Governo e autarcas. Depois das chamas, a troca de críticas

por Joana Raposo Santos, Carlos Santos Neves - RTP
O incêndio nos concelhos de Vila de Rei e Mação consumiu 9.631 hectares de floresta António José - EPA

Portugal sofreu nos últimos dias os incêndios de maiores dimensões deste ano. As primeiras chamas deflagraram no sábado no distrito de Castelo Branco, afetando especialmente a Sertã e Vila de Rei. Alastraram-se, no mesmo dia, a Mação. A Proteção Civil deu esta terça-feira por dominados os fogos no centro do país. Controladas as chamas, subiu de tom a troca de críticas entre Governo e autarcas. Entretanto, a Proteção Civil advertiu para o risco inerente à subida das temperaturas nos próximos dias.

Com as chamas já dominadas pelos operacionais, que continuam no terreno, procura-se agora apurar sobre quem recaem as responsabilidades. Se, por um lado, António Costa tinha já afirmado que os autarcas são os “primeiros responsáveis pela Proteção Civil em cada concelho”, o ministro da Administração Interna declarou esta terça-feira que quem não ativou a situação de emergência municipal responderá "perante as populações".

Eduardo Cabrita referiu-se desta forma ao presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, com quem se encontrou esta terça-feira ao visitar as zonas mais afetadas pelas chamas. Posição reiterada em entrevista ao Telejornal.


"O senhor presidente da Câmara de Mação, com quem estive hoje à tarde, vejo com desgosto que - aquilo que julgava ser uma perturbação motivada pela tensão da ocorrência que estava a passar-se no seu concelho - optou por não promover a ativação do Plano Municipal de Emergência, não dar qualquer cooperação ao esforço de Proteção Civil e ser verdadeiramente um comentador televisivo", redarguiu o titular da pasta da Administração Interna.

Já o autarca afirmou que o ministro da Administração Interna "assumiu que aquilo que está determinado pelo Governo foi cumprido". O que, acrescentou, significa que "podemos esperar que as coisas não corram muito bem em cenários parecidos".

Relativamente ao facto de o Plano de Emergência Municipal de Mação só agora ter sido aprovado por Lisboa, o presidente da Câmara frisou que tal não pôs em causa o socorro.

Ainda na entrevista à RTP, o ministro da Administração Interna respondeu às críticas sobre a alegada de falta de meios nos primeiros instantes do combate às chamas em Vila de Rei e na Sertã, antes da propagação a Mação, no passado sábado. "Tivemos cinco incêndios que começaram à mesma hora", afirmou, para em seguida apontar a "evolução extremamente rápida" de um deles.

Só com os incêndios que começaram no sábado, a área ardida em Portugal este ano duplicou. O centro do país foi o mais afetado, depois de em 2017 ter já perdido uma significativa percentagem de área florestal.

De acordo com o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS), o incêndio nos concelhos de Vila de Rei e Mação consumiu 9.631 hectares de floresta, número que se aproxima ao da área da cidade de Lisboa.
“Responderão perante populações”
O Governo tinha já sublinhado esta terça-feira que as câmaras da Sertã e de Vila de Rei declararam de imediato a situação de emergência municipal, no âmbito do incêndio que deflagrou no sábado.

"Respeito a posição quer da Sertã, quer de Vila de Rei que, de imediato, declararam a situação de emergência municipal. Quem não o fez responderá perante as populações", afirmou o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita.

Questionado sobre a aprovação, apenas hoje, do novo Plano Municipal de Emergência de Mação, o ministro explicou que foram aprovados 20.

"A emergência municipal poderia ter sido declarada [em Mação]. Este [novo plano] é uma atualização. Houve dois presidentes de câmara que muito bem, muito bem, declararam de imediato a emergência municipal. As populações ajuizarão quem não o fez", reforçou.

Eduardo Cabrita disse ter um "grande respeito" por quem faz comentários toldado pela pressão das circunstâncias e adiantou que respeita a autonomia local.
Autarcas são "primeiros responsáveis"
Na segunda-feira, António Costa sublinhou que os autarcas são os “primeiros responsáveis pela Proteção Civil em cada concelho”, afirmação que gerou polémica entre as autarquias e levou a correções por parte dos dirigentes dos concelhos afetados.

Depois de o vice-presidente da Câmara de Mação ter defendido que as afirmações de António Costa “não foram corretas”, o presidente do município fez saber que a lei foi comprida, questionando se o mesmo terá acontecido noutras regiões.

“Nós temos mais de 2.500 quilómetros de estradões florestais, nós temos feitas as faixas ao lado das estradas, conforme manda a lei. A pergunta que deixo no ar é: será que todos o fizeram?”, questionou Vasco Estrela.

“É que nós aqui pagamos politicamente o facto de andar a cortar árvores para cumprir a lei, e noutros locais não tenho a certeza se o fizeram (…). Há municípios que tenham 60 tanques de abastecimento de água como nós temos?”.

Também o presidente da Câmara de Vila de Rei considerou que “o primeiro-ministro reagiu a quente, o que é compreensível perante a situação”, e esclareceu que os meios iniciais de combate ao incêndio foram insuficientes, situação que acabou por ser corrigida no segundo dia”.

"Com as alterações climáticas, precisamos de dar outras condições à Proteção Civil, de reforçar meios, de refletir sobre a maneira de atuar, senão as pessoas não conseguem estar em segurança nesta região", defendeu Ricardo Aires.
“Aumento da temperatura global”
Em declarações aos jornalistas ao final da tarde desta terça-feira, na Sertã, o ministro da Administração Interna defendeu que os resultados deste ano no combate às chamas foram “ainda melhores” do que os alcançados no ano passado durante os incêndios em Monchique, salientando o facto de não se ter registado a perda de nenhuma vida.De acordo com o EFFIS, os incêndios florestais consumiram este ano 18.606 hectares de floresta, enquanto que a média da aérea ardida entre 2008 e 2018 foi de 24.622.

Eduardo Cabrita acredita, no entanto, que “quem disser que não teremos mais incêndios de grande dimensão no futuro, está a mentir”, pelo que é necessário continuar a melhorar as estratégias de prevenção e lutar contra o “aumento da temperatura global”.

Horas antes, enquanto visitava Cardigos, o ministro manifestou “toda a solidariedade” para com as populações atingidas nos concelhos da Sertã, Vila de Rei e Mação e elogiou os esforços de todos os operacionais envolvidos na luta contra o fogo.

Para o ministro, os incêndios dos últimos dias permitem verificar “o quanto as alterações climáticas e as características da nossa floresta exigem uma resposta que está já a ser dada”, nomeadamente através dos mecanismos de reforma da floresta.
Risco de incêndio vai aumentar
Ao final da tarde, a Proteção Civil alertou para o aumento do risco de incêndio na quarta e na quinta-feira, devido à subida de temperatura prevista pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

De acordo com o IPMA, esta quarta-feira deverá registar-se uma “humidade relativa do ar com valores próximos de 10 a 20 por cento nas regiões do interior e no sul durante a tarde”, a temperatura máxima deverá subir entre dois a seis graus e o vento poderá atingir os 40 quilómetros por hora ao início da noite.

Na quinta-feira as previsões melhoram, mas ainda assim prevê-se uma “humidade relativa do ar com valores inferiores a 35 por cento no interior e sotavento algarvio”, mantendo-se a previsão de ventos fortes. As temperaturas deverão descer, mas apenas ligeiramente.

Face a estas previsões, a Proteção Civil alerta para o “aumento dos índices de risco de incêndio durante o dia de amanhã, em especial no interior Norte e Centro e na região do Algarve” e recomenda a adequação dos comportamentos e atitudes face à situação de perigo.
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