FLUL. Diretor considera ocupação "inaceitável" e diz que algumas exigências "nunca" deverão ser aceites

por Joana Raposo Santos - RTP
A última semana foi marcada por protestos e ocupações de vários estabelecimentos de ensino em Lisboa. Pedro Nunes - Reuters

O diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Miguel Tamen, vê as ações dos estudantes que na semana passada ocuparam esse estabelecimento de Ensino Superior como inaceitáveis e garante que a força usada pelas autoridades foi "de modo proporcional e muito limitado". O responsável disse ainda ter reunido com os ativistas, mas frisa que várias das suas exigências "nunca" deverão ser aceites pela FLUL.

“Durante a semana passada a faculdade foi objeto de ações, descritas como de ocupação, por alguns ativistas ambientais (parte dos quais nossos estudantes)”, começa por ler-se na circular que Miguel Tamen fez chegar a professores, estudantes e funcionários da faculdade.

O diretor refere que as ações desses ativistas perturbaram deliberadamente a realização de aulas e avaliações, tendo sido motivo de queixas por vários docentes, alunos e funcionários da FLUL.

“Durante essa semana falámos muitas vezes com os ocupantes; nunca nos recusámos a fazê-lo. As conversas foram sempre inconclusivas, tendo em conta aquilo que nos era exigido; e os ocupantes recusaram-se a considerar sair antes de todas as suas exigências serem atendidas”, explicou o responsável.

“A ideia de que uma comunidade autónoma como a faculdade possa ser ocupada desta maneira é para nós inaceitável”, frisa Tamen, acrescentando que “não podemos nem devemos, enquanto universidade, ser porta-vozes de quaisquer causas”.

O diretor justifica esta posição com os argumentos de que “toda a gente que faz parte da nossa comunidade possa na sua vida pública ser porta-voz das causas que entender, possa organizar os eventos que entender, e assinar os abaixo-assinados que entender”.

“A Faculdade orgulha-se com razão de ser um espaço de liberdade de expressão, coexistência, e livre-circulação; e eu concordo completamente com estas ideias”, afirma.
Há exigências que a faculdade “nunca” deverá satisfazer, defende diretor
Miguel Tamen explica, na circular, as principais exigências dos ativistas, dividindo-as em três grupos. O primeiro é o das exigências que não compete à faculdade satisfazer, como a demissão de um ministro ou a redução da utilização de combustíveis fósseis no país.

O segundo grupo é o das exigências que a FLUL pode “considerar satisfazer”, como o aumento de casas de banho sem género marcado.

Por fim, o grupo das exigências que “não deveremos nunca, em meu entender, satisfazer”, defende o diretor, dando como exemplos “o despedimento de professores suspeitos de assédio sem procedimento legal devido, a existência de ações obrigatórias de sensibilização destinadas a professores e funcionários; a criação de unidades curriculares com conteúdos pré-determinados; ou a tomada pública de uma posição favorável às suas exigências pelo diretor da faculdade”.

Tamen refere que, na última sexta-feira, pediu à Polícia que retirasse os ocupantes das instalações da FLUL, pedido que “tem apenas três ou quatro precedentes na nossa escola nos últimos cinquenta anos”.

“Escuso porém de lembrar que há uma diferença substancial, e bem-vinda, entre a polícia num Estado de direito e a polícia numa ditadura”, acrescenta.
Força policial foi usada “de modo proporcional”
Segundo o diretor, na noite de sexta-feira 11 polícias retiraram 13 estudantes das instalações e nove saíram livremente. “Três colaram-se ao chão e um ficou com eles. A polícia retirou os três estudantes das instalações e o quarto saiu com este último grupo”, detalha.

Miguel Tamen sublinha ainda que a força usada pelas autoridades foi “de modo proporcional e muito limitado”, servindo para “proteger a nossa autonomia e a nossa liberdade, no respeito estrito da lei”.

A última semana foi marcada por protestos e ocupações de vários estabelecimentos de ensino em Lisboa, com os estudantes a exigirem, entre outras medidas, a demissão do ministro da Economia, António Costa Silva.

O governante aceitou entretanto receber no Ministério seis representantes dos ativistas climáticos, estando o encontro marcado para terça-feira às 17h00.

Os protestos em Lisboa coincidem com a COP27 - Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorre na estância turística de Sharm el-Sheikh, no Egito, até à próxima sexta-feira.
pub