Montenegro desafia Rio para evitar “derrota humilhante” do PSD

| Política

"Há um ano ninguém imaginava esta brutal degradação do PSD, ninguém admitia esta queda enorme nas sondagens", considerou Montenegro
|

Menos de um ano após o Congresso Nacional do PSD onde Rui Rio se consagrou como líder, surge o primeiro grande desafio à chefia do partido, com Luís Montenegro a mostrar-se disponível para ser alternativa e a desafiar a atual liderança a convocar novas eleições diretas imediatas. O antigo líder parlamentar diagnostica uma “brutal degradação” do partido ao longo do último ano, que considera “amorfo” a fazer oposição e “muleta” do Governo de António Costa.

Foi no CCB, obra emblemática de antigos Governos do campo social-democrata, que Luís Montenegro quis esta sexta-feira anunciar a sua disponibilidade de avançar com uma candidatura à liderança do PSD, um partido que está, segundo argumentou, "à beira do abismo" nos próximos desafios eleitorais. 

Numa comunicação de cerca de 15 minutos, sem direito a questões por parte dos jornalistas, o antigo líder da bancada parlamentar do PSD diz que o partido chegou a um estado “mau, preocupante e irreversível” com a atual liderança.  
 
“Rui Rio prometeu fazer do PSD uma alternativa e uma oposição firme ao Governo. Falhou. Infelizmente, ao fim de um ano, não se reconhece um projeto, uma estratégia, um reposicionamento, uma mensagem mobilizadora e diferenciadora”, apontou.  
 
Montenegro considera ainda que o PSD tem sido “frouxo” e “amorfo” a fazer oposição ao Governo de António Costa, em que os social-democratas são “uma muleta do PS”, sendo Rui Rio a “bengala” do primeiro-ministro.
 
Rui Rio esteve reunido com a Comissão Política do PSD durante a tarde, logo após as declarações de Montenegro.

Ao início da noite de sexta-feira, o líder social-democrata esteve ainda reunido no Porto com o Presidente da República.

Em resposta aos jornalistas à saída do encontro com Marcelo Rebelo de Sousa, Rio não quis comentar diretamente as declarações de Montenegro ou esclarecer se vai ou não avançar com a marcação de eleições internas, mas garantiu que não vai ignorar os acontecimentos no seio do PSD nos últimos dias.

"Não vou fazer de conta que nada está a acontecer, seria uma grande hipocrisia", sublinhou o líder social-democrata, remetendo uma reação para os próximos dias, "com calma e na devida altura". 

Rio “falhou”  

A avaliação que Montenegro faz do último ano de liderança do antigo autarca do Porto à frente do PSD pinta-se de tons negros, com declarações fortes e frases pesadas.

O antigo líder parlamentar considera que Rio “falhou” na promessa de unir as várias fações e “hostilizou quadros e estruturas do PSD, numa lógica maniqueísta de divisão entre os bons e os maus”.
 
“Rui Rio prometeu fazer o PSD subir nas sondagens. Falhou. Infelizmente nunca foram tão baixas e tão más para o PSD”, assinalou o agora candidato, referindo intenções de voto na ordem dos 24 ou 25 por cento.  
 
A menos de um ano de se realizarem novas eleições legislativas, Luís Montenegro considera que o PSD já se resignou e “deitou a toalha ao chão com esta liderança”.  
 
“A única preocupação da atual liderança do PSD hoje é a de encontrar justificações para a derrota que ela própria pré-anuncia. Tudo isto é mau, preocupante e irreversível com esta liderança. A democracia precisa de uma oposição como deve ser, firme e determinada, capaz de mobilizar os portugueses, competente para apresentar uma alternativa que seja credível e mobilizadora”, assinalou Montenegro.  
 
O ex-responsável pela bancada parlamentar do PSD no Parlamento - entre 2011 e 2018, este último precisamente o ano em que Rui Rio chegou ao poder – pede o regresso de um partido que fala aos jovens, à classe média e aos reformados, e que incentiva e defende as pequenas e médias empresas. 

“Este PSD hoje não existe, mas tem de voltar a existir. Pelo andar da carruagem, se nada for feito, o PSD corre o risco de ter uma derrota humilhante”, antecipou Luís Montenegro, prevendo ainda que o partido perca a natureza de “grande partido nacional” e entre “num processo de enfraquecimento que pode ser brutal e irreversível”. 
PSD à beira do "abismo"
Montenegro considera “urgente mudar o estado de coisas” e assinalou a importância de “salvar o PSD do caminho para o abismo em que está mergulhado”.  
 
“Sempre defendi que os mandatos devem ir até ao fim, e em circunstâncias normais era assim que devia acontecer. Só que já não estamos a viver uma situação normal (...). Há um ano ninguém imaginava esta brutal degradação do PSD, ninguém admitia esta queda enorme nas sondagens, ninguém suspeitava que o PSD estivesse a caminho de uma das derrotas mais humilhantes da sua história”, sublinhou ainda.  
 
Luís Montenegro voltou a assinalar que vê o PSD atual como “um partido sem causas, amorfo a fazer oposição, incapaz de mobilizar os seus militantes e eleitores, em risco de ter uma derrota que pode comprometer a sua sobrevivência como grande partido nacional”.
 
“Face a este estado de coisas sinto a responsabilidade de sair da minha zona de conforto. Não me resigno a esta situação, à ideia de um PSD pequeno, perdedor, irrelevante, sem influência política e sem importância estratégica. Não aceito que o PSD continue a deixar à solta, sem oposição e sem alternativa, um Governo irresponsável e leviano”, apontou o antigo líder parlamentar, em referência ao atual executivo de António Costa.  
 
“Alguns preferirão o caminho do deixa andar, para queimar o líder em lume brando, à espera de melhor oportunidade. Não é essa a minha forma de agir. Considero mais saudável, leal e muito mais útil, para o país e para o partido, pôr tudo em pratos limpos, evitando caminho para o abismo. O PSD tem uma grande responsabilidade”, acrescentou.   
Eleições internas “imediatas”
Montenegro disse ainda que o tempo é “de esperança” para servir o interesse nacional “de forma livre, transparente e incorruptível”, que chegue à vida das pessoas “conferindo-lhes bem-estar e mais oportunidades”,  
 
“Estou aqui para dizer ao país que precisamos de um Governo novo e que precisamos de um novo primeiro-ministro. Estou aqui para ser o adversário que António Costa não teve ao longo do último ano. Estou aqui disponível para liderar essa mudança. Portugal está a marcar passo e está a perder tempo com este Governo socialista, bloquista e comunista”, disse Montenegro.  
 
O antigo líder parlamentar convidou Rui Rio a “marcar já eleições diretas e a apresentar a sua própria candidatura”.  
 
“Estou disponível para me candidatar de imediato à liderança do PSD”, apontou.  
 
Montenegro fez questão de salientar em dois momentos do discurso que o desafio que coloca ao líder do partido não é “pessoal”.  
 
“Este é um confronto entre duas estratégias. De um lado, Rui Rio e a sua ideia de um partido pequeno perdedor, satélite do PS, complacente com António Costa, sem uma agenda reformista e sem causas que mobilizem militantes e portugueses”.  
 
Do outro lado, segundo Montenegro, a sua própria estratégia de “um partido grande, ganhador, com vocação maioritária, autónomo do PS, independente e crítico do primeiro-ministro”.
 
“Se tem mesmo Portugal à frente de tudo, mostre coragem e não hesite em marcar eleições internas. Não tenha medo do confronto. Não se refugie atrás de justificações formais. O tempo é de respeito pessoal, mas de confronto político entre duas estratégias distintas”, afiançou.  
 
“Disse que se fosse preciso estar cá, cá estaria e cá estou. Disse que se sentisse que devia avançar, não ia pedir licença a ninguém e não pedi. Estou aqui porque quero estar, mas estou aqui sobretudo porque sinto que devo estar. Quero lutar com toda a força pelo interesse nacional e pelo futuro de Portugal”, completou.  
Direção do PSD fala de “golpe de Estado”
Ainda antes da declaração, a direção do PSD já tinha classificado esta decisão como uma “tentativa de golpe de Estado” dentro do partido e que a candidatura de Luís Montenegro constitui “um exercício de oportunismo descarado e de quem quer assegurar a sua própria sobrevivência e da clique que o rodeia”.
 
Em declarações à agência Lusa, a vice-presidente dos social-democratas, Isabel Meirelles, salienta que Rui Rio “foi eleito por 22.500 militantes, com 54 por cento dos votos”.
 
“É um grito de desespero para manter o poder, os lugares. Parece-nos horrível, pela sede de poder não vale tudo, não vale destruir o partido e dá-lo de bandeja à maioria de esquerda e prejudicar o próprio país”, referiu a dirigente do partido.  
 
Isabel Meirelles acrescenta ainda que a posição de Luís Montenegro mostra que este “não se respeita a si próprio”, uma vez que ainda em fevereiro de 2018, o antigo líder parlamentar dos social-democratas garantia que não faria oposição a Rui Rio.  
 
Já em setembro último, Montenegro opôs-se à realização de um congresso extraordinário do partido ou a uma alteração da liderança antes das próximas eleições legislativas, que se realizam a 6 de outubro deste ano.  
 
“Alguém que quer confrontar António Costa usa a mesma ideia de ilusão e de mentira, que é dizer uma coisa e fazer outra. Isto mostra o caráter e uma pessoa que não tem ética nem para liderar uma Junta de Freguesia, quanto mais o partido”, apontou a vice-presidente.
 
Recorde-se que Luís Montenegro foi líder parlamentar do PSD entre 2011 e 2017, abandonando este cargo em abril do ano passado. No congresso nacional do PSD que consagrou Rui Rio como líder dos social-democratas, em fevereiro de 2018, Luís Montenegro anunciou que renunciava ao mandato, assumindo-se crítico da nova liderança do partido.

Tópicos:

Luís Montenegro, PSD, Rui Rio,

A informação mais vista

+ Em Foco

A ONU alerta para um ano de grande instabilidade e de necessidades maiores por parte da população civil.

Os dias estão mais quentes e não é por causa do advento da primavera. A razão está identificada - as alterações climáticas fazem-se sentir em todo o planeta e as consequências espelham-se em fenómenos extremos.

Toda a informação sobre a União Europeia é agora agregada em conteúdos de serviço público. Notícias para acompanhar diariamente na página RTP Europa.

    Em cada uma destas reportagens ficaremos a conhecer as histórias de pessoas ou de projectos que, por alguma razão, inspiram ou surpreendem.