Só que o que tem sido feito até agora a nível da União Europeia, parece ficar aquém do pretendido.
Efeitos do código de conduta europeu
A chefe da Unidade de Comunicação Estratégica da Comissão Europeia, Tina Zournatzi, não se mostrou satisfeita com os primeiros relatórios das plataformas que aderiram ao código de conduta contra a desinformação.
"Esperava mais", afirmou na conferência "Combate às fake news - uma questão democrática".
A especialista grega salientou que o código de conduta, que a Comissão Europeia pôs em prática para combater a desinformação, foi assinado por algumas empresas de publicidade, bem como pelo Facebook, Google, Mozilla e Twitter.Este código de conduta pretende aumentar a deteção, análise e exposição da desinformação, mobilizar o setor privado para atacar este fenómeno, uma cooperação e respostas mais fortes contra as fake news, e ainda aumentar a consciência e a resiliência social.
"Esta é a primeira vez, globalmente, que a indústria consente de forma voluntária, para criar estes critérios de autorregulação para combater a desinformação", sublinhou a especialista.
Cada um destes agentes concordou "em relatar o progresso a cada mês até às eleições europeias (que se disputam de 23 a 26 de maio), bem como a cada ano nos próximos anos", revelou Tina Zournatzi, tendo os primeiros relatórios sido entregues em janeiro.
"Não ficámos particularmente entusiasmados com os relatórios", referiu. "Este mês esperamos mais".
O problema dos euromitos
Para a diretora da Unidade de Comunicação estratégica da Comissão Europeia, um dos exemplos graves das consequências de não dar atenção à desinformação e à criação do que chamou euromitos, terá sido o Brexit.
"Durante vários anos, deixámos andar sem uma defesa a sério, e depois, quando o Brexit aconteceu, apercebemo-nos de que ao longo de tantos anos o público britânico tinha ficado com uma visão muito diferente daquilo que a União Europeia estava realmente a fazer", afirmou Tina Zournatzi.Na opinião de Zournatzi, "a desinformação tem um efeito perigoso" e a Europa tem-se confrontado com isso diversas vezes, por exemplo de cada vez que surge uma nova regulação sobre alimentos ressurge o euromito de que a UE quer banir certos alimentos.
Tina Zournatzi disse também que a informação falsa provém igualmente da Rússia e, por isso, desde 2015, existe uma equipa na UE (East Stratcom Task Force) que se ocupa especificamente da desinformação pró-Moscovo, que já encontrou cinco mil exemplos.
Um dos métodos utilizados por Moscovo, contou, é espalhar várias versões do que aconteceu para confundir as pessoas, que não sabem em que acreditar.
A chefe da Unidade do Porta-voz do Parlamento Europeu (PE), Marjory van den Broeke, sublinhou por seu lado a necessidade de debater e reagir à desinformação.
A responsável europeia, explicou que o PE trabalha "ativamente para desmascarar" informações falsas, "ainda que nem sempre façam sentido".
"Temos de ser credíveis, não podemos dizer balelas às pessoas. Só vamos reagir a coisas que estão incorretas e nunca vamos dizer balelas às pessoas. Pela simples razão de que, se o fizermos, elas não voltam [a confiar nas instituições europeias]", assegurou.
Marjory van den Broeke referiu também que o Parlamento Europeu não pode negligenciar as informações, apenas porque circulam na Internet. "Podemos ser muito cerebrais e dizer que estamos acima disso, mas não vai ajudar", considerou.
Um problema de liberdade?
O embaixador para a ciberdiplomacia, Luís Barreira de Sousa, denunciou os ataques no ciberespaço, que comprometem a confiança dos cidadãos e enfraquecem o Estado de Direito, obrigando o debate a centrar-se também sobre a liberdade de expressão.
Os ataques dirigidos às instituições democráticas e partidos políticos "podem ser gravíssimos, prejudicar a integridade do voto, minar a confiança dos cidadãos e dos eleitores e enfraquecer o estado de direito", sublinhou o embaixador, responsável em Portugal pelo sistema de alerta rápido de campanhas de desinformação que a União Europeia está a implementar.
Luís Barreira de Sousa considerou que o combate à desinformação "pode pôr em perigo características do ciberespaço", nomeadamente no que respeita à liberdade de expressão.
Este valor, que era considerado universal, "não é necessariamente comungado por toda a gente", notou o embaixador, destacando que se vive "um período difícil" marcado por um confronto entre dois modelos de organização da Internet: um, defensor da liberdade de expressão, e outro baseado na "soberania digital" e no "controlo da expressão".
Admitindo que o ciberespaço "é extremamente vulnerável ao abuso", Luís Barreira de Sousa sublinhou que a deslocação da atividade maliciosa para as instituições democráticas obriga também a procurar respostas.
A responsabilidade do público
A nível de jornalismo, os conferencistas consideraram que o impacto das fake news tem-se revelado devastador para a confiança do público na informação difundida pelos títulos de grande difusão, que sofrem a concorrência das redes sociais.
Neste caso, a responsabilidade do combate à desinformação está nas mãos do recetor, apontou, como ideia de reflexão, Walter Dean, ex-jornalista norte-americano e professor universitário convidado na Universidade Nova de Lisboa, que tem estudado o tema das "notícias falsificadas".
"Acho que o principal é que as pessoas têm de prestar atenção às fake news", disse Dean, sublinhando a dimensão que as falsas informações alcançam nas redes sociais.
O aspeto político é atualmente, para Walter Dean, o ponto crítico, com os países a transformarem a informação num campo de batalha, uma guerra por ideias, pela consciencialização pública.
Walter Dean afirmou que está a tentar perceber a relação entre cidadãos e instituições governamentais. "Um dos principais desafios é como reagem a fake news. Por um lado, têm de proteger a liberdade de expressão e, por outro, têm de proteger a qualidade da informação que os eleitores usam para tomarem boas decisões sobre a governação", declarou.
"A internet torna isso mais difícil, porque há ali tanta informação e tão disponível. Qualquer um pode agora publicar e editar, passando informação a outras pessoas. Pode isto ser regulado, deve ser regulado?", questionou.
A reinvenção do jornalismo
No mesmo painel, dedicado à forma como o jornalismo e as agências noticiosas podem combater fenómeno, o jornalista Paulo Pena, autor de uma série de reportagens no Diário de Notícias sobre fake news em Portugal, defendeu que o jornalismo precisa de se reinventar para que "a desinformação não triunfe".
"Isso é mais urgente agora do que no passado", afirmou. Afirmando que o panorama em Portugal é diferente do exposto por Walter Dean, Paulo Pena considera que em Portugal "mudou a maneira como os cidadãos validam a informação", quando "muitos acreditam em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras, apenas porque reforçam as suas convicções".
O mecanismo é simples e levará esse cidadão a pensar que se não gosta "do político A", então acredita que "ele roubou ou é corrupto", descreveu. O principal problema deste mecanismo é o risco que representa para a democracia.
E se "a liberdade de opinião deixar de se basear em factos, ela deixará de ser útil". As redes sociais, alertou, aproximam-se mais de "tascas" do que o Speakers Corner, em Londres, onde cada um vai expor livremente as suas opiniões.
"Este é o melhor pretexto que temos para olhar com seriedade para o jornalismo, para encarar as suas falhas, o seu complexo e grave problema económico, mas também a sua utilidade social", disse.
Pontapé de saída positivo
A diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles, fez hoje um balanço positivo da conferência sobre fake news e disse esperar que a agência de notícias possa ser "uma plataforma de trabalho no combate" a este fenómeno.
"Faço um balanço muito bom, porque acho que houve intervenções ótimas", afirmou Luísa Meireles, lamentando não ter havido "tempo para fazer mais debate" sobre o tema.
A conferência "há de ser um pontapé de saída para outras coisas e eu espero que a Lusa possa ser uma plataforma de trabalho de combate às fake news. Acho que nós vamos conseguir isso na Lusa", salientou a diretora de informação.
Questionada sobre o anúncio feito hoje de que a Lusa vai desenvolver um sistema de verificação de factos, no âmbito do combate à desinformação, Luísa Meireles disse: "Por enquanto é um desejo, é uma esperança e é uma vontade".
O fact-checking, "em boa verdade, é o núcleo central do nosso trabalho, ou seja, a verificação dos factos", apontou.
"Hoje, devido à multiplicação de factos, muitos deles falseados ou manipulados", é exigida "uma atenção especial dos jornalistas (...), temos muito tempo ocupado nas tarefas normais da nossa profissão", prosseguiu.
Por isso, "um dos caminhos que podemos seguir para combater ou para ajudar neste combate é vir a criar uma equipa que aprofunde esta questão", disse. "Não sabemos ainda qual será a maneira disso se concretizar, mas é de certeza uma vontade", concluiu.
Lusa/RTP